Wild Tigers I Have Known (Cam Archer, 2006)

Pra começar, creio não ter usado o critério mais ortodoxo do mundo para escolher assistir a este filme: fui atrás dele após saber que a música de Emily Jane White (que leva o mesmo nome do filme) havia sido feita para esse filme. Nem sabia do que se tratava, mas resolvi assistí-lo. E foi uma experiência frustrante. Mas vamos começar pelo começo.

Há alguns meses, eu concluí um curso de roteirização cinematográfica e, dentre os teóricos de roteiro que vimos estava o polêmico Syd Field. Dentre várias outras coisas, Field sugere que um roteiro, para ser bom, tem que oferecer um bom conflito e alguns pontos de virada na trama, chegando até mesmo a metrificar cada um dos três atos do roteiro, indicando exatamente onde cada ponto de virada deve se localizar. Na época, mesmo sem estudar muito a fundo as teorias de Field, eu não me senti muito à vontade com suas idéias. Talvez um dia eu venha a pesquisar um pouco mais e tentar compreendê-lo, mas com uma coisa eu tenho que concordar com o “guru da roteirização”: se o filme não tem um bom conflito, ele não rende. E é exatamente deste mal que sofre “Wild Tigers I Have Known”.

Sobre a trama: Logan é um garoto de 13 anos meio deslocado. Só tem um amigo, é silencioso e sua mãe parece meio desleixada. Mas, mais do que isso, Logan sente-se atraído por um cara mais velho de sua escola e se masturba frequentemente pensando no rapaz. Além disso, sua escola está em estado de alerta, porque fica nos arredores de um bosque, onde vivem alguns leões-da-montanha.

Provavelmente essa premissa seria mais que o suficiente para algum roteirista/diretor realizar um filme interessante sobre amadurecimento e descoberta da própria sexualidade. Mas o diretor Cam Archer (que também assina o roteiro) acha mais legal apontar o dedo pro personagem principal e dizer “ele é gay, ó!”. E os primeiros quarenta minutos são exatamente isso: Logan andando sozinho pra cima e pra baixo, sem falar com ninguém, deitando no meio do mato, se masturbando e sonhando acordado com Rodeo, o cara com quem ele fantasia. Ou seja, o conflito do filme é o fato de Logan ser gay.

Não é por nada mas, por mais que ainda vivamos em uma época bastante preconceituosa, eu não acredito que “ser gay” seja um conflito bom o bastante para um filme. Pensem comigo: filmes como “Monster”, “Milk” e (claro) “Brokeback Mountain” eram protagonizados, sim, por personagens que tinham relacionamentos homossexuais, mas não era esse o ponto. O conflito era maior do que a simples sexualidade. Aí Cam Archer faz um filme focado na questão da sexualidade de um garoto de 13 anos mas esquece de um detalhe básico: seu personagem não vê isso como um problema. Ele não sofre por sentir atração sexual pelo colega mais velho. Muito pelo contrário, ele procura uma forma de se aproximar do cara para, finalmente, abrir o jogo e ver se o rapaz também é gay e se sente algo por ele. Aliás, aí pode existir um conflito bem mais interessante, mas o diretor simplesmente joga isso pra escanteio, porque pra ele é mais legal filmar mais uma cena do Logan se masturbando ou usando as maquiagens da mãe ou se travestindo. A essência do personagem desvanece na busca imbecil do diretor.

No meio dessa encrenca toda temos, portanto, um personagem que não sabe muito bem o que está fazendo. Tudo naquela estética a la Gus Van Sant (que é produtor desse filme): planos intermináveis em árvores, prédios, pátios de escola. Mas Gus Van Sant sabe como lidar com essa estética e não deixou a peteca cair em “Last Days”. Cam Archer, longe de ser Van Sant, precisa colocar pontuais falas de “estou entediado” para que seus personagens lembrem o público que tudo é parado e monótono porque assim são as vidas dos mesmos. E deve ser verdade mesmo… eu, pelo menos, detestaria morar em uma cidade onde só tem uma escola e um bosque.

Enfim, o erro maior de Cam Archer é querer ilustrar a dor e o desolamento de alguém que não se incomoda nem um pouco com o deslocamento. O resultado é um filme aborrecido, sem alma e que enche a boca pra dizer absolutamente nada.

Mas a música da Emily Jane White é bonita.

1/4

Murilo Lopes de Oliveira

9 Comentários

Arquivado em Resenhas

9 Respostas para “Wild Tigers I Have Known (Cam Archer, 2006)

  1. Daniel Dalpizzolo

    “Cam Archer, longe de ser Van Sant, precisa colocar pontuais falas de “estou entediado” para que seus personagens lembrem o público que tudo é parado e monótono porque assim são as vidas dos mesmos. E deve ser verdade mesmo… eu, pelo menos, detestaria morar em uma cidade onde só tem uma escola e um bosque.”

    Hahahahah.

  2. Hehe, o tipo de filme que eu não vi mas posso imaginar como é detalhe-por-detalhe. Um diretor jovem, crianças se tornando adultos numa atmosfera de ciladas e descobertas, de confusão sexual e essas porras, planos silencioso-contemplativos da dor interior que querem dizer tudo ao mesmo tempo em que não dizem nada. Há uma espécie de padrão em filmes que encenam conflitos de pré-adolescentes em ritos de passagem.

  3. Daniel Dalpizzolo

    Impressão minha ou o Luis tá cutucando Deixa Ela Entrar?

  4. Pelo contrário, eu quase citei Deixa Ela Entrar também.

  5. djonata

    o Luis não é tãoooo, burro assim. :B

  6. Field tem alguns conceitos que hoje soam óbvios, mas na época dele soaram como grandes descobertas. Mas acho uma merda a “receita de bolo” que ele teoriza para qualquer roteiro…

  7. Apesar de tudo, um imitador barato de Van Sant desperta minha curiosidade. Pelo menos ele sabe o quê imitar…

  8. Daniel Dalpizzolo

    O próprio Van Sant não sabe se imitar, quem dirá os outros.

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