Superman II – A Aventura Continua (Richard Lester/Richard Donner, 1980)

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A primeira coisa a se dizer sobre Superman II – A Aventura Continua são as confusões que ocorreram nos bastidores da produção. O diretor Richard Donner tinha sido contratado para realizar dois filmes baseados nas HQs do Superman, e realizar dois filmes simultaneamente não é algo fácil, ainda mais naquela época (fim dos anos 70), então os problemas inevitavelmente surgiram. A intenção inicial era lançar ambos os filmes somente depois de os dois estarem prontos, mas com os vários atrasos que houve, Donner se viu obrigado a finalizar o primeiro filme, e lançá-lo antes de concluir o segundo. Só que depois do sucesso de Superman – O Filme, e como desde o início, a produção do filme se desentendia com a direção, os produtores se acharam no direito de demitir Donner, já que pouca coisa do segundo filme faltava para terminar, e chamaram o diretor Richard Lester para concluir tudo. Mas com a demissão do diretor, parte importante do elenco e equipe técnica saiu também da produção. Assim, Marlon Brando, que interpretou Jor-El, pai do herói, no filme original, não teve nem seu nome ou sua imagem incluída na continuação, fazendo com que Suzanne York, a mãe de Superman, filmasse as cenas dele, e Gene Hackman, o vilão Lex Luthor, se negou a terminar suas cenas, sendo substituído assim por um dublê em alguns takes. Claro que é lamentável isso tudo que ocorreu, mas apesar disso, Superman II é uma ótima continuação. Donner tinha filmado quase tudo, faltando muito pouco para Lester acrescentar, e ele se limitou a só terminar o filme mesmo, não influenciando tanto o resultado final, já que não mudou muita coisa. Nem poderia mudar, porque se quisesse fazer isso, grande parte do elenco não estava mais lá para filmar qualquer cena extra. Com isso, mesmo que oficialmente quem dirigiu o filme foi Lester, quase tudo foi filmado e idealizado pelo Donner, então por isso me coloquei no direito de colocar o nome dos dois no topo do texto.

Esse segundo filme trabalha muito bem uma característica que de cara beneficia muita continuação, que é a de não precisar apresentar personagens, já que isso ficou para o filme original, restando para continuação a função básica de movimentar a história. Já conhecemos Superman, Lois Lane, Lex Luthor e todo mundo mais, e estamos dentro daquele universo, então não haveria necessidade de uma grande introdução como houve antes, resultando em mais cenas de ação, todas ótimas e muitas delas em cima dos três excelentes vilões que surgem. Já o vimos antes no começo do primeiro filme: General Zod (Terence Stamp), Ursa (Sarah Douglas) e Non (Jack O’Halloran). Três malfeitores que foram capturados em Krypton, antes de sua destruição, e condenados à prisão eterna na Zona Fantasma. Se antes o Superman era o único que tinha sobrevivido à destruição de Krypton, sendo assim o único da sua espécie no planeta, aqui vemos que ele não foi o único e que vai enfrentar três personagens tão fortes quanto ele. Curiosamente, a fuga do trio da Zona Fantasma se dá pelas mãos do próprio Superman, que os liberta da prisão sem querer.

No primeiro filme, o que se trabalhava era a construção desse personagem, principalmente, nessa sua imponência por ter superpoderes na Terra, sendo assim indestrutível, mas aqui, nesse segundo filme, tudo isso se quebra. Tanto a sua indestrutibilidade física como a emocional se rompem. Com a presença dos três vilões vindos de Krypton, Superman perde sua indestrutibilidade física, já que Zod, Ursa e Non, tendo os mesmo poderes dele, e sendo em maior número, poderiam sim derrotá-lo e destruí-lo. Um perigo real assim se apresenta. E paralelamente, ao surgimento desses três personagens na Terra, também vemos o desenrolar da relação entre Clark Kent/Superman e Lois Lane, o que provoca a perda da indestrutibilidade emocional do herói. Essa parte emocional é um limiar que o personagem vive desde o começo. Superman veio para ajudar, e para se ajudar tem que haver essa compaixão, ele tem que se importar com as pessoas da Terra, mas não poderia se envolver muito, a ponto de ultrapassar certa barreira e querer ser um de nós. Ele só poderia ajudar vivendo às margens da sociedade, sem ser parte integrante dela. Através de sua relação com Lois, Superman não quer se sentir mais responsável pelo mundo, e não quer mais ser diferente. Ele quer se tornar mortal para viver ao lado dela, e toma assim uma decisão drástica. O problema é que depois de tomar essa decisão, ele fica diante da situação dramática que o planeta passa quando General Zod e seus comparsas estão dominando o mundo. Essa é a sina do herói que vê que não pode deixar de ser herói, ao mesmo tempo em que sente essa extrema necessidade de não ser mais. Tudo isso termina na excelente batalha aérea nos céus de Metrópolis, quando os três vilões enfrentam o Homem de Aço. Com certeza, um dos pontos altos não só do filme, mas da série toda.

Uma dúvida que rola em relação a Superman II é até que ponto foi prejudicado com a demissão de Donner. Claro, que houve esse prejuízo, não dá para negar. Só que o filme ficou ótimo de qualquer forma, mesmo que o Richard Lester tenha colocado certas bobagens típicas dele na montagem final, mas, particularmente, não acho que nem o Superman III foi muito prejudicado por isso, e ele foi todo filmado pelo Lester. Sem falar que, recentemente, ao assistir Superman – O Retorno, tendo que presenciar toda aquela bobeiragem dramático-romântica do Bryan Singer, ficou a impressão de que se Donner tivesse continuado, poderia ter tentado colocar isso filme dele, e Superman II ter perdido sua essência de filme de aventura e caído na desgraça de tentar ser algo que não é. Isso é exagero meu, já que tenho certeza que Donner nunca iria fazer isso, mas o filme do Singer me deixou traumatizado a ponto de me perguntar: Que filme do Superman, eu vi? Será que foi o mesmo que o Singer viu? Será que foi o mesmo que Donner idealizou? Enfim. No final de tudo, me lembro daquela frase que diz que “Há males que vem para o bem”, então, me limito a acreditar nisso, e em vez de ficar imaginando o que o filme poderia ter sido com o Donner, fico curtindo essa ótima versão aqui mesmo. Ela tem qualidades mil, apesar de todos esses problemas que aconteceram na sua produção.

4/4

Jailton Rocha

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