A Lua na Sarjeta (La Lune dans le Caniveau – Jean-Jacques Beineix, 1983)

A Lua na Sarjeta é todo filmado como num estado de delírio, situado num mundo de sonhos e desilusões onde as emoções ganham luzes, texturas e neblina regidas pela estética onírica e pela sensibilidade em carne viva de Jean-Jacques Beineix. A dor, a frustração, a vingança, a raiva e a paixão como elementos impregnados, todos juntos, em cada centímetro da atmosfera irreal mista de noir e pesadelo que recai sobre o filme após a belíssima seqüência inicial, abrindo as portas de um mundo que anoiteceu sem que o dia seguinte jamais chegasse a nascer outra vez. Porque o dia seguinte já está morto.

Gérard (vivido cheio de ternura e solidão por Gérard Depardieu) é um estivador que vaga todas as noites pelas ruas do porto em busca do assassino de sua irmã, ou em busca de si mesmo, ou em busca de algo para buscar, quando encontra Loretta, a deusa em forma de Nastassja Kinski [/redundância].

E Loretta invade o filme como uma aparição. Ela entra no bar filmada de baixo, sob um contraluz dourado, passa por um néon amarelo e a câmera começa a girar pelo ambiente, como se ela tivesse gravidade, enquanto relâmpagos cruzam pelas janelas e uma trilha a la old hollywood toca ao fundo. O tempo pára, o filme entra em outra dimensão, tudo para que Beineix celebre sua femme fatale presenteada com o dom de roubar o universo todo para si e transformá-lo numa extensão do seu domínio, auto proclamando-se (através dos olhos de Gérard, filtro entre o mundo de Beineix e o do público) como o último rastro de beleza pelas ruas do porto.

A Lua na Sarjeta é um filme sobre medo, culpa, sonhos desfeitos. Segundas e terceiras chances. E Loretta é um espírito sobre o último trem do fundo da merda em direção ao miolo das nuvens, e a uma saída do pesadelo, ou a um sono ainda mais profundo. E Gérard tenta se deixar levar, permiti-se ao desconhecido e à possibilidade vaga de uma outra forma mais rara e mais forte de amor pela primeira e última vez, sentindo-se enfim como um ladrão, no poder de algo que não lhe pertence ou que não lhe inspira o único sentimento com o qual está acostumado.

O que há de mais belo na constelação tecida por Jean-Jacques Beineix é, ao fim de tudo, a falha converter-se em direção e a impotência em única rota possível. Encarar a penitência do mundo como um castigo merecido e a tristeza da alma como um sinal pulsante de que, com sorte, ainda há alguma alma para se sentir triste, e que a felicidade é na verdade um bem que Gérard não saberia jamais administrar.

Isso porque A Lua na Sarjeta é um filme sobre um homem feito de carne, sangue, remorso, fraqueza e vingança que, na falta de um alvo, resta desabar sobre ele mesmo, punindo-se com a forma de castigo mais cruel e nociva que já vi num filme: o veto aos próprios sonhos.

4/4

Luis Henrique Boaventura

Screenshots!: A Lua na Sarjeta (Jean-Jacques Beineix, 1983)

Anúncios

1 comentário

Arquivado em Resenhas

Uma resposta para “A Lua na Sarjeta (La Lune dans le Caniveau – Jean-Jacques Beineix, 1983)

  1. Bom texto sobre um excelente noir francês.

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s