Quem Quer Ser um Milionário? (Danny Boyle, 2008)

 

por Pedro Kerr

Em virtude do lançamento desse filme (e o buzz que o cerca), fora a nova novela das 8, a Índia está mais em voga. Recebi recentemente duas correntes sobre o país. Uma reclamando que a novela plastificou a realidade indiana (o que de fato acontece…), cheio de fotos sobre a miséria do lugar, a cultura de casamentos arranjados, deixar cadáveres ao ar livre apodrecendo, cagar em lugares a céu aberto reservados a ficarem lotados de merda, entre outras bizarrices. A outra corrente era pornográfica, e logo vinha à cabeça: “existe algum povo tão pitoresco quanto o indiano?”. Longe de mim qualquer julgamento étnico, mas o pitoresco, em dois passos descamba pro bizarro. Algo como: “se existe um lugar pra sair bizarrice, essa é a Índia”. Uma espécie de Brasil na Ásia.

Com tais noções, imaginemos Bollywood, a segunda maior indústria cinematográfica do mundo. Eu nunca vi um filme bollywoodiano, nem conheço ninguém que já tenho visto ao menos um. Fica então só a campo de imaginar o que pode sair de um lugar com uma produção tão intensa quanto cercada aos seus domínios. Talvez por conta da cultura e linguagem exótica, seja impossível promover um filme bollywoodiano fora da Índia. Ou talvez seja ineficiência mercadológica. Mas enfim, “Quem Quer Ser um Milionário” acaba por fazer uma espécie de ponte entre holly e bolly. A ingenuidade com que a narrativa é levada contrasta com a realidade mais forte que o filme mostra (Cidade de Deus style, até na fotografia bem parecida). Temos Jamal, um favelado, que está no Show do Milhão indiano, inacreditavelmente acertando todas as respostas, sem ter estudado, mas com o conhecimento de sua experiência de vida sofrida. É bem meio pra inglês ver, especialmente alternado com a maneira com que ele encara o fator “money can’t buy me love” vs miséria punk, mas o Boyle consegue segurar as pontas com a edição ágil. Embora seja irritante as vezes, e meio formulaico (o Silvio Santos da Índia faz a pergunta, corta pro flashback da infância de Jamal onde ele sabe a resposta).

Um momento que é bem interessante é quando o apresentador lhe pergunta quem é o astro do filme X, e depois vemos o pequeno Jamal encontrando o herói e conseguindo um autógrafo (numa cena que reflete também o lado camp que o filme toma, em que o garoto antes de encontrar com o ídolo, teve que mergulhar no lugar onde as pessoas matriculavam o Robinho na natação), e depois tratando tal pedaço de papel como ouro. É irônico comparado ao clima de conto de fadas que o filme leva. Sim, porque apesar de toda a miséria, instabilidade, mortes e tudo mais, Jamal é um jovem ingênuo e meio deslumbrado com um mundo à sua volta, e o encara a partir de sua própria inocência – quase num formato meio fuleiro de passar lições a nós. O mundo é cão à sua volta, o apresentador do programa desfere verdades desagradáveis para Jamal (talvez preferia que dissesse “um milhão em barras de ouro, que vale mais do que dinheiro a-hae!”), e ele segue impassível, acreditando no Destino e no Amor. O filme é aberto com uma pergunta ampla sobre o protagonista e suas desventuras, e dá quatro alternativas para se encarar a vida sofrida no filme: sorte; trapaça; geniosidade; destino. Quem assiste acaba ficando a mercê e participando de um programa de perguntas e respostas, e por ora é meio estranho essa iniciativa de direcionar a interpretação venha do próprio filme. Mas também, por ora, a narrativa te suga e você acaba aceitando de bom grado.

“Quem Quer Ser um Milionário?” é realmente interessante, mas a meu ver, o filme não envelhecerá muito bem. É simpático e tudo mais, mas poderia ficar nisso – elevar a patamares mais superiores como o hype anda fazendo fará mal principalmente ao próprio filme (gerando uma certa antipatia ou sei lá). É um que você olha e acaba gostando, mas que tem momentos que você não consegue levar a sério (a cena durante os créditos finais…), tem (seus talvez, melhores) momentos em que se assume como uma fábula e nada mais, tem momentos em que resolve ir pra um lado mais pesado, tem momentos de reflexão canhestra de botequim. É uma salada que o Boyle consegue misturar no ritmo de um videoclipe bem kitsch (bem a modo daqueles do Michael Jackson no Brasil).

2/4

por Amílcar Figueiredo

Danny Boyle é mesmo um camaleão. Após realizar uma ficção científica extremamente sofisticada, de pendores filosóficos (o criminosamente ignorado Sunshine – Alerta Solar), ele volta às telas com um produto tipicamente para as massas. E que deve faturar o Oscar, ainda por cima.

Quem Quer Ser um Milionário conta a estória de Jamal (o inglês Dev Patel), um rapaz pobre e iletrado de Mumbai, na Índia, que acaba de chegar à etapa final de um programa televisivo de perguntas e respostas que, obviamente, pode torná-lo um milionário da noite para o dia. O problema é que não acreditam em Jamal, acham que ele está trapaceando e, por isso mesmo, o obrigam – por métodos nada sutis – a explicar como ele sabia cada uma das respostas. Nesse processo conheceremos toda a vida do rapaz, inclusive o grande amor de sua vida, Latika (a indiana Freida Pinto).

O filme tem a estrutura de um conto de fadas contemporâneo, ou melhor, de um videogame, com sua narrativa episódica e frenética, apesar de bastante linear. O maior problema é que Boyle, para acentuar o lado virtuoso de Jamal, demoniza toda a sociedade que o rodeia: pervertida, inescrupulosa, egoísta, amoral. Se, de um lado, tal expediente favorece a identificação do espectador com o protagonista, de outro lado, reduz os demais personagens a pouco mais que caricaturas. O uso de chavões e de diálogos nada naturais só piora as coisas, tornando Quem Quer Ser um Milionário uma coleção de clichês, na maior parte do tempo.

Para nossa sorte, este não é um diretor comum. Boyle entende não só a dinâmica complexa dos personagens cuja saga conta, mas também o movimento da nossa própria sociedade. Em seu terço final, Jamal sofre uma verdadeira metamorfose: de um tolo virtuoso, pelo qual ninguém apostaria um níquel, a um símbolo da perseverança contra todos os prognósticos e as vicissitudes. Com ele, emoldurado por uma cinematografia de incrível beleza, vão as esperanças de Mumbai e da Índia inteira. E as nossas também.

2/4

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24 Comentários

Arquivado em Resenhas

24 Respostas para “Quem Quer Ser um Milionário? (Danny Boyle, 2008)

  1. Posso estar exagerando, mas gostei tanto do longa que na minha opinião o considero uma obra-prima do cinema moderno.

  2. franc1968

    Vá ver que os críticos acima não gostaram porque o filme não é dirigido pelos irmãos Coen… E não tem nenhum assassino de penteado engraçado!

  3. Rodrigo Jordão

    uheuhauaheuh

  4. “elevar a patamares mais superiores como o hype anda fazendo fará mal principalmente ao próprio filme (gerando uma certa antipatia ou sei lá). ”

    Na mosca… o que é o maior problema de muitos filmes vencedores do Oscar para muita gente, não importa que eles sejam bons ou ruins. Para algumas pessoas, ir contra a maré popular e destratar alguns filmes assim é ser “superior”. E não me refiro a esse, não acho que seja o melhor do ano nem de longe, acho que O Lutador e Gran Torino são melhores que qualquer um dos cinco indicados.

  5. Cassius Abreu

    Putz, pelo visto a ideia de fazermos mais que uma resenha por filme não tem dado certo, haha. Todos temos concordando, é isso que dá nem os Daniel nem o Luis participaram…

  6. rocs

    todo ano é assim, os críticos descem a lenha nos intitulados “filmes de oscar”, será que um dia essa “gente” vai entender que cada um tem um gosto.se vc entrar em um fórum de cinema, notará as mais diversas críticas, uns dizem q tal filme é um clássico , outro q o mesmo filme é uma m…. naum existe essa coisa de filme “de oscar” É apenas um prêmio q tem de eleger apenas 5 filmes dentre milhares q são feitos por ano. e geralmente todos tem qualidade.mas cada um elege o seu melhor.naum adianta generalizar.

  7. Vinícius Laurindo

    É um bom filme e nada mais. O Oscar ficaria melhor com Milk. Mas seria pior caso ficasse com qualquer um dos outros três.

  8. tá, se cada um tem seu gosto, rocs, qual é o problema de os críticos terem os seus?

  9. Djonata

    franc, não precisa carregar tanta mágoa no coraçãozinho. é só rever o filme e constatar o óbvio ululante.

  10. franc1968

    Mágoa, Dj? Eu? Que é isso? É que eu costumo desconfiar de certas unanimidades… Continuo dizendo: “Onde os fracos não têm vez” é um bom filme. Mas não o vejo como essa última maravilha do sertão… Só isso! E se o óbvio é tão ululante, por que não consigo escutá-lo? Estarei surdo?

  11. djonata

    e como já foi dito, não é nada unânime, aliás, fora alguns dos meus companheiros de MP! a grande maioria das pessoas que conhecço (geralzão mesmo) não gosta do filme. ao final, no cinema, lembro de vaias e reclamações, por exemplo.

  12. djonata

    e sobre esse novo do Boyle, achei muito sem sal. e sei lá porque diabos me lembrou muito cidade de deus, com o detalhe que o do meirelles é muito melhor.

  13. franc1968

    Tem crítico dizendo que o Danny Boyle imita mesmo o “Cidade de Deus”… Deve ser mesmo. Já tinha percebido essa emulação em filmes como “Chamas da vingança”… Que bom! O cinema brasileiro está começando a servir de referência. Parece…

  14. rocs

    blza, os criticos tem suas opiniões de ficar perseguindo os tais filmes de oscar. toda as lista do final de ano, seja de circuito da crítica, ou as mais diversas premiações não diferem muito da do oscar de cada ano.o oscar é só mais uma lista de melhores do ano. só defendo a crítica em cima do filme em si e não por que ele foi indicado a “troscentos oscars e tal”. essa é minha opinião, e me desculpe se eu naum consegui ser tão claro, daniel. mas é assim mesmo, sempre será melhor uma discussão saudável do que uma unânimidade.

  15. Sem sombra de dúvidas, concordo. Só não concordo com sua posição antes, dizendo que os críticos não respeitam o fato de cada um ter seu gosto sendo que você reclamando disso automaticamente estava reclamando da posição deles.

  16. Assim que terminei de assistir Slumdog pensei “não é tudo isso, mas é bom”. Não consigo achar motivos para alguém destroçar o filme, da mesma que elogiá-lo demais me soa sempre exagerado. Portanto, concordo com os dois textos e só não acho legal esse favoritismo inabalável no Oscar. Frost/Nixon é tãããão melhor e, tadinho, não ganhará nada. =/

  17. Bubb

    Meio tardiamente:

    1. “elevar a patamares mais superiores (…) fará mal principalmente ao próprio filme…” – Fabio, filme muuiiito falado gera uma certa resistência sim, e nem sempre por conta de pseudo intelectualismo. No me caso, se é que sei explicar, é por conta da expectativa gerada. Os filmes que mais gostei de assistir (note, não necessariamente os considerados melhores, mesmo por mim) foram aqueles aos quais simplesmente sentei e assisti, muitas vezes apenas sabendo o título.

    2. “…melhor uma discussão saudável do que uma unânimidade.” – Sempre! E especialmente para mim, que até pouco tempo não fazia idéia do diretor dos filmes que assistia (com excessão do Spielberg e do Lucas, rs).

    3. Sobre críticos e críticas, embora tenha passado a me interessar pelos metadados da sétima arte, procuro não deixar me dizerem o que devo gostar. Costumo ler as críticas depois de assitir aos filmes. Acho que me protege. Já que gosto “se” discute, mas não se impõe.

    4. E, finalmente, sobre o Slumdog, vi imediatamente depois de outro filme e não fiquei nada cansada. Ele prende, gostei muito do visual e das cores, e tem final “feliz” (o que é muito bom de vez em quando… sabe quando o mocinho não explode ou é atropelado por um trem no final?). Só dispensaria o High School Musical dos créditos (tudo bem, eu achei divertido, mas não combinou não…).

    5. Amílcar, você gosta de psicanálise, né?

    Inté…

  18. vera cristina

    não há necessidade em discutir o que é bom ou ruim , o que importa é o que eles acham e pronto cada qual percebe a assência das coisas de diferente formas.

  19. bucetilde

    Esse filme é ridículo!!
    Esse verme desse danny boyle devia ser preso pelo lixo cultural que ele dirigiu

    aquele jamal tem mais eh que se fude mesmo,
    esses filmisinhos ridiculos que o cara sempre ganha no final.. até parece que na vida real é assim
    ele tinha que errar a última pergunta pra td mundo ficar com cara de cu e acabar com as expectativas em cima daquele marginal filho da puta vendedor de chá

  20. Sanny

    Gostei muito do filme, mas não posso falar como alguem experiente em cinema, sou apenas uma leiga que aprecia essa arte.

    A história é diferente da maioria, apesar dos clichês, e mostra uma Índia desconhecida de muitos, aquela aonde não há toda a maravilha da novela das 8.

    A única cena que me incomodou realmente foia aquela em que Jamal vê o deus Rama, segurando o arco-e-flecha… excessivamente fantasiosa, meio mal explicada, mas…

  21. estefania

    nao gostei deste filme porque é muito triste e violento

  22. argentino

    nada ve essa porcaria com o filme

  23. alana

    o que me encomoda nos críticos é que boa parte deles falam como se nao pudessemos discordar, como se o que dissessem fossem a unica realidade, o que não é verdade, pois grande críticos se contradizem. Ja vi filmes que achei incríveis, que me prenderam na cadeira, com boa produção (fotografia, etc), enredo, atores, isso como leiga. Mas fui ler as critícas, e cada uma falava algo diferente, que na hora em que eu assisti o filme, não me fez a menor diferença, e se eu assitisse o filme denovo, teria a mesma boa impressão, apesar de saber dos “erros” e sairía amando o filme do mesmo jeito… Mas enfim, no final da sessão, cada pessoa tem sua impressão. Acho que o filme tem um bom enredo, vi denovo e gostei muito, apesar de não ser perfeito.

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