Sob o Domínio do Medo (Straw Dogs – Sam Peckinpah, 1971)

Muitos dizem por aí que “Funny Games”, do Haneke, faz com que o espectador se torne, de certa forma, um cúmplice de todas as atrocidades que estão passando na tela. Bom, acho que essas pessoas, ao verem “Sob o Domínio do Medo”, vão achar “Funny Games” um filminho de freiras.

Tudo que você possa imaginar e esperar do “Bloddy Sam” está aqui, mas intensificado a enésima potência, com uma fúria gigantesca. Todos os acontecimentos, desde o começo do filme, se encontram dentro de uma espiral de violência (física, psicológica, sexual), que resulta em explosões e mais explosões, cada vez maiores. É como uma saraivada de bombas-relógio sendo filmadas, onde cada minuto na tela corresponde a milésimos de segundos dentro do filme. Nunca a “teoria da bomba”, dita por Hitchcock, foi tão ampliada.

Sem falar que a câmera de Peckinpah nunca esteve melhor, em comparação a todos os seus filmes. E a montagem do filme é uma contestação irrefutável de outra teoria famosa do cinema: o “Efeito Kulechov”, onde a justaposição de certas imagens permite-nos estabelecer ligações entre dois planos que, por si só, nada dizem. E o modo como isso é aplicado é um dos principais motivos das milhares de bombas-relógio explicadas acima.

E, dessa catarse violenta e explosiva, todos os personagens colhem as conseqûencias dos seus atos impensados, seja através da irresponsabilidade (como a personagem de Susan George), ou até mesmo por negligência e inabilidade inicial de contornar certos problemas (como o personagem de Dustin Hoffman). Mais do que isso: mesmo todo o avanço de tempo entre o Velho Oeste e o Mundo Moderno não impediu o ser humano de controlar o seu instinto animalesco. Pelo contrário: muitas das vezes, é preciso recorrer a ele para sobreviver.

Em resumo: são 110 minutos que podem fazer cabeças, e tudo o mais ao seu redor, explodirem. Coisa que só o “poeta da violência” poderia fazer.

4/4

Adney Silva

ou: Sob o Domínio do Medo (Sam Peckinpah, 1971) – Daniel Dalpizzolo – 4/4

10 Comentários

Arquivado em Comentários

10 Respostas para “Sob o Domínio do Medo (Straw Dogs – Sam Peckinpah, 1971)

  1. Daniel Dalpizzolo

    Que Funny Games é um filminho de freiras não precisa nem de Peckinpah pra saber.

  2. Acho que Funny Games e Sob o Domínio do Medo apesar de versarem sobre violência, não falam nem podem co-relacionados, pois tratam de assuntos diferentes.

    Funny fala da neófita sede das pessoas em consumir violência no conforto de suas casas (vide a cena do controle remoto) e como elas se sentiriam se isso acontecesse com elas. É um produto de seu tempo.

    O filme do Peckinpah por sua vez, além de ser tecnicamente melhor, lida diretamente com a questão da violência física e mental de forma mais crua e sem tantas análises posteriores. Ele quer te incomodar e não analisar.

  3. djonata

    justamente aí que falha o Haneke ao meu ver, como cinema, ele é um ótima “análise”.

  4. caiolefou

    “Bom, acho que essas pessoas, ao verem “Sob o Domínio do Medo”, vão achar “Funny Games” um filminho de freiras.”

    Hahaha. Ah, já nem sei mais no que pensar sobre o filme. É agressivo demais com TUDO. Já que TUDO é agressivo demais com todos. Que filosofia nhé essa minha.

  5. Olá pessoal do Multiplot, tudo bem? Adorei o blog de vocês! Eu tb sou um amante do cinema!

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    Desde já agradecemos e aguardamos uma resposta.

    Atenciosamente, equipe CineDica.

    rp@cinedica.com.br

  6. Concordo com vc djonata, acho que Funny Games não é a melhor coisa (nem de longe que Haneke pode fazer). Ele fez 71 Fragmentos, Cache, Professora de Piano e Fita Branca , que são todos mais interessantes que Funny Games.

    Como análise funciona sempre, como cinema não o tempo todo.

  7. djonata

    eu não sou muito versado em Haneke, mas Caché é um excelente filme, mesmo.

  8. Alexandre, aí é que tá.

    Eu vejo “Sob o Domínio do Medo” como se fosse uma ampliação dessa sensação de “O que você faria numa situação dessas?” que é explorada levemente em “Funny Games”. O personagem do Dustin Hoffman representa exatamente esse instinto animalesco que todos nós temos adormecido, e que pode despertar, bastando uma situação-limite para isso.

    Mas não nego que utilizei a comparação no primeiro parágrafo meio que para provocar mesmo, hehehehe…

  9. É um dos meus favotitos de sam junto com The Wil Bunch e o Alfredo Garcia formam a tríplice aliança Peckinpahniana…

  10. Victor Ramos (jerome)

    Nossa! Acabei de assistir, e sem dúvidas é o filme mais tenso q tenho guardado em minha mente. Obra-prima da violência com louvor. Sam Peckinpah domina com primor as cenas de violência e as preparações para a confusão que está para começar, e a violência q falo n são apenas as agressões físicas, falo acima de tudo das agressões psicológicas q o espectador é submetido… sem contar q o cara (diretor) insere em cada segundo contido na obra doses de tensão; mesmo quando n acontece nada de tão grave, o cara está lá fazendo aquele jogo doentio e magistral de câmera q perambula o cenário como uma testemunha. O cara insere os personagens principais em situações nada mais nada menos que constrangedoras e humilhantes. De um lado um homem que é ausente e desatento com sua mulher, e de outro, uma mulher carente, e no meio de tudo ficam os habitantes fdps. Incrível! Faz muito tempo q n participo assim de um filme… os vilões são um bando de filhos da puta, e é quase impossível n conseguirem causar nos espectadores um sentimento de ódio. GENIAL! [animado] Recomendo.

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