O Leitor (Stephen Daldry, 2008)

por Adney Silva

Se em “As Horas” o diretor já dava sinais bem claros do quanto ele gosta de sempre colocar os pingos nos “i”s, e de criar cenas supostamente “poéticas” (mas que, no fundo, são tão profundas quanto um pires), nesse filme ele reafirma essa proposta de “Cinema pseudo-poético sem entrelinhas para emocionar velhinhas e conseguir alguns Oscars”.

Excetuando a atuação da Kate Winslet (acredito que dessa vez não passa, ela abocanha o Oscar), nada se salva aqui. Cenas colocadas apenas para “efeito estético”; vários momentos em que o diretor parece escrever para o espectador qual emoção/sentimento ele deve ter (e feito da pior maneira possível); além dele conduzir o filme com uma mão pesadíssima, fazendo com que o filme pareça ter mais tempo do que ele realmente têm.

Apesar disso, talvez ele tenha alcançado mais uma vez o seu objetivo, já que o seu filme anterior também foi indicado ao Oscar de melhor filme. Acho que o gosto dos velhinhos da Academia é bem previsível mesmo.

1/4

por Cassius Abreu

Recentemente publiquei neste espaço um texto à revisão do filme Billy Elliot, a estreia de Daldry nos cinemas, enaltecendo o fato de tê-lo reconsiderado. Aproveitando o ensejo da revisão desta obra, precisava de outra obra para firmar que Daldry, enfim, não era tão fraco como pensava. Só que em O Leitor ele consegue cair ainda mais depois da frieza e do distanciamento cheio de metáforas e sublinhas desnecessárias a uma trama sem destino lógico que marcaram As Horas. Repensado a própria revisão de Billy, ocorre que Daldry fugiu da simplicidade de conteúdo e emotividade no descobrimento de fatos às personagens principais para deixar lugar a subtramas e enredos supostamente ricos em complexidade e segredos.

A grande dificuldade de O Leitor é justamente a maneira com a qual lidar com tais segredos e mudanças no roteiro, gerando uma edição desinteressante e burocrática, desenhando-se em três “filmes” distintos dentro de um só – mas sem um elo um pouco mais consistente, como acontecera no igualmente decepcionante O Curioso Caso de Benjamin Button, sobre o qual falaremos mais tarde. Para além dos tradicionais flashbacks perante a expressão melancólica de um bom Ralph Fiennes, a obra já começa com a relação entre o jovem Michael e uma adulta. Ao invés de tentar criar algo mais proveitoso nessa dualidade, a preferência é por trazer muito mais cenas sexuais, sem conjugar o tal amor que as duas personagens dizem sentir – e valer, talvez, a trama como um todo. A relação desenvolve-se de maneira bem tolinha, com personagens coadjuvantes que de nada adiantarão, como a escola de Michael (servindo de muleta apenas para a previsível discussão – ah, não poderia faltar – entre os dois, quando Michael deixa uma festa para correr à sua amada). Falta algo relativamente construtivo para este primeiro trecho, ainda que este tenha momentos a serem celebrados (a cena do passeio de bicicleta é bastante interessante, mesmo que a piadinha sobre a diferença de idade entre os dois seja óbvia é um ponto válido com o qual se trabalhar); já que tais momentos são rasamente explorados.

A primeira mudança do roteiro é quando Winslet vai-se, promovida, e Michael já aparece na faculdade de direito, quando o filme promete engrenar. A personagem de Bruno Ganz (destaque absoluto, para variar; é maravilhoso vê-lo em cena) construindo o curso, com poucos alunos, e a relação menos excêntrica que Michael terá com a futura mãe de sua filha dão mais ânimo a O Leitor. Pena que este vai se espatifar após o julgamento da personagem de Kate Winslet, uma ex-nazista (uma das “surpresas” do roteiro mal-escondidas ou, pelo menos, mal trazidas à tona uma vez que todos sabiam da ida ao tribunal e o encontro entre os dois, e mesmo assim é algo dado como inesperado pela forma optada por Daldry); dada a facilidade com a qual o roteiro resolve o caso – basta remartelar na cabeça do espectador o fato de a personagem ser petulante e orgulhosa,  além de analfabeta, o que já ficara claro tanto pelas leituras feitas por Michael à cama como pela cena da bicicleta. Em alguns momentos pensa-se que ocorrerá uma interessante discussão sobre a temática (repentinamente trazida à tona outra vez, com este filme e o recém-lançado no país Operação Valquíria) em novo ponto de vista, mas aí é que Daldry perde-se na personagem de Michael, copiosa e que, curiosamente, é insensível e fresca ao mesmo tempo. As andanças pelo campo de concentração são extremamente fúteis – até pelo que virá a dizer a personagem judia – e não se sabe o posicionamento da obra em relação à personagem no conjunto de suas ações. Fiquei com a ligeira impressão de que a obra quisesse me passar aquela coisa de: “hey, ex-nazistas têm honra e eis aqui o exemplo de uma delas que se deixa sofrer diante das suas falhas” como a absolver a conduta da personagem e intensificar a sua valorização.

É quando o filme volta a se descontruir na parte final. As leituras de Michael à ex-amada são bonitas e passam raro momento sentimental e subjetivo à trama oscarizável. Quando parte ao seu encontro, o filme volta a rebater pontos claros: a) o rapaz é distante e tentando conter os senimentos; b) já ela tem pouco a entregar, mas pouco a esperar igualmente; c) por isso é esperado que os dois não serão capaz de ir além do que um caso de verão; d) a volta dela para o dia-a-dia é impossível. Então, com o dinheiro restante dela, de coração arrependido, Michael decide ter o encontro com a judia. Não se trata de trazer uma visão multifacetada da trama, mas sim de uma insensibilidade com os acontecimentos: a judia desfaz das próprias instituições, do dinheiro recebido e do próprio perdão (que motiva a partir da ida ao tribunal) possível de se oferecer, aparentando, para variar, uma frieza incomum. Talvez seja assim mesmo na vida real, todavia as personagens perecem por falta tanto de sensibilidade quanto de coerência no tratamento. E a edição e a direção são equívocos ao possibilitaram esse distanciamento e permitirem à obra a caracterização típica de “filme para Oscar”.

1/4

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5 Comentários

Arquivado em Comentários

5 Respostas para “O Leitor (Stephen Daldry, 2008)

  1. Vinícius Laurindo

    Terrível. Parece argumento de menino do ensino médio metido a intelectual tentando impressionar o Oscar.

  2. Vinícius

    Vi o filme e ainda estou matutando em cima dele. Mas minha opinião não é muito diferente da de vocês. A priori, como o Adney falou, acho que Kate Winslet é a melhor coisa de “O Leitor”. Enfim, volto aqui depois. Abraço!

  3. Amílcar Figueiredo

    Tenho uma forte impressão de que nos dias de hoje as pessoas acham melhor curtir uma deprê, para ficar com pena de si mesmas, do que encarar o vazio de suas vidas. O fato de que Daldry sabe disso e explora com fervor essa situação é muito mais digno de nota que o filme em si (uma verdadeira porcaria, vazia e inútil).

  4. Vocês chuparam limão?
    Brincadeira. xD Também não gostei muito do filme e concordo em grande parte com vocês. Mas não o acho tão ruim assim, porém, é o pior dos 5 indicados.

    []s!

  5. Achei o filme bem chato!
    Claro, a atuação da Winslet, é boa. Mas não chegou a me emocionar.
    Ruim, não é, mas para chegar às bordas de um Oscar, coloca distância nisso.
    A sério, nem pra KW eu daria o Oscar.
    abs
    fernando cals

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