Neblinas e Sombras (Woody Allen, 1992)

Caramba, me surpreendi bastante. Como nunca tinha ouvido falar nesse, fui pensando que podia ser aqueles Allen menores, tipo Trapaceiros etc, só pra dar umas risadas mesmo, mas ele usa um ambiente pesado, soturno, com aquela neblina em movimento sempre, becos sem saída, paredes estreitas, aquela sensação de janelas vazias, de que mesmo com pessoas por de trás delas, nenhum grito seria ouvido, ou apenas ignorado. Joga um assassino pelas ruas com a intenção de aflorar o questionamento sobre a morte, e utiliza todo o ambiente pra brincar com os dois personagens, modificando a vida deles da mesma forma que a neblina e sombras modificam aquela cidade. Tem uma parte com a Mia Farrow e o Woody Allen, em que eles estão perto de uma ponte e olhando pro céu, bem quando a neblina decide dar uma tregua, e tem um diálogo mais ou menos assim, que ela começa falando:

– Mas isso é real, não? E bonito. Basta pensar sobre isso por um minuto. Aqui estamos nós, dois desconhecidos, andando pela noite, e está tudo tão.. tranquilo e sossegado. De repente surge uma brecha na neblina e podemos enxergar as estrelas. Este momento não parece perfeito?
– Sim… Mas, sabe, passa tão rápido. Veja, a neblina está voltando. Tudo está sempre se movendo. Em constante movimento, não me admira que eu fique enjoado.

Tudo está em constante movimento no filme. A neblina, a cidade, os personagens, a morte, a vida, a sombra e principalmente o tempo. É como se o importante fosse apenas fazer parte desse movimento, essa seria a recompensa. Como quando o personagem do John Cusack fala “suicidio, já pensei nisso. E em boa parte do tempo meu cerébro falou ‘pq não?’ Nada tem sentido. Mas alguma parte do meu sangue sempre diz ‘viva, viva…’ e eu sempre escuto o meu sangue”. E é assim que o Woody Allen brinca no filme. Ele joga os dois personagens na cidade, que mais parece uma maquete, ou um labirinto de ratos, e adianta manualmente o relógio da forma que bem entende, não na questão do tempo, mas das consquências que aquele movimento vai causar na vida deles. E fora que tem algumas das melhores frases dele. Ah, e é engraçado pra caramba.

3/4

Thiago Duarte

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5 Comentários

Arquivado em Comentários

5 Respostas para “Neblinas e Sombras (Woody Allen, 1992)

  1. Um filme mais uma vez muito divertido do Woody. Seu estilo sempre está presente.

  2. Gustavo

    Com uma sinopse dessas, só posso assistir esse filme, não tem outro jeito.

  3. Thiago Duarte

    Assitam mesmo. Não comentei muito no texto, mas o filme também é muito hilário, algumas das frases, e situações também, mais engraçadas da carreira do cara.

  4. ltrhpsm (Sopa de Letras)

    Achei o mais fraco do Woody, sonolento até dizer chega. E olha que eu me divirto bem com “Scoop”, “Dirigindo no Escuro” e “Igual a Tudo na Vida”; dentre outros. Chato assim só “Simplesmente Alice”, mas que tem um trabalho de personagem melhor.

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