Anticristo (Antichrist – Lars Von Trier, 2009)

Falávamos, o Djonata, Robson e eu, nessa tarde de domingo enquanto o jogo não começava, sobre todo esse conceito de filmar pela mensagem, não pela própria imagem instantânea correndo na tela. De deliberadamente fazer de seu filme um dependente sine qua non de algo que o espectador precisa buscar do lado de fora, praticando a subversão da condição mais básica para que um filme seja, afinal, um filme: o prazer pela imagem. Pura e simples. É por isso que quando Von Trier percorre cada fotograma não apenas assumindo que seu filme não está ali, presente na tela, mas exigindo que sua real “apreciação” (ê termo maldito) se dê por uma simbologia externa ao áudio e ao vídeo de momento, ele está inventando algo a que pode dar o nome de qualquer coisa, menos cinema.

Sabe, há algo acontecendo aí fora. OK, você pode ter gostado do filme mesmo que exatamente por essa metaforização-quadro-a-quadro, ou talvez porque julga que ele funcione e muito bem enquanto simplesmente cinema. Nenhuma surpresa quanto a isso, não estou “contra” um eventual e sincero “gostar de Anticristo”, o que seria simplista e absurdo. O caso é que o Von Trier blindou a si mesmo de tal forma que, mais de uma vez, já li internet afora que é preciso inteligência e bagagem cultural para gostar e compreendê-lo. E ainda, que os detratores de Anticristo não possuem estômago ou preferem não ser “desafiados” cinematograficamente.

Desafio pra mim é cantar o hino nacional com a boca cheia de bolacha, já a adjetivação prolixa e vazia, essa produz muitas vezes algumas pérolas da semântica, como partir do princípio de que qualquer termo sonoro carregado de um senso de “maldade” é sinônimo de qualidade imediata e auto-explicativa, tais como “filme ‘incômodo’, ‘brutal’, ‘visceral’, ‘repulsivo’”, como se em algum universo bizarro do outro lado do espelho a forma não tivesse relevância alguma em relação ao conteúdo. É louco isso, e é algo que supostamente era pra estar implícito (tanto que eu me sinto besta só de transcrever aqui): não interessa o que se filma. Um cachorro pode filmar algo digno dos adjetivos que usei ali em cima (2 Girls 1 Cup é um dos vídeos mais chocantes e repulsivos de todos os tempos, e nem por isso eu o coloco num top 10)

O poder está na câmera. Sempre esteve, certo? Dêem uma câmera pro Von Trier e uma pro Spielberg (que parece ser o cineasta-oposto pra esse exemplo). Peça pra que os dois filmem uma mutilação. Peça pra que os dois filmem uma partida de xadrez. Não basta narrar o pincel e se esquecer do pintor, não basta jogar elementos em cena e manipulá-los porcamente, e é isso que ocorre com Von Trier. Jogar ao vento cenas de sexo, violência ou raposas falantes como se os objetos simplesmente se bastassem em si, como se a pedra determinasse qualidade da escultura.

Tudo isso faz de Anticristo uma experiência quase insuportável. E que fique claro que, nesse texto, isso não é ponto a favor do filme, nem que tenha sido “intenção” do Von Trier produzir algo deliberadamente desagradável, o que seria estranhamente conveniente. Uma câmera na mão chatíssima, quadrada, com uma movimentação rápida e convulsa, e uma edição feita com aquela tesoura que a Gainsbourg usa; é como andar num carro velho com suspensão fudida enquanto uma paisagem de merda trepida pela janela.

E o mais legal de se ter o alvará do experimentalismo estampado na testa é que você pode se lixar pra questões de ritmo e narrativa, pode deixar a câmera cair no chão porque, afinal, faz tudo “parte do conceito”. O Robson falou algo perfeito sobre isso naquele chat citado no início do texto; disse que se o filme parte como “experimental” e continua preso ao conceito enquanto é visto mundo afora, a experimentação então falhou olimpicamente.

Aliás, é difícil se convencer de que não se trata de sarcasmo quando Anticristo é classificado por aí como um filme de terror (alguns ainda completam com “psicológico”, eu quase caio da cadeira). Von Trier não tem a menor idéia de como construir tensão, de como manipular atmosfera ou instaurar aquela iminência de perigo que quase te faz sentir vulnerável ao desconhecido ou sozinho no escuro, arma de tantos mestres da linguagem cinematográfica como Bava, Argento, Carpenter, Kubrick, De Palma, Bergman. Aliás, A Hora do Lobo pode ser um paralelo interessante de como realmente se filme o horror mental, porque de fato há essa certa diferença básica entre fazer uma porra WTF foda pra caralho, tipo Lynch, e fazer uma porra WTF que não passa de uma simples porra WTF, tipo curtas experimentais universitários pretensiosos e pedantes.

O cinema é efêmero. Vive de um quadro que se acende na tela, de um ângulo ou de um movimento em que a luz estava de determinada forma, e que agora já faz parte do passado. É som e imagem feito água corrente, e é a este tempo presente e incapturável que a arte de comunicar pertence, fotografando os sentimentos e os deixando adormecer na memória. A partir do momento em que seu filme falha enquanto é luz transcorrendo na tela, ele falha enquanto cinema, e não serve nem pra estar ao lado de um documentário da vida animal na prateleira da locadora.

0/4

Luis Henrique Boaventura

ou:

Anticristo (Lars Von Trier, 2009) – Djonata Ramos – 1/4

Anticristo (Lars Von Trier, 2009) – Thiago Duarte – 3/4

16 Comentários

Arquivado em Comentários

16 Respostas para “Anticristo (Antichrist – Lars Von Trier, 2009)

  1. Liz

    Ainda não assisti ao filme – não me chamou a tenção, aliás, exatamente pelo fato de já chegar com essa aura de ‘se você não gostar é porque não entendeu’; ‘se achar repulsivo, era essa a intenção do diretor’. Adorei seus comentários. Valem não apenas pra esse filme, é bom lembrar. Faço minhas as suas palavras. Voltarei ao blog, gostei. Beijo!

  2. Luis

    escritor desse blog: você é um imbecil.

  3. djonata

    realmente, Luis, essa tua visão do filme é bastante relevante. parabéns!

  4. Chamar de imbecil é fácil. E um tanto patético por denunciar quem não tem nada a dizer, hehe. De qualquer forma o espaço segue pra quem quiser falar a respeito do filme.

  5. Rodrigo Jordão

    Eu concordo, o Foras é um imbecil! uheuhauheuha

    Q cômico kkkkkkkkk…

    Comecei a ver, mas dormi 20 minutos depois (comprei piratão). Um dia eu acabo e volto aqui (preferi rever “Vingador do Futuro” na noite seguinte – esse original, da minha amada dvdteca).

  6. Rodrigo Jordão

    Cadê o texto pra Inglorious Basterds, o melhor filme de todos os tempos do Tarantino, caralho?

  7. djonata

    sinta-se a vontade pra escrever.

  8. William Pereira

    Putaqueopariu Luisão, te amo cara!

    Até que enfim alguém que não gostou do filme!

    Assisti o Anticristo e achei uma bela bosta, então saí espalhando lá na faculdade que o filme era uma merda (faço filosofia na unicamp). Fiquei extremamente surpreso ao ver que TODOS aqueles que tinham visto o filme tinham gostado. No máximo, não sabiam que haviam gostado ou não, mas que a experiência havia sido positiva.

    Não, não é um bom filme!
    Cheguei a emprestar o meu Possessão, do Zulawski, pra vários deles, dizendo que o Lars queria fazer algo como aquilo, mas não conseguiu.

    Enfim, acho que se o filme não dissesse nada com nada, beleza, mas o Lars acaba falando muita merda. Pq o que o filme faz é legitimar toda a violência que as mulheres sofreram durante a idade média. O personagem do Dafoe é absolutamente racional, enquanto a personagem feminina encarna tudo o que é instável e descontrolado. A loucura da mulher é tamanha que força o seu compreensivo marido a matá-la. E não só matá-la, mas queimá-la.

    Cara, isso é muito sério.
    Sob qualquer ponto que eu analise o filme, é uma bela duma bosta.

  9. djonata

    colegas que fazem filosofia? isso explica eles terem gostado. haha

  10. ê, valeu William, vamos dar as mãos e cantar o/

    Mas esse é bem o perfil do público que o Von Trier mira em Anticristo, porque é notório que estudantes de filosofia e psicologia tendem a analisar o filme sob a perspectiva de suas respectivas ‘áreas de conhecimento’. Eu fui pela perspectiva do cinema mesmo, mas realmente não precisa ir muito longe pra ver que Anticristo fracassa em qualquer ‘modalidade’ que pense em se inscrever.

    Se fosse analisar “psicologicamente”, diria que o Von Trier teve o pinto cortado fora por uma ex-namorada ou prostituta a quem tentou pagar com balinhas, e agora usa o cinema como odisséia de vingança contra o sexo oposto.

    E sobre Possessão, eu tava com ele no gatilho pra pegar, mas resolvi ver Diabel antes e meio que desisti do Zulawski, embora estranhamente não tenha deletado ele da fila. Quem sabe ainda pegue, parece ser fodão.

  11. Do Zulawski o melhor, disparado, é O Importante É Amar, obra-prima. Possessão é o mais histérico de todos, para o bem ou para ou mal, o que vai depender do grau de adesão de cada um (eu não curto). Diabo é razoável.

    Já esse Anticristo eu estou com a maior má-vontade para assistir, porque é do picareta-mor do cinema, mas um dia eu confiro.

  12. Sílvio Tavares

    O que para mim é mais quadrado e antipático nesse filme horroroso é justamente essa visão do analista sobre tudo. É até legalzin ver as expressões da ansiedade naqueles enquadramentos, por exemplo, e talz, mas ver o cara falando linha por linha, dissecando em palavras algo que já estava explícito e falar que isso é filme para intelectuais é besta demais. Aliás, os títulos dos capítulos falam por si, os intelectuais precisam realmente de um bocó falando etapa por etapa o que está acontecendo?

  13. Compartilho um pouco dessa tua irritabilidade, Ramos. E fico pensando se conta, p.ex., a dedicatória do filme…
    {S}

  14. Antes de mais nada, quero dizer que o Boaventura e o Lazo são dois dos críticos que eu mais admiro, seja pelo conhecimento demonstrado pelo segundo ou pela linguagem excelente utilizada pelo primeiro. Conheci o blog hoje e já favoritei.

    Sobre Anticristo, devo dizer que esse foi o único Trier que eu realmente gostei. O que me fez gostar de tal filme, certamente foi o dito ideal de “chocar a burguesia”, mas isso é mais por questões pessoais, mesmo. Por ter crescido em uma família conservadora e repressora, ver aqueles ideais sob os quais tanto sofri serem rompidos é algo assustadoramente empolgante. Talvez por isso eu goste tanto de Bertolucci. E é por isso que eu realmente prefiro Os Sonhadores à Vá e Veja. Enquanto o segundo choca através da degradação humana e do impacto da guerra no homem, o primeiro choca indo contra o moralismo intríseco naqueles que sempre conviveram com ele. Sexualidade quase que pornográfica e incesto costumam causar um impacto maior na dita “burguesia” do que atos de guerra e sofrimento. E nesse exemplo de Os Sonhadores que Anticristo se enquadra, afinal, uma auto-extirpação clitoriana não é algo muito agradável de se ver, pricipalmente para quem “valoriza os ideais da família cristã”.

    O ponto que eu quero chegar é que, ao meu ver, filmes como Anticristo ou a obra de Bertolucci vão ter seu reconhecimento a partir das experiências de quem o assiste. Caso eu tivesse nascido em uma família liberal, de esquerda e ateísta, muito provavelmente iria ter uma visão semelhante do filme, mas por ser um liberal, de centro e ateu, nascido em uma família conservadora, de direita e cristã, ver esses ideias serem rompidos é uma das maiores alegrias que posso ter.

    Do mais, adorei a linguagem do texto, com o ar de intimidade. =D

  15. Djonata Ramos

    “filmes como Anticristo ou a obra de Bertolucci vão ter seu reconhecimento a partir das experiências de quem o assiste”

    essa frase faz muito sentido, com qualquer filme. eis a graça da coisa toda.

  16. Marcus

    Não gosto de Von Trier, e acho Anticristo do pior tipo de filme dele, daquele feito só pra chamar a antençao, como aquela bosta chamada Idioterne, Anticristo é um nada, o povo falava dessa tal filosofia por trás do filme, alguns diziam genialidade até, mas de tanto eu tentar ver, acabei achando que ela não existe.

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