Gran Torino (Clint Eastwood, 2008)

O cinema, dentre as suas inúmeras características, adora produzir ícones. Aqueles personagens que, uma vez presentes na tela, ofuscam tudo e todos que se atreverem ficar ao seu lado; aqueles personagens que basta uma cara mais feia que fazem o mais malvado dos vilões chorarem que nem mulherzinhas de medo. Clint Eastwood, em seus mais de 50 anos como ator (e mais de 30 como diretor), interpretou dois desses “caras durões”: “O Pistoleiro Sem Nome”, dos faroestes de Sergio Leone; e Dirty Harry, o policial implacável que usava de todos os métodos (principalmente os menos ortodoxos) para fazer a lei. Como diretor, Clint já filmou uma espécie de “epitáfio do velho pistoleiro sem nome” em “Os Imperdoáveis”. Agora, como sua última atuação, em “Gran Torino” (digirido também por ele), Clintão faz o “epitáfio de Dirty Harry”.

Nesse filme, Dirty Harry veste a pele de Walt Kowalski, um funcionário aposentado da indústria automotiva que também participou da Guerra da Coréia que, após a sua esposa falecer, se vê sozinho em um bairro outrora tradicional e representativo do idealismo norte-americano dos anos 50/60 que agora é totalmente tomado por imigrantes orientais. Essa convivência forçada exacerba nele as suas opiniões racistas, principalmente pela presença constante deles o fazer lembrar dos momentos vividos na Guerra da Coréia. Com o passar do tempo, através de uma série de eventos (incluíndo uma tentativa de roubo do seu Gran Torino feita por um deles) , ele acaba se simpatizando com eles, especialmente pela influência da família vizinha.

É praticamente impossível observar Kowalski nesse filme sem lembrar do policial implacável criado por Don Siegel na década de 70. Ranzinza, cara de poucos amigos, extremamente racista, e extremamente implacável ao defender o seu território (para depois rever os seus conceitos pré-concebidos), Clint se utiliza de sua persona e de seu personagem icônico para expressar a questão da passagem de tempo e de como algumas pessoas relutam em acompanhá-lo. Mais até do que isso, o filme, através de uma estrutura totalmente classicista e tradicional de se fazer cinema (até porquê Clintão é um dos últimos representantes desse estilo), monta um melodrama de encher os olhos de lágrimas do telespectador.

Muitos reclamarão dos intensos clichês que aparecerão no filme (especialmente no que diz respeito a questão da redenção do personagem principal). Entretanto, já há muito tempo Clint Eastwood estrutura sua filmografia dentro desse estilo, especialmente nessas últimas décadas, onde ele trabalhou muito bem as questões da deconstrução dos ícones. E Gran Torino versa principalmente sobre esse tema, não só em cima da destruição dos ícones, mas da desconstrução dos antigos valores, da eterna necessidade do ser humano de exorcizar seus fantasmas internos antes que eles os atormentem a tal ponto de destruírem a sua vida. Sendo assim, o momento de redenção do filme não só é extremamente eficiente dentro da trama, como também é um tapa na cara na construção habitual do arquétipo do herói, descontrundo-o por completo. E é nesse ponto que se encontra a beleza do filme.

Por tudo isso, se você se acha durão, “Gran Torino” vai desmistificar essa imagem após as suas duas horas de filme. E te devastar emocionalmente. Contudo, garanto que você sairá extremamente contente com o que assistir.

4/4

Adney Silva

ou: Gran Torino (Clint Eastwood, 2008) – Thiago Duarte – 4/4

Anúncios

3 Comentários

Arquivado em Resenhas

3 Respostas para “Gran Torino (Clint Eastwood, 2008)

  1. d.j.

    praticamente a síntese de uma vida. grande filme, dos melhores dos ultimos anos.

  2. Rodrigo Jordão

    Parece que o Tio Clintão acertou a mão mais uma vez hein… Outro que tá na minha anciosa lista de espera.

  3. Rodrigo Jordão

    Anciosa, ansiosa, sei lá, foda-se.

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s