Distrito 9 (District 9 – Neill Blomkamp, 2009)

Muito mais por falta de tempo do que por excesso de vadiagem deixarei de partilhar impressões mais detalhadas de Distrito 9, mas não poderia passar este dia pós-filme sem registrar um pouco do meu contentamento. Posiciono-me mais ou menos ao centro dos dois grupos fanáticos que se formaram para, respectivamente, amar e odiar o debut de Neil Blomkamp – digo “mais ou menos” por estar muito mais próximo à adoração do que ao ódio, embora meu gostar não tenha a mesma entonação que o dos fãs assumidos. Serei aquilo que o filme despreza, rasga e destitui por completo do seu centro gravitacional: um exemplo de precaução e de pretenso equilíbrio.

Distrito 9 é cinema muito próximo da selvageria, onde o instintivo prevalece e o intelecto é deslocado para uma espécie de vácuo. Com isto, recebemos uma peça de estrondo brutalmente manejada como um filme-vômito, onde nada parece ser controlado, onde tudo é grotescamente – reconhecendo a grotesquidade com grande fascínio – arremessado à tela, onde impera o caos e as ideias parecem ser injetadas diretamente na veia do espectador. Em questão de minutos estamos ali, no meio da baderna, compreendendo cada uma das referências ao lado de cá de um jeito um tanto quanto estranho, como se estivessemos a par daquela realidade há anos, o que pode ser considerado o maior dos elogios à medida que reconhecemos no Cinema a necessidade de o realizador fazer o espectador comprar seu mundo particular e, principalmente, respeitá-lo (basta dizer que não há qualquer estranheza em ver o povo alienígena se chapar com comida de gato, muito menos em ver o mercado negro do produto se ampliando, etc – teria outros tantos exemplos). O mesmo acontece com a linguagem de câmera, que mistura conceitos básicos de estética cinematográfica com linguagens dinâmicas e inusitadas como a de televisão e video-game de uma maneira impossível de ser sintetizada por palavras. Através disso, a impressão que se tem é de que poderiam existir milhões de ironias e metáforas e críticas sociais enrustidas, mas não consigo encontrar espaço para pensar o filme fora desta sua realidade, talvez por ela ser tão bem apresentada e sustentada, talvez por transformar-se com o passar do tempo em um monumento de si mesmo. Não que eu não goste do gradativo enxugamento deste universo, desta emulação narrativa de video-game onde todo o filme gira em torno de uma visão em primeira pessoa e da forma como isto consome o filme até transformá-lo em um caroço lapidado. Pelo contrário: residem aqui alguns dos maiores méritos de Distrito 9, alguns dos motivos que fazem deste um filme tão divertido de um jeito tão vulgar. Apenas acredito que, da mesma forma com que torna o filme uma experiência bastante interessante sob este ponto de vista de divertimento porralouquista e vagabundo, permite a ele o contentamento de ser apenas isto. Penetramos no Distrito 9 e, ao sairmos dele, levamos nada além do saco de pipocas vazio para atirarmos no lixo. Novamente reitero: não é defeito, mas a constatação de uma conseqüência natural da proposta – uma proposta que é bastante comum mas que cada vez mais parece difícil de ser executada por Hollywood. Em seu primeiro filme, e fora deste eixo que abriga Michael Bay, Tony Scott e Uwe Boll, Neil Blomkamp conseguiu. Ainda assim, não há nada de novo no front; apenas o referido respeito ao seu próprio cinema, que deveria ser uma regra mas é responsável por fazer deste um filme de tamanho destaque.

3/4

Daniel Dalpizzolo

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11 Comentários

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11 Respostas para “Distrito 9 (District 9 – Neill Blomkamp, 2009)

  1. djonata

    depois vou ler com calma. mas, bosta de filme.

  2. djonata

    ah, e aquele final hahaha
    .
    .
    .
    .
    .
    .
    not.

    é deprimente.

  3. caiolefou

    É legal e tal, mas do meio pra frente fiquei com a impressão de já ter visto aquilo tudo em “outros lugares”.

  4. Vinícius Laurindo

    Eu também gostei. Foi um gostar mais tímido, distante da admiração. É um filme bacana que tem o azar de ser mais fraco que quase tudo o que ele me fez lembrar (menos CDD, acho).

  5. Se D9 é uma bosta de filme, me faltam palavras pra definir outras coisas por aí…

  6. Fico no meio do caminho. Acho que o filme tem duas partes bem definidas. A primeira é muito boa mas quando o filme para a clichê manobra de um exército de um homem só, as ressalvas acontecem. Não acho que seja de todo ruim, mas não é o melhor filme do ano como muita gente disse.

    É bom, diferente mas falta alguma coisa,

  7. djonata

    li. engraçado que concordo com vários apontamentos do Daniel, mas ao contrário dele, isso tudo me soa negativo. o filme me vendeu uma idéia diferente, de não querer se bastar apenas nele, nesse conceito de apenas “porralouquear”, mas sim, em se achar demasiado complexo e crítico – o que falha miseravelmente, muito pela perda de foco na segunda metade.

    gosto bastante da primeira metade, pena que depois vire um moviegame como já estou acostumado a ver por aí, e com um defeito somado a isso, a todo momento me pareceu um filme “feio” mal filmado, com sentido estético amador (pode ser pelo fato do neil ser novato, mas isso não me interessa). uma pena, pois o conceito é bastante bacana e poderia sim, gerar a obra-prima que alguns dizem ser, poderia…

  8. djonata

    ah, e sobre o final. o Neil subestima o público.

  9. djonata

    pelo menos tem o robozão jogando o porco no soldado, ri muito daquela merda. haha

  10. William Pereira

    Bem, eu gostei muito do filme.
    Cinemão digno, que tem algo a dizer.

    E o tema todo da mutação é absolutamente Cronenberguiano. A mutação como algo horrendo, mas que traz uma evolução ao corpo humano.

    Ótimo filme.

  11. mrscofield

    Nossa, esse filme é absolutamente horroroso. Só o Dan mesmo pra gostar. : B

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