Screenshots! – A Morte Num Beijo (Kiss Me Deadly – Robert Aldrich, 1955)

por Luis Henrique Boaventura

Os pés como ferramentas pra narrativa são objetos recorrentes em A Morte num Beijo (para transmitir o desespero, o antagonismo ou a própria morte). As escolhas do Aldrich na hora de posicionar a câmera fazem uma espécie de rima com o crescente anarquismo que vai despindo o que parecia um noir clássico para revelar um thriller surreal que flerta o tempo inteiro com um perigoso limite entre o suspense e o horror. A câmera entre grades, pára-peitos, em frestas próximas ao teto, levemente na diagonal na cena em que Gabrielle desce as escadas, no chão na cena final da praia – vão sugerindo um certo voyerismo ao espectador, como se as lentes não estivessem à vontade, como se você fosse espremido e enfiado em todos os cantos possíveis pra poder observar os personagens sem que os personagens pudessem saber que são observados. É um esconde-esconde, é genial, e apesar de conceitualmente ser muito interessante, o que interessa mesmo é que A Morte Num Beijo é bonito pra caralho.

Texto: A Morte Num Beijo (Robert Aldrich, 1955) – Daniel Dalpizzolo – 4/4

7 Comentários

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7 Respostas para “Screenshots! – A Morte Num Beijo (Kiss Me Deadly – Robert Aldrich, 1955)

  1. Ranieri Brandão

    Dos melhores dos anos 50. Uma ficção meio maldita, suja, cortante sobre os perigos desse mundo perdido mesmo…

  2. A Morte Num Beijo, tendo em vista seu nível de qualidade, pode ser comparado a grandes clássicos, como À Beira do Abismo (de Howard Hawks) ou a O Falcão Maltês (de John Huston), apesar de ser inferior aos dois – graças, em grande parte, ao nível do elenco. Ainda me pergunto o motivo da displicência com a escolha dos intérpretes: a melhor atuação, para se ter ideia, pertence a Cloris Leachman em seus poucos minutos de cena, e Ralph Meeker está longe de ser um Bogart.

    No final das contas, a satisfação é uma constante em boa parte da sessão, nessa trama cercada pelo mistério – e a chave dele (literalmente falando) trará até nós, como bem disse o crítico Antonio Moniz Vianna, uma versão atômica da caixa de Pandora.

  3. O Ralph Meeker tem um ar canastrão de malandro muito agradável. é claro que nem todos os filmes podem ou precisam ter Humphrey Bogart, mas no caso de A Morte Num Beijo, o Meeker funcionou muito bem.

    Mas enfim, atores [/ginga]. E realmente não sei o que pensar do filme do Aldrich diante de Falcão Maltês ou à Beira do Abismo; primeiro por amar a todos como se fossem meus filhos, segundo porque esses aí são verbetes do film noir, e A Morte Num Beijo se constrói em boa parte subvertendo e tirando o gênero do eixo com sua vocação pro fantástico.

  4. caiolefou

    Filme genial, vi por esses tempos também. Nunca esperei muito de Aldrich, mas às vezes ele conseguia isso aí.

    E o melhor ator do filme é Jack Elam, mas quem se importa, o papel mais famoso dele é na abertura de Era Uma Vez No Oeste.

  5. Andrea Beatriz Emmer

    O filme até que é interessante, se você não se importar com o mau desempenho dos atores, principalmente o protagonista e suas várias namoradas (todas péssimas atrizes).

  6. KISS ME DEADLY ( A Morte num Beijo / EUA; 1955 ), é uma obra-prima do ” film noir ” norte-americano. O filme é considerado pelo historiador de cinema A.C. Gomes de Mattos , ” o último dos grandes filmes noirs puros ” e nada deve aos clássicos absolutos do gênero ( The Maltese Falcon, The Postman Always Rings Twice, Laura, Detour, The Big Sleep , entre outros ). O diretor Robert Aldrich foi buscar no autor mais desprezado da ficção policial hard-boiled que inspirou as películas do gênero – Mickey Spillane- o material para essa obra-prima e recheou a história com as tensões da Guerra Fria, a sordidez da sociedade capitalista e o legado miserável da humanidade. Como disse muito bem o crítico de cinema Luis Carlos Merten, ao se referir à exibição do filme na TV paga , toda a truculência do personagem Mike Hammer torna-se ninharia com o desfecho da trama, quando a ” caixa de Pandora ” disputada pelos personagens ( à maneira do falcão maltês do filme de John Huston ) se revela um artefato bélico atômico- e tudo o mais perde o sentido.
    Contrariando a opinião de muitos, o detetive Mike Hammer foi brilhantemente vivido por Ralph Meeker, que conseguir tornar o personagem crível, humanizando-o para além dos clichês do investigador particular dos filmes noir. Meeker em KISS ME DEADLY e Dana Andrews em LAURA ( no papel do detetive Mark McPherson ) talvez tenham sido os dois únicos atores a compor com perfeição e sem a afetação direta dos clichês , os melhores detetives do film noir. É claro que Humphrey Bogart criou um tipo antológico, mas é difícil separar o Sam Spade de THE MALTESE FALCON , do Philip Marlowe de THE BIG SLEEP- ambos parecem ser o mesmo, apesar do primeiro ser personagem de Dashiell Hammett e o segundo de Raymond Chandler !
    Por várias razões, é preciso colocar KISS ME DEADLY no topo da produção do film noir, como um dos mais representativos exemplares desse ” gênero “, além de reabilitar Ralph Meeker como um grande ator, que ofereceu no filme de Aldrich, uma atuação perfeita e , portanto, impecável e definitiva de Mike Hammer.
    ( Adriano Miranda-Franca-SP- Professor e Historiador de Cinema )

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