Milk – A Voz da Igualdade (Gus Van Sant, 2008)

por Amílcar Figueiredo

O mais legal de Milk, filme do diretor Gus Van Sant que recebeu oito indicações ao Oscar (inclusive Melhor Filme e Melhor Diretor), não é o fato de ser uma cinebiografia feita sem a maior parte dos fetiches do gênero (como se viu recentemente nos fracos Ray e Capote), e sim a mensagem, tão singela quanto contundente, de que a subversão casa muito melhor com a pena do que com a espada.

O filme conta a trajetória de Harvey Milk (Sean Penn), primeiro político abertamente homossexual a se candidatar e a ocupar um cargo público nos Estados Unidos da América, desde sua decisão de sair do armário, quando ainda morava em Nova York, até seu assassinato por um de seus colegas na Prefeitura de São Francisco, Dan White (Josh Brolin), justamente no momento em que saboreava a derrubada da chamada Proposição 6, que baniria das escolas públicas dos Estados Unidos todos os professores homossexuais e quaisquer outros empregados que os apoiassem.

É estranho saber que um filme com estrutura aparentemente convencional como esse tenha sido feito pelo mesmo diretor de Gerry, Elefante, Last Days e Paranoid Park, tão extraordinários quanto arrojados em sua estética. Ainda assim, o uso econômico da trilha sonora de Danny Elfman, a suavidade da cinematografia (do grande Harris Savides) e o soberbo elenco de apoio nos diz que este é, de fato, um filme de Gus Van Sant. Filme este que não teria, talvez, metade de sua força não fosse a interpretação instintiva, emocionada e emocionante, grande nos detalhes mas sem parecer mecânica, de Sean Penn.

Sem prejuízo de todas essas curtas observações, bonito mesmo é ver quão bem Van Sant embarcou na proposta de Harvey Milk, para quem a luta pela igualdade de direitos entre homossexuais e heterossexuais iniciava pela saída do armário e pelo apelo à razoabilidade dos demais, anda que fosse necessário o confronto num primeiro momento. Milk pode ter perdido a batalha que lhe custou a vida, mas Van Sant – sabedor de que lutar pelos direitos dos gays é lutar por valores que compõem o ser humano enquanto ser social – conclama todas as pessoas de mente aberta, gays ou não, para a guerra. E se não o faz com o mérito artístico de seus filmes anteriores, sem dúvida não poderia deixar mais contente, caso estivesse vivo, o sujeito cujo nome pegou emprestado. Por uma boa causa.

3/4

por Adney Silva

À primeira vista, pode parecer apenas mais uma cinebiografia convencional, comum até. Entretanto, graças a alguns detalhes, Milk consegue se destacar.

O filme procura se ambientar como uma cinebiografia não apenas pelo seu tema, mas também nos quesitos técnicos. A fotografia chapada, com cores mais “lavadas”, aliadas a uma edição de imagens da época, é um dos detalhes que se destacam no filme. Os personagens principais são muito bem trabalhados pelo roteiro, o que não significa que os coadjuvantes não tenham a sua importância. Isso vale até para o que parece mais unidimensional e fútil (o personagem do Diego Luna). Além disso, temos Sean Penn monstruoso, sendo a forma motriz principal do filme.

No final, não estamos diante de uma obra-prima, mas de um bom filme, que se destaca dentre as várias biografias retratadas no cinema recente (e que concorreram ao Oscar).

3/4

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3 Comentários

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3 Respostas para “Milk – A Voz da Igualdade (Gus Van Sant, 2008)

  1. Amílcar Figueiredo

    Me senti na obrigação de ressaltar que o grande barato do filme – algo que pode não ter ficado muito evidente na pequena resenha aí de cima – é que ele é uma aula de princípios de democracia. Os direitos dos gays ou de qualquer outro grupo minoritário não passam por aprovação ou por endosso, mas sim por respeito às liberdades individuais mesmo. É uma concepção de que um regime democrático tem que sê-lo por inteiro, e não aos pedaços como até hoje é o regime americano.

    O filme é brilhante, assim como a edição de imagens que o Silva mencionou, e gosto mais dele à cada dia que passa.

  2. Vinícius Laurindo

    Bastante subestimado. Meu preferido entre os cinco escolhidos deste ano.

    Parabéns pelo ótimo texto, Amílcar.

  3. Amílcar

    Valeu, Vinícius. Acho até que o texto não transmitiu todo o meu gosto por esse filme, que cresce na cabeça quanto mais o tempo passa. Ele é uma aula não só de democracia, mas também de atitude frente aos percalços da vida mesmo.

    Dos indicados a Melhor Filme, Milk é o melhor, sem dúvida. Por uma boa margem, até.

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