Giallo (Dario Argento, 2009)

*spoiler no 3º parágrafo

É preciso cuidado. Desde os 5 minutos de filme, quando o primeiro clímax é um rapto ao invés de um assassinato, qualquer fã de cinema fantástico vai notar que Giallo NÃO É um giallo, e principalmente que precisará reorganizar suas expectativas ao longo da sessão. Isso por que, antes de mais nada, não se trata de um trabalho explícito, daqueles onde se sente a mão de Argento como fogos de artifício na tela. Câmera subjetiva, travellings, cores, uma atmosfera qualquer meticulosamente preparada, etc… Nada disso. Os assassinatos pontuando a trama – sempre pretextos para que os italianos exercessem cada qual o seu estilo – são coisa de um ‘gênero’ que ficou para trás, cristalizado entre anos 70 e 80, e cuja última menção honrosa é o já distante Sleepless.

Giallo é um thriller policial cuja estrutura se molda a dos filmes de serial killer contemporâneos (e que de todo modo não deixaram de beber da fonte inaugurada por Mario Bava). A ação principal é a do detetive em busca da solução do caso, enquanto que os momentos de corte do ritmo são exatamente os do assassino no esconderijo torturando sua vítima (ao invés de sair à noite por vielas soturnas em busca de outras). A tensão então se daria simplesmente através do resgate da vítima, de o detetive chegar a tempo, etc… Mas é quando ameaça decepcionar, quando você pensa que mataram Argento, esconderam o corpo e puseram a câmera na mão do sobrinho do produtor, que Giallo se mostra narrativamente brilhante.

Desde o primeiro momento, Argento estabelece uma conexão entre o detetive e o assassino, fazendo-nos crer que se tratam da mesma pessoa assim que Adrien Broody surge com lentes de contato no retrovisor do táxi. Em seguida são as memórias do detetive que colocam em jogo todos aqueles elementos-base do universo argenteano pra construção de uma mente psicótica. Logo depois, Argento tira o “Yellow” das sombras, e o que temos é um Broody coberto de maquiagem. Não existem outros personagens dividindo a atenção, não existem suspeitos possíveis, não existem dúvidas. Mesmo com as ações transcorrendo em aparente simultaneidade, o espectador não desconfia, ele SABE a solução para o whodonit. E toma no cu bonito.

O “giallo” do título está subvertido. Subvertem-se as expectativas, subverte-se o estilo do seu autor, subvertem-se os elementos que o compõem. O whodonit está do avesso, a câmera está presa, aquela velha lâmina reluzindo no ar é agora substituída por seringas, martelos e alicates. Mas o giallo está subvertido pelo próprio cinema, não por Argento, e Giallo nada mais é que uma representação do contemporâneo em relação ao passado, não em tom nostálgico ou de réquiem, mas de passagem. De alguém que reconhece que o fôlego acabou, que o cinema e tampouco o público são o que costumavam ser.

Argento então faz dos flashbacks a sua fuga. É através das lembranças do detetive que ele acessa esse mundo perdido pelos amantes do velho giallo ao pintar a tela de laranja e trazer de volta a câmera ao status de personagem, movimentando-a como se boiasse à deriva na água. Se dispostos um ao lado do outro e linearmente, os flashbacks montam um giallo fechado, independente do resto do filme; com início, meio e fim próprios. Com apresentação de personagens, testemunho do crime e vingança, tudo concebido a facadas. Em Giallo, é apenas na memória que as coisas continuam belas. O tempo presente é apenas seco (compare os finais de Giallo e Profondo Rosso).

E o filme permite esse respiro. Te convida a fugir dessa opressão do convencional para viajar trinta anos no tempo e voltar pra um mundo que parece desconhecer o fato de simplesmente não existir mais. Desde Terror na Ópera.

Giallo é o filme mais lúcido de todo o cinema fantástico italiano.

3/4

Luis Henrique Boaventura

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10 Comentários

Arquivado em Comentários

10 Respostas para “Giallo (Dario Argento, 2009)

  1. Luis, sua ultima frase do post vai criar uma polêmica gigante rsrsrs.

    Sobre o filme, ainda não vi… mas todo mundo que já comentou disse que o Argento vai muito bem. Lí afirmações de que é o melhor de década vindo dele, e de que ele conseguiu voltar aos bons tempos.

    Como não vi, por enquanto, fico com a opinião dos outros rsrs.

    Abraço !

  2. Hehe, mas o fato de eu dizer que se trata do mais lucido, nao significa que seja melhor que qualquer outro. O proprio Sleepless (ha uma certa relaçao entre os dois) eu acho simplesmente melhor. Mas que Giallo merece uma posiçao de destaque pela consciencia em relaçao aos elementos que o rodeiam, ao presente e ao passado do genero, isso merece.

  3. De longe a melhor resenha que eu li sobre o filme.
    Eu tava com o filme preso na minha cabeça, não conseguia juntar meus pensamentos e formar a idéia. Estava esperando uma revisão, mas acho que seu texto já deu pra acalmar minhas idéias freneticas q eu andava tendo sobre o filme, que por sinal é ótimo.

    “De alguém que reconhece que o fôlego acabou, que o cinema e tampouco o público são o que costumavam ser.”

    É uma das coisas que mais admiro no Argento, a capacidade dele de entender as mudanças do cinema e acompanha-las. Um negocio que se você presta a atenção, vai ver que isto acontece desde seu primeiro filme.

    ps: melhor coisa do Argento 2000’s = Sleepless

  4. Luiz, tire screens de Giallo pois quanto mais exibir Argento, melhor.

    [e o meu blog tá as moscas, sempre esteve. hahahaha]

  5. hehe, valeu. Pra mim a melhor coisa do Argento na decada é Pelts., mas fica dificil definir niveis, especialmente quando, bem mais que pela unidade, cada filme possua algo de extraordinario.

  6. Danilo Ivo/ Santos

    Luis

    parabéns pelo brilhante texto. Teu texto do Giallo vai ficar na minha memória, apesar de eu não concordar e ir a favor da outra maré. Ele é tão bom quanto o do Carrero sobre Bastardos Inglórius. Adorei esse blog e vou voltar sempre. Não te parece que subvertendo o gênero, Argento entrou na mesma pasmaceira que ele tanto critica??
    abraços

  7. Valeu Danilo, e volte sempre mesmo!

    Não acredito não, porque há uma diferença entre compôr um discurso a respeito de algo e tornar-se, pura e simplesmente, o objeto de ‘estudo’. Giallo não é mais um thriller barato da década vigente porque não se pode ignorar a história que o precede. Não se trata de um filme que sobrevive isolado, pelo puro prazer do olho (como eram os giallos do período áureo), mas que precisa ser situado em um contexto. Contexto da história do giallo, da carreira de Dario Argento e do que acontece com o cinema atualmente. Por isso digo que se trata de um filme “lúcido”, consciente do seu lugar.

    A subversão maior está na contradição do que é a essência do giallo: o deleite visual. Como eu disse, o Dario suga a beleza do filme para dentro daquele terreno onírico das lembranças do personagem do Broody. É onde repousa, em paz e eternamente, o giallo e o cinema que Argento fez a sua vida toda. Giallo é o epitáfio, é Argento fincando uma lápide escrito “RIP” para o gênero que consagrou e para ele mesmo.

  8. Acho que Argento ainda vem com um novo giallo.

  9. Jerome Tarantino

    Excelente crítica. É bom ver que mais alguém soube compreender este filme da maneira certa.

  10. Romanelli

    Excelente crítica. De fato, o próprio título, em contradição com o estilo que fez história, nos remete a uma homenagem póstuma. O grande mestre Argento mostrou que os estilos nascem, evoluem, criam escolas e acabam aprendendo nelas mesmas. Um ciclo virtuoso e que nos delicia, a nós, amantes da arte. Giallo é forte, seguro, lúcido, como dito na crítica, com um roteiro bem traçado. Isso tudo sem perder o charme do suspense, das mulheres lindas e do sangue à vontade que nos remete ao estilo original dos geniais diretores italianos (agora bebendo de canudinho o estilo americano, que neles mesmos fora inspirado). Sem se esquecer, também, do forte efeito sonoro, sempre presente nos Argento’s. Para mim, o único defeito do filme é ser transliterado para o inglês (naturalmente, para americano ver), quando a verve da língua italina e suas idiossincrasias expõe mais a alma do estilo, crítica e “amarela” (a propósito, acho que os livros amarelos, encontrados no apartamento do vilão tem algo dos antigos Mistery Magazine).

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