Amantes (Two Lovers – James Gray, 2008)

Quando eu assisti Vidas Amargas pela primeira vez (e por todas as revisões), eu senti, desde a primeira cena, uma sensação de que algo muito ruim se anunciava. Bastou o James Dean entrar em cena e eu fiquei suspenso, durante todo o filme, com a respiração alterada e a expectativa do pior que deveria chegar. Two Lovers me causou a mesma sensação de suspensão, de uma tragédia que só esperava um espaço para se instalar.

Na narrativa de pouco menos de duas horas que James Gray envereda, acompanhamos a vida (sim, é um resumo de uma vida) de Leonard, interpretado com um brilhantismo alucinante por Joaquim Phoenix, que disse ser esta sua última atuação (fez bem, nunca mais faria nada superior), um rapaz que depende de remédios para controlar sua depressão, que voltou a viver com os pais após ter sido abandonado pela ex-noiva, que pensa na morte durante todo o tempo de sua quase vida. Os pais de Leonard querem que ele se envolva com Sandra, filha de um possível futuro sócio do pai, no ramo das lavanderias a seco (a vida é tão distante que nada ali se molha, a não ser Leonard, desde a sufocante primeira cena do filme). Leonard não se opõe a vontade dos pais e aceita conhecer Sandra, mostrando sua consideração pela família (tema principal da filmografia de Gray).

No meio do caminho, Michelle surge, a vizinha “problemática” de Leonard. No meio do caminho, surge o amor. No meio do amor, surge um triângulo, um losângo, um absurdo geométrico de instabilidade sentimental, de impossível definição e cálculo. Não bastasse o filme ser um dos grandes estudos de personagem já feitos, não bastasse a atuação antológica de Joaquim Phoenix, não bastasse as excepcionais interpretações de Isabella Rossellini, Gwyneth Paltrow e Vinessa Shaw, não bastasse todos os planos serem de um deslumbre estético de posicionamento, tempo, perspectiva, não bastasse ser uma aula de cinema, Two Lovers é ainda das histórias mais perfeitas e tristes já relatadas no cinema moderno. E no final disso tudo, a tragédia de “serem felizes para sempre”.

4/4

Thiago Macêdo Correia

ou: Amantes (James Gray, 2008) – Silvio Tavares – 4/4

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9 Comentários

Arquivado em Resenhas

9 Respostas para “Amantes (Two Lovers – James Gray, 2008)

  1. djonata ramos

    eu ia escrever uma resenha tbm, mas depois da do thiago fiquei com vergonha e coloco aqui em forma de comentário mesmo.

    Amantes trata sobre a perda, sobre a solidão, sobre convenções sociais, sobre tentar estar inserido, sobre se anular, mas, principalmente, sobre o amor. Não falo desse amor que vocês estão acostumados a ver na novela das 8, ou em Um Amor Para Recordar, falo de amor real, quase palpável mesmo, e exatamente por isso, é triste, é dolorido.
    Gray filma com uma elegância sem precedentes, me impressiona desde Os Donos da Noite a facilidade que ele tem para usar de uma temática relativamente comum, que temos aos montes por aí, de uma forma extremamente refinada, aquela coisa que estamos acostumados a ver em filmes europeus. Além dessa finesse estética e de abordagem, isso evolui também a psicologia dos personagens, que são tratados de forma extremamente respeitosa por Gray. Esse cara tem uma facilidade anômala pra transmitir com a câmera, ele de certa forma nos afasta e nos aproxima muito do filme quando necessário, quando vemos de fora, sentimos o clima de tragédia anunciada, quando nos aproximamos, sentimos o calor dos personagens e nos envolvemos com seus problemas, queremos ajudá-los “hey, olhe pela janela”.

    Gosto muito da inserção familiar que também não deixa de ser o tema central do Gray, em Os Donos da Note já percebe-se isso claramente, e aqui não é diferente. Queria poder falar mais sobre o quão incrível são os personagens, Phoenix tem aqui seu personagem mais complexo e completo e consegue segurar o rojão, e entrega sua melhor atuação (dá pra entender o porque de abandonar a carreira depois desse, não tem como almejar mais que isso).

    Enfim, o melhor filme do mundo.

  2. djonata ramos

    ah claro, e aquela sequencia de acontecimentos no climax não se faz. meu deus, que final.

  3. Wallace

    Mal posso esperar pra ver esse filme, depois da obra-prima q foi os Donos da Noite o Gray entrou pra minha lista.
    Ah e a propósito o melhor filme do mundo foi isso q eu li msm?

  4. djonata ramos

    foi uma hiperbole, hehe. mas não significa que esteja muito longe disso.

  5. Caio

    Vai ser melhor do ano, duvido que algum supere.

    Achei o romance mais maduro da década!

    Meu Deus, James Gray é o maior cineasta americano da atualidade, segunda obra-prima…

    Também escrevi sobre ele no meu blog. Falando nisso, cadê o godvsgodard aí do lado, Luis?!?!

  6. Luis Henrique Boaventura

    Hehe, tá ali

  7. Faz tempo que ando adiado a visualização deste filme. Com esta crítica (é como se diz resenha em Portugal, não sei se também usam no Brasil) vou ver o quanto antes.

  8. marcos

    Puta filme ruim… clichêzão.

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