Superman – O Filme (Richard Donner, 1978)

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Na segunda metade da década de 70, o diretor Richard Donner foi contratado para trazer para as telas de cinemas as aventuras do super-herói das HQs, Superman, que é com certeza, um dos personagens mais conhecidos desse meio. Ao contrário de hoje, em que filmes baseados em HQs ganharam uma importância muito grande devido a enorme quantidade de fãs, tanto crianças como adultos, dos mais variados heróis, filmes assim nessa época não tinham uma relevância muito grande. Então, para se fazer uma aventura baseada em HQ sem cair em cima de qualquer preconceito que isso poderia gerar, Donner colocou a palavra “verossimilhança” como meta na sua produção. Essa palavra é meio perigosa quando se fala em filmes de aventura, mas ela surgia simplesmente para que se realizasse um filme em que o público pudesse entrar naquele universo da melhor forma possível, e a partir do momento que público embarcasse, Donner se sentir livre para explorar todo aquele universo da forma que considerasse melhor. E se hoje, muito filme baseado em HQ sente necessidade de se levar a sério demais (inclusive Superman – O Retorno) aqui isso não era o objetivo. A verossimilhança era simplesmente para que todo aquele universo da HQ se encaixasse na telona sem o grande público estranhar tudo, mas o filme em si está bem longe de ser tão “sisudo” como os atuais.

O início do filme, onde presenciamos a origem do personagem, é a sua parte mais séria. Tanto nas cenas em Krypton, com seus pais biológicos, e depois em Smallville com seus pais adotivos na Terra, tudo é tratado de forma diferenciada do resto do filme, com um tom sóbrio todo próprio, a ponto de termos atores consagrados como Marlon Brando interpretando Jor-El, o pai biológico de Superman, e Glenn Ford interpretando Jonathan Kent, seu pai adotivo aqui na terra. Mas o filme ganha um ar bem mais leve quando chegamos à idade adulta do herói e o encontramos como um jornalista na grande Metrópolis. O contraste dessas duas fases do filme se baseia nas das duas versões de Clark Kent. Temos na fase inicial a sua versão jovem, um pouco mais introspectivo, que não sabe muito sobre si e porque tem os poderes que tem, e no resto do filme, já adulto, o herói estando mais seguro sobre si e seus poderes, passa a adotar Clark Kent como identidade secreta, seu disfarce perante os outros habitantes do planeta. Assim, no início Clark Kent era o próprio herói, sua identidade verdadeira, um personagem real, por isso o tom mais sóbrio, e depois quando ele vira um mero personagem fictício por onde herói se esconde, o filme passa a adotar esse tom mais agradável de filme de aventura.

Incrível ver como o filme acerta em cada detalhe, desde a fodástica e inesquecível trilha de John Williams, passando pelos efeitos especiais (que ganharam o Oscar da época) até seu elenco grandioso, com personagens bem desenvolvidos. De um lado temos o herói, Superman, interpretado por Christopher Reeve, que foi a escolha perfeita para o papel. Ele não só o interpreta, mas o incorpora. Isso se torna um feito ainda maior quando somamos o fato de na realidade ser duas personalidades distintas presas dentro do mesmo personagem: Superman e Clark Kent. Se na tela, a única diferença física que vemos entre eles é o uso ou não de óculos, mas na ótima interpretação do Reeve isso aumenta numa proporção incrível. A postura que ele adota com Superman e o jogo de cintura que tem com as trapalhadas do Clark fazem com que não duvidamos por um minuto que sejam dois personagens diferentes, mesmo sabendo que se trata da mesma pessoa. Sua companheira de cena também foi outra grande escolha. Margot Kidder, como Lois Lane, acentua ainda mais essas duas personalidades do herói, quando age de forma natural, mas bem distinta perante um e o outro. Daí se tira que dali, dentro daquele universo, não daria para ninguém pensar por um momento que Clark Kent é o Superman. A identidade secreta dele estaria segura. E do outro lado, temos o vilão Lex Luthor, que Gene Hackman interpreta de forma magistral, tornando Lex um vilão inesquecível. Se Superman tinha essa dubiedade de ser dois personagens dentro de um, Luthor carregava essa dubiedade dentro de sua personalidade única onde se apresenta ao mesmo tempo o perigo eminente por ser a pessoa que quer destruir Superman, mas também uma pessoa carismática, que se intitula “a maior mente criminosa do nosso tempo”. Ele instiga simultaneamente no público essa simpatia, por ser um personagem agradável, e uma antipatia, por não deixar de ser o vilão perigoso que é. E as cenas dele com seus capangas incompetentes é o que melhor representa esse humor acertado que o filme tem. Ao contrário do pastelão da Parte 3, ou da falta de humor do recente O Retorno, aqui tudo é bem construído. Mesmo porque o humor surge naturalmente quebrando assim qualquer título de “filme que se leva a sério demais”. Donner tinha consciência que estava fazendo uma aventura baseada em HQ, então o filme carrega sua leveza através desse humor.

O marketing de Superman – O Filme era todo virado ao simples fato de podermos ver um homem voando na tela, coisa não tão comum na época, ainda mais de forma verossímil que era o que se pretendia aqui. E esse homem não só voava, ele fazia outras coisas incríveis, como ir para o espaço sideral, correr mais rápido do que um trem, resistir a tiro de balas, levantar carros, caminhões, helicópteros e qualquer outro tipo de peso, entre várias outras coisas incríveis, ou seja, hoje, o filme não soa como novidade, já que qualquer super-herói de beira de esquina se propõe a fazer isso, mas numa época cética, Superman fez com que isso tudo pudesse virar realidade na tela, numa dimensão gigantesca, e assim abriu as portas para todo um gênero que hoje em dia está muito em alta (para o bem ou para o mal). E depois de tanto tempo, o filme continua importante dentro desse gênero, a ponto de até hoje ser usado como base ou referencial para todo e qualquer outro super-herói que queira sair das HQs e ir para a telona do cinema. Em cima disso tudo, Superman – O Filme, tanto na época como atualmente, se tornou um filme único.

4/4

Jailton Rocha

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10 Comentários

Arquivado em Resenhas

10 Respostas para “Superman – O Filme (Richard Donner, 1978)

  1. Caio Lucas

    Quando fui ver nunca imaginei que as cenas com efeitos seriam tão boas. Mas o massa mesmo é o roteiro, a melhor história dentre os super-heróis.

  2. Djonata

    os efeitos são muito ruins. mas não deixa de ser divertido ver o Reeves pendurado numa corda balançando pra lá e pra cá. heh

  3. Daniel Dalpizzolo

    Sinceramente, o segundo é bem melhor – e nem é grande coisa.

  4. Meus pais me contam que a chegada de Superman – O Filme causou estardalhaço. Eu gostaria de ter idade pra vivenciar isso. Só lembro vagamente dos anúncios da primeira vez em que o azulão foi exibido na tv aberta brasileira. Peguei no sono e não consegui ver, hahaha. Mas meus pais alugaram depois, e eu vi muitas vezes depois da primeira. É um dos meus filmes preferidos. Se os efeitos especiais hoje não impressionam, serviram para aquilo que o cinema tem de bom, que é mexer com o imaginário das pessoas. Até hoje acho que quase nada se compara (dentre os filmes de super-heróis) à sequência que apresenta o Superman ao mundo.

  5. Caio Lucas

    Tá, se os efeitos não são bons, são interessantes. Superman correndo junto ao trem é incrível.

  6. sergio

    Fala sério, gente.
    Eu tava lá em 1978, aquilo de abrir a tela com aquela trilha apoteótica e aquele S vermelho e amarelo rasgando o fundo preto fez a meninada da época colar na cadeira.
    Afinal o último superman tinha sido de televisão, e em 1950. E em preto e branco.
    Os efeitos, limitados para a época, mas do mesmo jeito dos utilizados em guerra nas estrelas, mas desse ninguém fala mal, porque será? Eram ótimos e convincentes para a época.
    E o Marlon Brando? quem pagaria aquela fortuna para um ator brincar de ser de outro planeta (não sei quantos milhoes de dolares por poucos minutos de sequencia). Sua acusação dos tres criminosos o tornou um dos perfeitos promotores do cinema.
    A definição ficou clássica, repetida até em smalville da warner: o Cristopher Reeve nos fez acreditar que o homem podia voar.
    Nós saímos do cinema olhando para cima…

  7. Djonata

    a trilha é ótima mesmo. Willians, etc. eu falo mal de SW tbm, não gosto nem um pouco; mas posso falar de 2001 que é mais antigo que ambos e tem efeitos sensacionais até hoje, efeitos que não envelheceram.

  8. Djonata

    e colar na cadeira, a meninada cola em Transformers tbm.

  9. Bá, foste perfeito em tuas observações, Sérgio. Maldição, que inveja de quem viu no cinema, hahaha.

    O conceito do “you will believe a man can fly” foi realmente um dos mais acertados do cinema de aventura de todos os tempos, coisa mágica mesmo.

  10. Michelle

    Esse filme sempré será um marco nas HC, pois a partir dele vieram tantos outros …mas nenhum, com tanta perfeição. Não existirá um segundo Christopher Reeve, ator que incorporou tão bem esse personagem. Não há Smalville nem nada que nos faça, esquecer esse filme. Christopher Reeve, superman para sempre…

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