Coraline e o Mundo Secreto (Henry Selick, 2009)

Quando Coraline – e não Caroline, como ela faz questão de frisar – se muda com seus pais para um apartamento novo numa antiga casa vitoriana, ela parece ter todos os problemas do mundo. Seus amigos ficaram na antiga cidade onde morava e, aparentemente, ela não tem mais ninguém com quem brincar; seus pais escrevem livros sobre jardinagem, mas não suportam a idéia de pôr a mão na massa e a proíbem de fazer qualquer coisa que envolva sujar ou desarrumar algo; seus novos vizinhos são completamente malucos – um acrobata excêntrico e duas irmãs, artistas aposentadas que guardam caramelos por décadas e empalham seus terriers escoceses após sua morte, expondo-os na parede; até o apartamento é velho e feio, sem falar na cor das paredes externas da casa, que são de um rosa um tanto esquisito.

Mas nem tudo está perdido. Coraline conhece um garoto estranho mas simpático, chamado Wybie, que é neto da proprietária do apartamento e tem um gato de rua sem nome. Mais tarde, ao explorar uma portinhola escondida com papel de parede na sala de estar, ela descobre um mundo novo ao final do túnel que existe lá, e nele seus Outros Pais a encorajam a brincar e sabem, de fato, cuidar do jardim, além de cozinhar tudo o que ela gosta de comer. Neste mundo a casa é bonita, o acrobata tem um circo de ratos que é uma verdadeira maravilha e as velhas senhoras excêntricas continuam atléticas e se apresentam em um número sensacional de acrobacia. Em resumo, tudo parece perfeito. Só que nesse mundo as pessoas têm botões ao invés de olhos e, para que Coraline possa usufruir dele pra sempre, sua Outra Mãe a pede que coloque botões no lugar de seus olhos também. As coisas, realmente, nem sempre são como parecem e quando Coraline recusa a oferta, ela começa a enfrentar problemas bem sérios. Em seu socorro vêm o Outro Wybie – que tem a boca fechada com um zíper – e o gato vira-lata, o único sem botões nos olhos.

Coraline e o Mundo Secreto é fruto da colaboração entre o talentoso Henry Selick, de O Estranho Mundo de Jack, e Neil Gaiman, o criador da revista em quadrinhos mais premiada da história, Sandman. De um esmero artístico impressionante, a animação em stop motion se equilibra entre a doçura e o pesadelo e, não raro, mistura as duas coisas, abusando de simbolismos e linguagens cifradas. Tudo é distorcido, quase grotesco mesmo, e de uma beleza notável, exatamente como eram os contos de fadas – não aquelas versões suavizadas que líamos em livros infantis, e sim os contos originais: violentos, macabros e sem sempre felizes.

Embora o diretor tenha contado com uma equipe de primeira linha para executar seu projeto – reparem na linda trilha sonora e no cuidado com a concepção visual da protagonista –, seu maior trunfo é, sem dúvida, a qualidade do material original. Neil Gaiman sabe que a fronteira entre realidade e fantasia é algo muito discutível e explora isso ao máximo, tingindo o real de surreal e vice-versa; o próprio sonho de Coraline, que periga virar um pesadelo, pode ocorrer com qualquer um de nós. Mas esta não é uma estória sobre a fantasia como válvula de escape, assim como também não é sobre velhas máximas morais ou padrões desejáveis de conduta. É sobre a coragem de uma criança e sobre o peso que pode incidir sobre suas decisões quando, finalmente, o universo ao seu redor exige que ela saia do egocentrismo que a dominou em seus primeiros anos de vida, como sempre ocorre com todas as crianças. As coisas não são belas porque são ao gosto de Coraline – como é o Outro Mundo no início do filme –, elas são belas por seus próprios atributos. Aí estão os verdadeiros botões que Coraline deve decidir se vai continuar usando ou não e é nessa singela descoberta, nesse pequeno despertar, que reside a verdadeira força do filme.

4/4

Amílcar Figueiredo

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6 Comentários

Arquivado em Resenhas

6 Respostas para “Coraline e o Mundo Secreto (Henry Selick, 2009)

  1. Vinícius Laurindo

    Este é presença certa na lista de melhores, lá em Dezembro.

  2. Todos vem falando tao bem que está se tornando uma obrigação para mim assistir este filme, tentarei fazer o mais rápido possível.

  3. dj

    eu vejo as imagens e me dá uma preguiiiiiça…

  4. Bubb

    Já tinha ouvido falar bem do filme, mas sua resenha me fez ter vontade de sair agora de casa e assisti-lo (o que não farei, agora, com febre, e de pijama, mas ainda esta semana, com certeza).
    E o que mais me impressionou (especialmente porque não acredito que isso esteja assim tão óbvio no filme) foi a sutileza da “moral da história”.
    Gostei do seu modo de escrever.
    Pretendo voltar aqui.

  5. Amílcar Figueiredo

    Muito obrigado, Bubb. Seu comentário me deixou feliz porque o propósito foi atingido, que é o de estimular o leitor a conferir o filme resenhado.

    A propósito, melhoras!

  6. Bubb

    Não há de quê, Amilcar!
    E, a propósito, o filme é a melhor animação que já vi! A história é deliciosamente onírica, e tem algo de Tim Burton, que eu gosto muito.
    Valeu levar a caixa de lenço para a sala escura. : )

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