The Dark Glow of the Mountains (Werner Herzog, 1985)

Mesmo depois de deixarmos aquela idade pentelha do “por quê”, não conseguimos deixar de questionar atitudes que pareçam absurdas ou, meramente, fora do comum. Penso que o esporte que mais recebe “porquês” é justamente o montanhismo. Porra, pra que subir a montanha se depois tu vai ter que descer? Pra que subir a montanha se não tem nada lá em cima além de rocha, gelo e neve? Ouvi dizer que em um outro documentário sobre montanhismo, Herzog procura essa resposta entre alguns montanhistas experientes. Mas neste Dark Glow of the Mountains, Herzog faz a pergunta diretamente àquele que é considerado o maior montanhista da história do esporte: Reinhold Messner é um italianão gigante e barbudo, detentor dos maiores feitos já registrados em alta montanha. Não vou ficar apontando aqui tudo o que ele fez, porque ele fez coisa pra caramba e etc. Apenas peço que aceitem minha afirmação de que o homem é um deus no mundo do montanhismo.

Na ocasião deste documentário, Herzog acompanhou Messner e seu companheiro Hans Kammerlander até o acampamento-base das montanhas Gasherbrum 1 e 2 (respectivamente a 11ª e a 13ª maiores montanhas do mundo). A idéia dos dois montanhistas era subir ambas as montanhas em sequência, sem regressar ao acampamento entre uma escalada e outra. Herzog, como documentarista discreto que só ele é, acompanha tudo de perto, mete o bedelho onde não é chamado e cutuca feridas dos aventureiros. Entre planos belíssimos dos grandes paredões e glaciares e cumes e avalanches que essas montanhas possuem, Herzog captura momentos impressionantes que evidenciam o comportamento de Messner em alta montanha. Eu já havia assistido a algumas entrevistas com Reinhold Messner (normalmente sobre sua aversão à utilização de oxigênio suplementar na montanha e sobre suas escaladas solo ao Everest) e assimilei facilmente a imagem do montanhista “forte e sem medo de nada”. Imagem que Messner nem precisa se esforçar para passar, uma vez que sua própria postura e fisionomia já denotam tal imagem. Mas aqui, Herzog, com pouco mais de quatro perguntas consegue derrubar o gigante, levando-o às lágrimas com a lembrança da morte do irmão, na montanha Nanga Parbat, no Paquistão. Numa cena imediatamente após esta, Messner está recomposto, sério, falando sobre o planejamento da escalada: “devemos voltar em sete dias. Se não voltarmos em dez, juntem as coisas e vão embora, porque ninguém mais conseguirá nos encontrar”.

Além disso, o que Herzog faz de mais fascinante é abrir espaço para que o espectador questione a ele. Na cabeça de Herzog, tão absurda quanto a idéia de subir uma montanha é a idéia de acompanhar os dois malucos que vão subir apenas para filmá-los. A resposta do “porquê” que Herzog busca, no final das contas, servirá para ele também. E o que ele consegue arrancar de Messner é a idéia de que sua fascinação pelas montanhas é derivada, sim, de uma espécie de loucura. Uma loucura análoga àquela dos artistas, por exemplo. Suas ações justificam-se em seu próprio ser e, justamente por isso, é improvável que pessoas que não pertençam a seu grupo de convívio e atividade consigam compreendê-las, uma vez que estas ações não são passíveis de racionalização.

Aí está a grande resposta de Herzog, no final das contas. Se Messner escala a montanha porque é um louco, Herzog o filma escalando a montanha porque é louco também.

4/4

Murilo Lopes de Oliveira

1 comentário

Arquivado em Comentários

Uma resposta para “The Dark Glow of the Mountains (Werner Herzog, 1985)

  1. Djonata Ramos

    Murilo e seus docs sobre montanhismo e afins. haha

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