Inimigos Públicos (Public Enemies – Michael Mann, 2009)

Esse é o melhor filme do Michael Mann e existe uma razão para tal afirmação. Mann, esteta e formalista, aqui joga com uma arma que acrescenta ainda mais ao seu cinema de imagens: Mann constrói um personagem. Dillinger é o resumo de uma era, mas é um resumo às avessas. Enquanto nos filmes de gangster da década de 30, mesmo os mais charmosos dos criminosos continuavam como os “homens maus”, bandidos mesmo, em Public Enemies, Dillinger é um herói, um homem popular, recebido em sua prisão com ares de estrela de cinema. Dillinger rouba, mas poupa o dinheiro do povo, mata, mas não é mostrada no filme nenhum remorso, ou conseqüência desses atos. É aquilo e pronto, é o homem e sua imagem. E o filme a constrói na maior das riquezas, no digital mais pleno já mostrado numa tela de cinema, que revela Dillinger em cada mínima marca no rosto de Johnny Depp. É assim que vemos sua paixão por Billie nascer (e a entendemos, em cada poro do rosto admirado de Marion Cotillard, num desempenho fundamental para minha chave de interpretação do final), se fundamentar e sua trajetória se modificar.

Se o início de Public Enemies mostra o destemido Dillinger fazer o que bem entender e sair impune, um super herói absoluto, a parte final mostra que Dillinger é um homem, mesmo que ele mesmo tente negar essa condição. Ele promete coisas que ninguém poderia cumprir, muito menos alguém na condição dele (prometer a Billie morrer velhinho nos braços dela parece até uma piada, mas na qual ele acredita e a faz acreditar também), e segue uma trajtória fantasiosa, em sua própria condição. Daí a complexa mutação que Depp empreende em seu personagem nos minutos finais, quando Dillinger parece entender que libertar Billie seria sua própria necessidade de liberdade de si, de sua figura. Dillinger não pode mais prender Billie e não suportar a dor de vê-la pagar por ele, mas acima disso ele não pode mais ser ele. Ao planejar o assalto ao trem para terça e a partida para quarta, Dillinger dá sua última mostra de esperança na fantasia: caso não desse certo “deixar a cena”, só restaria a ele continuar. Mas ele se deixa pegar, é morto do modo mais simples que alguém como ele poderia ser; o super herói vira ser vivo, mas não perde a áurea de mito. Dillinger morre em meio ao povo, subitamente (como Gable prega no filme do cinema), mas de modo planejado. Seu modo de se matar, sem precisar sujar as mãos, de deixar Billie ir, de se libertar enfim.

Billie observa cada passo de Dillinger com extremo zelo e profunda admiração. É essa admiração que o público tem pelo criminoso/herói mostrado em tela, e a aceitação de Billie em fazer tudo que ele pede é completamente crível. O amor dela é o nosso amor, o olhar dela é o nosso olhar. E é esse olhar que Mann coloca em perspectiva, na câmera subjetiva do olhar de Billie, vendo a lei fechar a porta para sua fantasia, num final magistral para este filme inacreditável!

4/4

Thiago Macêdo Correia

ou: Inimigos Públicos (Michael Mann, 2009) – Silvio Tavares – 4/4

11 Comentários

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11 Respostas para “Inimigos Públicos (Public Enemies – Michael Mann, 2009)

  1. mas ser o melhor filme do Mann não é difícil. o cara não fez nada além de bom…

  2. djonata

    GRANDE filme em caps lock mesmo. Mann pós Heat só teve um pequeno tropeço (ALI) de resto, vem empilhando OP´s. me lembra o caso do Gray que faz filmes relativamente simples – mas que possuem muitas camadas. isso sem contar todo o visual (charme é eufemismo) a adequação da trilha e o elenco sempre redondo (mesmo quando não conta com grandes atores, mas com escalações precisas) mais uma op do gênio. foda, grande filme mesmo, e o Thiago deu show nessa interpretação dele. foda foda foda.

  3. Silrone

    Perfeita interpretação. O filme-referencia do ano… so far

  4. Vinícius

    Em “Inimigos Públicos”, podemos falar tranquilamente em uma moral das imagens. A métrica do espaço cinematográfico, rodado “no digital mais pleno já mostrado numa tela de cinema”, como vc disse, é a grande arte de Michael Mann.

    Toda a progressão dramática do filme gira em torno do espaço: a perseguição no bosque, as execuções do protagonista, a cena de confronto na cela. São os espaços por onde passa Dillinger que conformam seu destino.

    É sacando essas escolhas é percebemos que “Inimigos Públicos” pertence, única e exclusivamente, a apenas um homem: Michael Mann.

    Pra mim, é o filme do ano.

  5. Concordo, é nesse filme que Mann encontra um argumento e personagens a altura do seu projeto estético.

  6. djonata

    pessoal de muito bom gosto passando por aqui.

  7. Adorei aquele sorriso sínico de canto de boca exibido no trailer.
    Jony Deppe vai encarnar um bandido que realmente existiu na história Americana, John Herbert Dillinger. Um ladrão de bancos americano, considerado por alguns como um criminoso perigoso, e por outros idolatrados como um Robin Hood do século XX. Isto porque muitos americanos culpavam os bancos pela depressão dos anos 30 e Dillinger só roubava bancos.
    Dillinger ganhou o apelido de “Jackrabbit” por suas fugas da polícia e rapidez dos assaltos. Além disso, era uma figura atlética, tendo sido considerado um bom jogador de beisebol quando estivera na prisão.
    Suas ações, assim como outros criminosos dos anos 30, como Bonnie e Clyde e Ma Barker, dominaram a atenção da imprensa, que começou a chamá-los de “inimigos públicos” (public enemy), entre 1931 e 1935, época em que o FBI se desenvolveria e tornar-se-ia mais sofisticado.

  8. raul maisel

    o filme é uma história real recheada de paixão, erros graves de biografia e centrado exclusivamente no romance de John… uma poesia, mas dizer que é um ótimo filme, bem essa é outra história… outros cineastas já retrataram o amor bandido bem melhor… Bonnie and Clyde é um exemplo imbat´vel até então… mas tem seu efeito mágico sim, porque a trilha sonora com a magistral Billie Holiday é o must da película… o resto é a qualidade dos atores, sem dúvida, um filme para arde nos corações apaixonados por bandidos românticos, se é que John era realmente assim…

  9. É um filme contraditório, em que um personagem é muitíssimo bem explorado, mas que deixa os secundários de lado. Um problema contornado pela incrível maneira com que Mann filma tudo!

  10. O bom é que Mann vem construindo uma estética própria para o digital, diferentemente de George Lucas, por exemplo, que faz na nova tecnoloia tentando imitar a película… Sei lá, questão de gosto.

  11. renata

    Adorei o filme public enemy,filme também é cultura,eu não sabia que era uma história veridica.Nem imaginava que John Dillinger era um ganster.òtimo filme e além de tudo Johnny Depp é lindo,sem comentários.

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