Marnie, Confissões de uma Ladra (Marnie – Alfred Hitchcock, 1964)

Acho que boa parte do pessoal daqui sabe o quanto eu sou fã do Hitch.. E uma das razões de eu ser fã dele é que, além dos seus maravilhosos filmes mais conhecidos, a sua carreira é composta de pérolas que podem ser consideradas como “obras bastardas”, que, por um acaso do destino, ou por serem avançadas demais para a época, ou ainda por qualquer outro motivo, não são tão exaltadas pelo grande público. Marnie, não só é uma dessas obras, como pode ser considerado o último filme de uma era grandiosa de Hitchcock.

Originalmente produzido para promover a volta gloriosa de Grace Kelly as telas do cinema, “Marnie” parte do conflito psicológico e sexual de uma mulher, causado por um trauma de infância, que a leva a praticar roubos constantes à pessoas com as quais ela trabalha, para explorar todo esse confronto ao passado sombrio da personagem principal, através da obsessão do seu último empregador, que a obriga a casar com ele, a fim de que, tal qual um animal selvagem, ele consiga “curá-la” e domá-la”. Apesar de não ter o suspense habitual de que muitos esperam de uma obra do diretor (na verdade, é um filme de personagem, a Marnie do título), o filme é material legitimamente hitchcockiano, ousado, filmado ao modo clássico de Hitch, o que ainda comsegue provocar o interesse contínuo do espectador.

O modo como é conduzida a trama faz com que todos os personagens mostrem que possuem os seus “esqueletos no armário”. Um grande exemplo é o personagem de Sean Connery. Ao mesmo tempo que percebemos que ele possui um certo apreço por Marnie, algumas de suas atitudes são condenáveis à primeira vista. Mas, mesmo assim, nos pegamos “torcendo” por ele, para que descubra o que a alfige tanto. E, ao observarmos Marnie, compreendemos o que atraiu tanto o personagem de Connery: por trás de uma aparência gélida, há uma certa fragilidade no seu olhar (graças a interpretação de Tippi Hedren), como um “animal acuado”.

Talvez o filme não tenha feito muito sucesso na época, ou ainda não é tão lembrado como tantos outros, mas por trás da falta de suspense habitual, há todos os elementos clássicos da filmografia de Hitch aqui em sua época mais áurea. E isso é um motivo mais do que suficiente para termos uma interessantíssima obra deste diretor.

3,5/4

Adney Silva

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3 Comentários

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3 Respostas para “Marnie, Confissões de uma Ladra (Marnie – Alfred Hitchcock, 1964)

  1. Meu Hitchcock favorito, até agora, e talvez o último filme da tal “grande” fase dele (décadas de 1950/1960).

    Grace seria uma boa protagonista, mas adoro a Tippi Hedren neste papel…

  2. Também acho a Tippi Hedren fabulosa nesse papel (para mim foi a última “musa loira” dele), João, mas não têm como não ficar curioso em imaginar como Grace Kelly ficaria nesse papel.

  3. Veri Morrissey

    Sou fanática pelo Hitch e muito já li sobre este ser considerado um filme menor do diretor e discordo. Aqui não temos elementos constantemente utilizados na obra dele, como o falso culpado,por exemplo, mas temos uma trama psicológica interessantíssima, e uma das cenas mais brilhantes de toda sua carreira: quando Connery rasga a roupa de Tippi.

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