Década de 70 (Especial James Dean)

Sentei em frente ao computador, encarando a página em branco, pensando o que escrever sobre uma década na qual nem mesmo havia nascido, da qual meu conhecimento se baseia única e exclusivamente em heranças, nos registros feitos através de músicas, filmes, lembranças transmitidas em conversas, leituras aleatórias na internet, e foi quando percebi que deve ser muito mais fácil lançar um olhar de fora sobre o período do que vivenciá-lo e tentar compreendê-lo ao mesmo tempo.

Há um turbilhão de sentimentos, acontecimentos e sensações repartindo a esfera setentista. É, de certa forma, o início da contemporaneidade do século passado, o princípio daquilo que hoje temos como base social. É também a extensão de tudo o que as duas décadas anteriores começaram a construir, ou destruir. Se a década de 1950 reafirmou valores, a de 1960 chegou para rasgá-los. Se em 1950 estabeleceu-se um novo conceito de juventude, em 1960 coisas como conceitos são usadas pra fechar cigarros de maconha.

Em 1970, o forte do radicalismo, a necessidade de transgredir, acaba. Ao mesmo passo em que as barreiras permanecem diluídas, surge a capacidade de se olhar pra trás e aprender a resgatar, a ver o que há de interessante em tempos passados e lamentar perdas – A Última Sessão de Cinema e Loucuras de Verão chegariam como propulsores dos registros nostálgicos cinematográficos, há em ambos uma paixão muito forte pela inocência de se pegar o carro e ir paquerar em boliches, bebendo suco e comendo sanduíches, uma arte já findada em tempos de tamanha liberdade sexual – na vida e nas telas.

Na realidade, fica difícil definir algo tão abstrato, ao mesmo tempo tão livre e desiludido. O mundo se distanciou do trauma das grandes guerras, mas o principal disseminador cultural sofria com as feridas que restavam do Vietnã. O caos se desloca do físico ao psicológico, as dores deixam de ser sentidas para serem refletidas. Surge o movimento punk e o culto ao trash, a produção independente multiplica-se, abrem as portas para a liberdade de expressão. A juventude da época encarou a maior das transformações dos últimos tempos. Nada mais natural que seu registro no Cinema ser também o mais complexo.

Analisando certas características, pode-se conferir ao período um arco indissolúvel de pessimismo, reflexo da sujeira das ruas e resultado da implosão da década anterior – ainda que boa parte da produção setentista seja voltada à diluição desse pessimismo. Se o existencialismo era proposto por Michelangelo Antonioni, Robert Bresson e Ingmar Bergman na década de 1950, em 1970 reforçava-se como grande valor de estudo cinematográfico, junto da própria herança dos anos 60, toda reajustada sobre o desejo de mudança, sobre a insatisfação.

Surge uma avalanche de pequenos retratos dessa desolação, do desconforto com o social. Cada um Vive Como Quer, Corrida Sem Fim e Profissão: Repórter faziam uso do road movie – que não apenas recebeu maior destaque nos anos 70 como se tornou, talvez, a melhor maneira de ilustrar a própria juventude do período, ainda que metaforicamente – para apresentar figuras deslocadas da conjuntura de sociedade, desiludidas com o mundo e com a vida, insatisfeitas, temerosas, sonhadoras, fugitivas – de si mesmo, muitas vezes -, grupo reforçado por filmes como A Morte de um Bookmaker Chinês, Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia, A Primeira Noite de Tranqüilidade, Ânsia de Amar, etc interminável.

Outros, como Sob o Domínio do Medo, Laranja Mecânica, Operação França, Crime e Paixão, Rabid Dogs, Assalto à 13ª DP, Caminhos Perigosos, Taxi Driver, Rolling Thunder, O Assassino da Furadeira, entre outros filmes policiais ou voltados à realidade das ruas, mostravam que a sociedade chegava a um nível intolerável de violência e que, aos poucos, ia se anulando entre prazeres e perdições, memórias e desejos – notando-se também grande influência da própria guerra do Vietnã na construção dessa condição. Boa parte dos filmes do período, em particular os que casem características com estes aí, apresentavam jovens infratores, sem julgá-los, mas mostrando que tudo não passava de reflexo do que ocorrera e ocorria no momento, uma miscelânia tão intensa que havia transmitido a todos um grau quase irreversível de desorientação.

Ao mesmo tempo, e muito pela necessidade de se encontrar meios para evitar o caos desenfreado, fortificava-se no Cinema a condição de fonte de escape – um exercício retratado com perfeição no espanhol O Espírito da Colméia -, praticamente destruída com o engajamento do final da década anterior e início da própria década de 1970, àqueles que não conseguiam mais lidar com tantas incertezas. Era o início da fase dos blockbusters, das superproduções centradas exclusivamente no desejo pelo entretenimento, uma arte imediatamente comprada pela juventude e que havia sido deixada de lado com a exclusão dos musicais e das screwball comedies lá no início da década anterior. O tempo de Spielberg, George Lucas e Coppola, que ganhou tanta notoriedade a ponto de, na década seguinte, ocultar tudo o que era feito além dele aos olhos mais desatentos.

É tempo também da explosão do Cinema indepentente, do exploitation, do pornô construíndo-se enquanto indústria, de Cassavetes fazer suas duas obras-primas máximas, de Andy Warhol, Mario Bava, Lucio Fulci, Brian De Palma, Dario Argento, David Lynch, David Cronenberg, John Carpenter, George Romero e Alejando Jodorowsky levarem aos jovens um Cinema do jeito que eles realmente queriam ver, ensandecido, surreal, de imaginatividade inviolável, ainda que sem se deslocar completamente do pessimismo que permeava a realidade, por que o desejo pelo retorno do ficcional, do aleatório, do imaginativo como principal meio de veiculação cinematográfica nunca foi tão forte quanto o sentido durante a década mais emblemática, visceral e realista de todo o Cinema.

O Assassino da Furadeira (Abel Ferrara, 1979)

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70 foi a década da visceralidade. Foi também, como já afirmado, o momento em que as dores se transformaram no Cinema. Inicia-se ao mesmo tempo uma extensão neo-realista do olhar cinematográfico por sobre a caoticidade urbana, é verdade, mas o verdadeiro caos a ser retratado deixa de ser o físico. O material deixa de ser objeto e a esfera toda se volta ao universo psicológico, às feridas mentais.

Poderia eu poupar a essência da juventude setentista, mas mais importante do que registrar a grande qualidade cultural do período é observar que, sobretudo, e afora ao eixo Spielberg-Lucas-Coppola, havia muito de importante a se expor. É contrário ao desejo de reafirmação? Com certeza. E fundamental também.

O Assassino da Furadeira não foi o primeiro estudo dos limites impostos pela implosão cultural e, especialmente, pelas trevas que restaram do abafo daquela virtuosa expedição liberal que se obteve em 60 – nem mesmo é o mais popular filho deste modelo. Mas, embora filmes como Taxi Driver e Rolling Thunder tenham direito a todo e qualquer mérito, não vejo peça tão fundamental para sua compreensão.

Da estética ao discurso, o primeiro filme de Abel Ferrara é um violento estudo sobre a violência, da influência do social sobre o pessoal e seu feedback, em contrapartida. Ao contrário de Scorsese, do qual extrai boa parte de seu material, Ferrara procura retratar a famigerada escória – que nada mais era do que a própria alienação juvenil – sob seu próprio ponto de vista, em um misto de loucura e aberração todo ligado à essência do movimento punk, que fez a cabeça da juventude da época.

Para Ferrara, vale muito mais investigar as causas. Se não existem heróis no particular universo em que centra seus filmes, também não há vilões. São as condições sociais que ditam a ação, ainda que coligadas à natureza humana. É o jovem desempregado e gradativamente ensandecendo de O Assassino da Furadeira – que em seu filme seguinte se transformaria em uma jovem inócua transformada, em virtude de um trauma, em máquina de vingança – um fruto do descontrole social, mas e de que forma poderia se gerir o próprio controle de alguém que vive à risca da loucura, cercado de miséria, sujeira e ruídos incontroláveis?

Não por qualquer brincadeira, antes mesmo de o filme iniciar há o letreiro “This Movie Should Be Played Loud” – em português, este “este filme deve ser tocado alto”. Há um grande exercício por detrás de toda a estética, que muitos diriam ser tosca, suja ou depravada – e é, realmente, mas com propósito – apoiado também na encenação sonora que promove um distúrbio tão intenso quanto desconfortável na projeção, através dos sons amplificados da trilha punk, dos efeitos sonoros erráticos, surtados. Ferrara filma a desconstrução do jovem, do homem, enquanto particular e também engrenagem do social, numa espécie de descida ao inferno ao melhor estilo polanskiano – existem indícios de Repulsa ao Sexo e O Inquilino em cada canto de O Assassino da Furadeira.

É um mundo de dúvidas, incertezas e subversões. Não se tem fé no futuro – e os pesadelos e brincadeiras envolvendo o cristianismo, tema de grande recorrência em toda a filmografia de Ferrara, somente evidenciam a condição catalisadora do filme, feito em uma época que beiravam-se os limites – ou a necessidade deles – em tudo. Mais do que a base de todo o Cinema ferrariano, O Assassino da Furadeira é um grande ensaio sobre a desconstrução do homem diante de uma sociedade dominada pelo caos. É o registro mais direto e visceral da juventude setentista. De parte dela, mas que influencia todas as outras.

Daniel Dalpizzolo

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4 Comentários

Arquivado em Resenhas

4 Respostas para “Década de 70 (Especial James Dean)

  1. A melhor década do cinema americano para mim… surgia Pacino, DeNiro, Nicholson e o maior diretor de todos os tempos Martin Scorsese, além de grandes clássicos como Godfather e Laranja Mecânica…

    Passaria um dia inteiro falando sobre esta década…

    Deixei um meme pra vc lah no blog…

    vlws

  2. Comentei lá, Sergio. Heh.

    Lembrando apenas que Nicholson, que vc citou aí, começou mesmo na decada de 60, e com grandes filmes. Já viu Ride in the Whirlwind, do genial Monte Hellman? É um dos meus westerns preferidos. Nicholson, além de protagonista, também escreveu o belo argumento.

  3. Caio Lucas

    O texto tá perfeito, parabéns Dan!

    É tudo o que eu acho, mas sem saber como expor.

  4. Daniel Dalpizzolo

    Buenas, Caio. Valeu.

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