O Gato Negro (The Black Cat – Lucio Fulci, 1981)

Não surpreende que Gato Preto, uma das obras mais extraordinárias importadas do cinema fantástico italiano, seja até hoje tão mal-interpretada. É um filme feito nos parâmetros particulares do diretor Lucio Fulci, ou seja, quem reluta em aceitar a ficção num nível mais extremo (geralmente levada ao grande público como mera imitação da realidade) periga encará-lo como produto de humor involuntário, o que acontece muito e que, com todo respeito, é uma puta burrice.

O conto de Allan Poe, inúmeras vezes adaptado e referenciado no cinema, funciona quase como uma espécie de termômetro pro estilo de cada autor do horror italiano nas três grandes obras-primas como versões do texto: o média-metragem homônimo de 1990 de Dario Argento, o surto narrativo de Sergio Martino em Teu Vício é um Quarto Fechado e Só eu Tenho a Chave (73) e, finalmente, o filme que é assunto desde texto. E “versões” do conto como forma de dizer, na verdade, porque no caso de Martino e Fulci, Poe é pego de referência meio distante, fuzilado, desmembrado, esfolado até o osso e, finalmente, reconstruído, do jeito que der. E se não der, também, os caras estão pouco se fudendo.

Em Gato Preto, Fulci versa por um equilíbrio entre a classe do horror climático e aquela conhecida demência criativa num misto de tons. Nem o 8 de Uma Sobre a Outra, nem o 80 de Zombie, nem o 800 de Terror nas Trevas. Gato Preto é o tipo de filme onde a câmera se movimenta deslizando pela rua na companhia de um homem solitário, em plena madrugada, numa belíssima composição de neblina e arquitetura européia com um sopro de film noir. Em seguida, no palco de uma das atmosferas mais bem compostas do cinema fantástico italiano, o homem começa a fugir desesperadamente de um gatinho, até ser preso, encurralado e morto pelo bicho, que é um dos vilões mais diabólicos e dissimulados do cinema, além de ser de longe o personagem mais inteligente do filme.

Insights geniais como sempre, travessura com os personagens (o Fulci chega a literalmente mentir para o espectador, em certo momento), referências a Hitchcock, e o plot que pega o pouco de insanidade do conto original e se reinventa e ultrapassa criando um filme que ri na cara de quem acha que arte tem que ter chão, teto e quatro paredes.

Filmar um giallo é fácil, amigo. Agora, pra fazer a porra dum gato assassino de meio palmo de altura funcionar no nível dessa obra-prima, o cara tem que ser muito cuiudo, ou nascer Lucio Fulci.

4/4

Luis Henrique Boaventura

3 Comentários

Arquivado em Comentários

3 Respostas para “O Gato Negro (The Black Cat – Lucio Fulci, 1981)

  1. Marcelo

    Mais um filme fodão do fulci que na minha opnião se iguala em qualidade com suas outras duas obras-primas, Sette Note in Nero e The New York Ripper. Para mim esses são os top 3 do cara.
    Ainda que eu goste (e muito) de Don´t torture a duckling e The Beyond.

  2. Victor Ramos

    Já já vou conferir esse. Fulci é (ou era, como preferir) fodão demais, e realmente é uma puta burrice a pessoa querer levar o cinema como algo que tenha de ser 100% semelhante ao mundo real. Teve um festival de cinema italiano aq na minha cidade, e fui assistir Terror nas Trevas… O que eu mais ví foi o povo falando e rindo dos defeitos do filme (ou dos exageros), o que é uma atitude medíocre, principalmente quando devemos nos lembrar que público que estava na sessão eram os ”cults” (assim eles se denominam). Enfim, a arte é livre para seu artista fazer o que bem pensar dela, e aquele que se limita ao mundinho real jamais será um artista.
    E sobre o texto… Ficou ótimo. Escreve muito bem.

  3. Anônimo

    Acabei de assistir, e realmente é uma grande obra. Câmera subjetiva em um gato? é Fulci, amigo.
    Nota 8.5

Deixe uma resposta

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s