Foi Apenas um Sonho (Sam Mendes, 2008)

Em campos metafóricos as barreiras existenciais podem ser exemplificadas em celulóide das mais diversas maneiras, já que metáfora não segue um método de operação e nem cabe em generalizações. Mas é possível se generalizar que as barreiras colocadas nas vidas dos mais diversos personagens, nos mais diversos filmes, tendem a fugir do que é claramente palpável, buscam atingir um nível de abstração que venha a enriquecer a leitura da tal situação limitante. As “prisões imaginárias”, com grades e carcereiros não necessariamente concretos, buscam enveredar em uma busca por uma fuga real, em contraponto com as barras abstratas. Num exemplo recente, Karim Aïnouiz fez de sua personagem em O Céu de Suely um típico personagem preso em circunstâncias que não necessariamente prendem – e muito menos são logicamente explicadas -, mas buscando uma libertação de sua própria existência, o que a fez agir de modo drástico (a conclusão básica para esse tipo de situação). No filme, Aïnouiz propôs uma compreensão imagética da limitação da personagem, não buscando explicar os motivos de seu não-pertencimento, apenas mostrando na tela o mundo e levando o público a “ser” a personagem. O resultado é riquíssimo e primoroso, um dos raros casos em que a narrativa em si fica subjugada em seu próprio contexto por um viés maior, a da compreensão do indivíduo. Não é nenhuma surpresa assistir a Revolutionary Road, novo filme de Sam Mendes, e se deparar com um casal preso nas tais celas existenciais, buscando um modo de fuga e libertação. É somente uma surpresa – e incrível decepção – perceber que Mendes é incapaz de deixar de lado um quase fetiche em tornar tudo palpável, explícito e didático.

Frank e April, infelizes e impossíveis em suas vidas equivocadamente divididas, se apegam à uma luz para que possam encontrar a felicidade, quase que utopicamente. A questão é que Mendes barra qualquer possibilidade de conexão com a dor deles, ele sempre faz questão de deixar tudo muito claro e dito, se for possível. April e Frank agem de modo “humano” mas pensam de modo racional demais, como se fossem eles mesmos espectadores da própria história. Não há um só momento em que Mendes hesita em não colocar na boca de seus personagens a imagem clara da situação que se colocou, do momento que eles estão vivendo e do futuro que se anuncia. É impossível levar à frente qualquer pensamento de interpretação, por parte do telespectador, no filme, já que mais que depressa a coisa se dá, se mostra, se esfrega na cara de quem está atento ou não à narrativa. E para aqueles que não estão, Mendes lança mão de Michael Shannon, interpretando um louco cheio de razão (que como é dito no próprio filme, pode saber muito mais que os outros), capaz de dizer todas as verdades que os outros se negam a enxergar (se negam mesmo?), muito mais pelo artifício da explicação muito bem explicadinha, para aquela senhora do fundo da sala que metia a mão no balde de pipoca e perdeu o eminente fiasco daquelas vidas. É Shannon, é a infidelidade velada, é o abuso de trilha, é o evidente desempenho de Leonardo Di Caprio, alto quando pode ser alto, baixo quando deve se conter e aceitar a realidade. O que espanta mesmo no filme é o fato de Kate Winslet sobreviver estoicamente a todas as tentativas de destruição de sua personagem. Em cena, Winslet tem total domínio do caos interno de April e se sai bem até mesmo quando fala barbaridades desnecessárias; as palavras saídas da boca da atriz são renegadas ao lixo, já que sua insegurança é plena em cada traço de seu rosto e nos olhares calculadamente naturais.

E caso tudo não tivesse sido destruído na tentativa de realizar o abstrato, Mendes ainda consegue fazer com que o trabalho fotográfico de Roger Deakins pareça óbvio demais, em seu momento mais pretensamente bom. A luz artificial sobre as cabeças de Frank e April cessam assim que a perdição é colocada de modo completo: na cena da fuga de April pela mata, tudo parece luz natural, a câmera perde sua estabilidade, a fotografia assina e berra o que o diretor quer. Como uma criança incapaz de demonstrar com um lápis e papel os desenhos de sua mente, Sam Mendes se vale de canetinhas, giz de cera, lápis néon, luz fluorescente, HMIs ultra-potentes, para que tudo possa mesmo ser visto e entendido, pois parece que o cinema precisa mesmo se explicar e se esgotar. Depois ele pega o desenho e joga no lixo.

1/4

Thiago Macêdo Correia

ou: Foi Apenas um Sonho (Sam Mendes, 2008) – Adney Silva – 2/4

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3 Comentários

Arquivado em Resenhas

3 Respostas para “Foi Apenas um Sonho (Sam Mendes, 2008)

  1. Pelo jeito não irei conferir Foi apenas um sonho nos cinemas. Gosto de Sam Mendes, mas a quantidade de críticas negativas de gente cuja opinião eu tanto considero me fazem ficar com o pé lá atrás. Ainda bem que as próximas semanas estarão recheadas de lançamentos promissores. Abraços!

  2. Ana

    Caro Thiago, vi em alguns lugares que o filme é adaptação fidedigna e praticamente literal do livro do Yates. O personagem do Shannon estaria no livro, entre vários do diálogos óbvios.

  3. Thiago Macêdo

    Ana, até onde eu sei – não li o livro – o senhor Sam Mendes toma certas liberdades, evidentes até, já que se trata de uma adaptação e não existe tal coisa como “adaptação fidedigna e praticamente literal”, exceto questões de ação, como o próprio fato de evitar que os personagens desconheçam suas desgraças: Mendes deixa tudo explícito, acaba com as nuances e qualquer tipo de reflexão já que tudo acaba indo para a boca dos personagens.

    e até mesmo as semelhanças parecem não ser tão iguais, já que ouvi alguém dizer que o casal vizinho, o cara nem fica triste mesmo por amar a April (parece que ele nem a amava), mas pela própria infelicidade. enfim.

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