O Exército das Sombras (Jean-Pierre Melville, 1969)

O Exército das Sombras é a fonte, o resumo, a pedra angular na carreira do diretor francês, ou ao menos no que tange aos três noirs com Alain Delon. Não que seja seu melhor filme, pelo contrário, mas basta olhar pra esse quadro cinza e aborrecido pra entender de cara de onde vieram filmes tão amargos, tão tristes e doloridos como Le Samouraï, Le Cercle Rouge e Un Flic.

O fato de Jean-Pierre Melville ter integrado a resistência francesa torna de imediato O Exército das Sombras num auto-retrato assumido, compadecido e cheio de um pessimismo natural. Não no discurso, não como bandeira narrativa, mas como atmosfera que desaba sobre todos os personagens, que são pedaços de memórias, sentimentos e experiências de Jean-Pierre.

Não são precisos 140 minutos pra perceber por que, sempre, os heróis e condenados de Melville passam por cada filme mermando até partirem-se ao meio. A relação do francês é tão estreita com a dor e a finitude porque o flerte com a morte estabelecido em algum bar de Marselha da década de 40 parece nunca ter sido superado. As sombras do exército, assim como todos os três Delons das obras anterior e seguintes, não são homens e nem sequer estão vivos. Largaram tudo para cumprir uma função. São peças em torno de algo maior, ferramentas sempre tentadas a revelar sentimentos e sempre tentando escondê-los sobre pilhas de um metal enrijecido nas faces.

O final, como sempre, é cruel. É depressivo, desumano, e os textinhos secos são bem representativos quanto aos destinos destes homens (não os personagens) na história, memorados com um tributo por Jean-Pierre Melville, que se abre ao meio e convida o público pra um passeio pela essência mais primitiva do seu trabalho como cineasta.

3/4

Luis Henrique Boaventura

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4 Comentários

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4 Respostas para “O Exército das Sombras (Jean-Pierre Melville, 1969)

  1. Lucas B.

    Morro de vontade de ver O Samurai, mas infelizmente ainda não consegui.

    Qual é o seu preferido dele, Luis?

  2. Lucas B.

    Ah, e O Samurai seria o meu primeiro dele, por isso não comentei o texto.

  3. Luis Henrique Boaventura

    Lucas, meu favorito é O Samurai. Inclusive é o top 1 de todos os tempos mesmo, no momento, um cinema simplesmente maravilhoso demais pra ser verdade. Arriscando um top (com mais 3 ou 4 filmes até a semana que vem, se meu torrent assim permitir, hehe):

    01. O Samurai
    02. Expresso Para Bordeaux
    03. O Círculo Vermelho
    04. O Exército das Sombras

    Os três primeiros são OPs, e Exército diz muito sobre o próprio Melville, mas já sai da temática noir e a própria questão da resistência e tal eu não curto muito, então não tem como comparar. Mas é um grande filme de qualquer forma.

  4. mozart a. costa

    A resistência Francesa é a mais legitima demonstração de uma sociedade que não se entrega ao dominio de forças com intenções de destroir a democracia

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