A Morte Caminha de Salto Alto (La Morte Cammina Con i Tacchi Alti / Death Walks on High Heels – Luciano Ercoli, 1971)

Um giallo surpreendente. Já não é muito comum que um thriller italiano funcione sem aquela virtuose visual típica (porque o exagero é naturalmente o pé na porta dos gialli cinema adentro), mas quando o filme investe no desenvolvimento da investigação, jogando o bruto do que o caracterizaria como horror pra segundo plano pra se transformar numa simples trama de suspense, o resultado é quase que invariavelmente desastroso. Também porque é preciso uma habilidade sobrenatural do diretor para fazer com que seu filme sobreviva além da base fraca que um whodonit oferece.

A Morte Caminha de Salto Alto é único por, simplesmente, conseguir rivalizar com os bons gialli genuínos utilizando a roupagem de apenas mais uma obra transeunte entre o horror novo e o velho suspense já sedimentado pela herança do noir, filmes que pipocavam no início da década de 70, quando a noção de um novo sub-gênero ainda era meio vaga (o próprio Argento precisou de 6 anos para compreender Mario Bava em Seis Mulheres Para o Assassino e finalmente entregar ao mundo o segundo representante-modelo do giallo).

Luciano Ercoli já me ganha ao beber de Janela Indiscreta e utilizar o recurso do voyeur com alguma classe que lembra, guardadas todas as proporções, a do velho gordo. Há, aliás, uma forte presença da lente ao longo do filme. Do ato de olhar, da visão enquanto sentido. Mais de uma vez Ercoli brinca com o formato da tela para trazer ao espectador a imagem pelo filtro da subjetiva de determinado personagem, ainda quando o próprio personagem é desconhecido.

Há todo um grande labirinto narrativo arquitetado para que o espectador brinque de se perder, como pelo fato de não haver um protagonista claro, ou pelo próprio ritmo todo picotado e pelo roteiro deliciosamente confuso e sobrecarregado, lembrando um pouco À Beira do Abismo, de Hawks, nesse sentido (depois de 80 minutos de filme que eu me lembrei que o estopim do imbróglio todo havia sido um roubo de diamantes, um McGuffin aliás que nem o próprio Ercoli dá muita importância, haha).

Enfim, um giallo ainda verde enquanto representante do gênero, utilizando-se de um ou outro elemento apenas como forma de compor um tempero italiano sobre este misto de neo-noir com suspense inglês que é o filme de Luciano Ercoli. E o melhor de tudo é que funciona maravilhosamente, mesmo quando não deveria.

*Título em pt – tradução livre do original italiano.

3/4

Luis Henrique Boaventura

Screenshots! –
Construção e desconstrução de olhar, por Luciano Ercoli

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