Huckabees – A Vida é uma Comédia (David O. Russel, 2004)

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Coincidências. Esse é o pontapé inicial do filme I Heart Huckabees, que a partir desse tema tenta tratar de questões existenciais, que muitos em algum momento podem querer analisar em suas vidas. E ao contrário do que possa parecer, o competente diretor David O. Russel não retrata isso de forma dramática ou pesada, que seria o mais óbvio por se tratar de um tema difícil, mas sim de uma forma cômica, com bastante bom humor, através de um roteiro inteligente e certeiro, somado ao desempenho de seu excelente elenco.

O personagem principal aqui é Albert Markovsky (Jason Schwartzman). Um cara que já começa o filme questionando a si mesmo e a sua vida no geral, mostrando ser uma pessoa cheia de dúvidas e incertezas (afinal, quem não as tem). Ele é um ambientalista que faz parte de uma entidade chamada “Espaços Abertos”, uma organização que tenta evitar com que o progresso urbano acabe com os espaços naturais como bosques, florestas e campos. Por ter tantas dúvidas na cabeça, principalmente depois que uma estranha coincidência ocorreu recentemente em sua vida, ele vai procurar uma agência de “detetives existenciais” para fazer uma investigação sobre essa coincidência. Logo nas cenas iniciais, onde se passa os créditos do filme, já o vemos perdido no prédio onde fica a agência, andando por dentre vários corredores. Albert se vê num labirinto, que não deixa de ser uma referência ao “labirinto emocional” que vai acontecer com ele no decorrer do filme.

Na agência de detetives, conhecemos Vivian e Bernard Jaffe (Lily Tomlin e Dustin Hoffman), casados, e que se autodenominam “detetives existenciais”. Eles investigam passo a passo a vida da pessoa que pediu os serviços de investigação para assim descobrir qual seria o motivo de alguma coincidência que tenha acontecido ou simplesmente a resposta de alguma dúvida que a pessoa está tendo sobre sua vida. Segundo a filosofia deles, tudo que acontece no universo tem uma ligação, tudo é conectado de alguma forma. Nada acontece por acaso. Tudo é importante. O exemplo usado aqui é o de um lençol. O universo seria um lençol, e cada pessoa, cada evento, cada coisa é uma parte desse lençol. Notamos a maneira que o roteiro simplifica coisas, usando uma linguagem um pouco mais simples, para não cair na armadilha de tentar ser um “filme cabeça” demais, coisa que não era o objetivo aqui. Esse é um dos charmes do roteiro. As pessoas podem gostar ou não do filme, aprovar ou não as filosofias apresentadas aqui, mas entender, elas entendem. O filme dá todas as ferramentas para isso. E voltando ao Albert, ele aceita essa filosofia de Vivian e Bernard, e a “investigação existencial” de sua vida começa.

Como poderia acontecer com qualquer pessoa, a investigação dos detetives deixa Albert muito incomodado, já que eles invadem cada espaço de sua rotina diária para observar e anotar o que ele faz e como ele faz as coisas, porque segundo Vivian qualquer pequeno detalhe dessa sua rotina “pode ser a chave para sua realidade”. Mas incômodo maior é quando eles entram no seu ambiente de trabalho, porque Albert está num momento delicado, enfrentando muitas dificuldades. Essa é a teia que se monta em volta dele: Por causa das dificuldades no trabalho, ele começa a se questionar e questionar a própria razão de sua existência. Esse questionamento o fez prestar atenção nas coincidências, das quais ele atribui a algum tipo sinal, e em busca do significado desse sinal, ele contrata os detetives, cuja investigação representa essa sua busca por uma verdade universal. Mas quando os detetives, querendo investigar mais sobre ele, invadem seu espaço de trabalho, complicando ainda mais as coisas, ele começa a rejeitá-los. Ou seja, os problemas que tem no trabalho acabam sendo o que atrai e o que afasta Albert pela busca dessa verdade, que ele tanto anseia.

No decorrer da investigação, outros personagens surgem e são envolvidos direta ou indiretamente nela. O primeiro é Brad Stand (Jude Law). Ele é rival de Albert, e trabalha para uma rede de shoppings conhecida como Huckabees (que dá nome ao filme). Os dois estão num atrito porque a empresa quer construir mais um shopping numa área de conservação ambiental, defendida pela organização Espaços Abertos. Para atrapalhar o rival, Brad chega a encomendar uma investigação existencial para si, mas com isso, envolve também a sua namorada, a bela modelo Dawn Campbell (Naomi Watts), a garota-propaganda da Huckabees, que forma com ele o típico casal jovem, bonito e bem sucedido, mas com a investigação descobrem como são incrivelmente fúteis. Ele, por sempre querer ter muito sucesso na vida, se anula atrás de uma imagem de cara boa praça e simpático, enquanto ela se anula para poder parecer sempre bonita e carismática diante os outros, e estrelar os comerciais da empresa. Primeiramente, é Dawn que cai nessa crise existencial e passa a se vestir de qualquer jeito, renegando sua beleza física, e cobrando mais seriedade de Brad. Logo depois é ele, que demonstra certa resistência em aceitar a filosofia dos detetives, mas através de uma conversa reveladora com eles, acaba falando a frase “Como eu não sou eu mesmo?”. Isso cai como um raio em sua cabeça, e o faz se sentir mal, chegando ao ponto de vomitar ao tentar manter o mesmo comportamento que vinha tendo no decorrer da vida. O lado emocional dele acaba interferindo diretamente no lado físico de tão pesado que ele se sente. Com isso, ao tentar sabotar o rival, Brad acaba atingindo a si mesmo.

Outros personagens que são afetados por toda essa investigação em volta de Albert são: Tommy Corn (Mark Wahlberg) e Caterine Vauban (Isabele Huppert). Tommy também está sendo investigado por Vivian e Bernard. Ele é um bombeiro e teria entrado numa crise depois dos atentados terroristas de 11 de Setembro de 2001, e assim pedido a investigação sobre sua vida. Encontramos ele indagando sob os malefícios que o petróleo causa no mundo, como as guerras, miséria e ditadura. Mais que indagação, ele sofre de uma grande obsessão por esse tema. Tommy, com certeza, é um dos grandes destaques do filme, formando uma ótima dupla com Albert, depois que os dois se conhecem na agência de detetives. Mark Wahlberg dá ao personagem o tom certo de fúria e incertezas pelo qual o personagem passa. E falando em coincidências, uma que ocorre aqui é que Mark e o diretor David já trabalharam juntos antes no ótimo filme Três Reis (Three Kings, 1999) que se passa na Guerra do Golfo, guerra que se ocasionou por toda a disputa de petróleo, que é o que motiva a fúria do personagem do Mark aqui. Já a outra personagem importante que surge é Caterine Vauban. Ela é uma escritora, que traz uma filosofia inversa ao de Vivian e Bernard. Enquanto os detetives defendem que tudo está ligado no universo, ela afirma que nada importa, e as coisas acontecem de forma aleatória. Somos nada e temos que aceitar isso. O filme trabalha paralelamente muito bem essa duas filosofias inicialmente opostas. E é essa inversão que faz Albert cair cada vez mais nesse abismo emocional, quando primeiramente aceita a proposta de Vivian e Bernard, acreditando que tudo tem ligação e importância, e depois quando tudo dá errado, passa a ouvir as teorias de Caterine, que diz que somos nada. Ele vai do céu ao inferno, e do inferno ao céu, num piscar de olhos durante vários momentos do filme. Se ele vai sobreviver a isso tudo, só depende dele e de suas conclusões que irá chegar depois desse processo.

Por fim, o filme acaba admitindo a possibilidade de ambas as filosofias apresentadas aqui, não serem opostas ou excludentes, seriam sim, complementares uma à outra. O “Tudo” de Vivian e Bernard não existiria sem o “Nada” de Caterine e vice-versa. Não deixa de ser uma possibilidade, mas o mais importante que as conclusões que qualquer um pode ter tido ao ver o filme, foi ter a certeza de ter acompanhado uma história rica e muito divertida com I Heart Huckabees. Uma comédia existencial totalmente divertida com uma história deliciosa e elenco idem.

4/4

Jailton Rocha

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15 Comentários

Arquivado em Resenhas

15 Respostas para “Huckabees – A Vida é uma Comédia (David O. Russel, 2004)

  1. Pessoal, meus parabéns! Eu não encontrei outro lugar para deixar meu oi por isso fiquei por aqui. Adorei o blog, vou deixar gravado no meu e entrar sempre! Acabei de descobrir e percebi que vai demorar um tempo vasculhando ele (rsrs). Posso divulgar o meu?? Bem, lá vai:
    http://nandodijesus.blogspot.com/
    Valeu mesmo!!!

  2. Luis Henrique Boaventura

    Valeu Nando! Colocamos o teu link no blogroll.
    Volte sempre, abraço!

  3. Thiago Macêdo

    adooooro esse filme, preciso rever! tem as cenas mais insanas dos últimos tempos (Isabelle Hupert e Jason Schwartzman + lama…hahahaha) e mais engraçadas também.

  4. Daniel Dalpizzolo

    Já eu acho uma grande decaída. Três Reis é ótimo, inacreditável que tenha saído da mesma cabeça.

  5. Djonata

    nisso eu concordo com o Daniel.

  6. Jailton Rocha

    Eu acho os dois filmes geniais, e nem sei qual deles é o meu favorito.

  7. Daniel Dalpizzolo

    Cheguei a ver duas vezes esse Huckabees, pensando ter sido mau humorado da primeira. Bobagem – isso em tempos em que eu ainda não me dava toda confiança. É tão fraco, tanto em forma quanto em substância, que eu não consigo acreditar que alguém possa chamar essa farofada de genial. Acontece.

  8. Thiago Macêdo

    é, acontece. eu acho fantástico!

  9. Daniel, a pessoa mais carrancuda do Multiplot. :D

  10. Daniel Dalpizzolo

    Que nada, eu sou tranqüilo. hehe.

  11. Murilo

    Eu preciso rever, etc… mas a primeira vez que vi, achei ótimo. O poema sobre a pedra me vem à mente com muita freqüência e sempre acho hilário :B

  12. Djonata

    Se achar esse filme chato e imbecil é sinal de carranca, tbm sou carrancudo entonces :B

  13. Cassius

    Eu achei bem legal na hora, quando vi para o CeC, justamente pela resenha do Jaílton; mas, enquanto fazia sua leitura e nos dias seguintes comecei a desgostar de coisas aqui e ali. O saldo hoje é bem esquecível, mas bom; a rever para ter uma opinião melhor.

  14. Eu gostei bastante, mas bastante mesmo, tanto da estória em si quanto das maluquices visuais que eles criam pra complementar a maluquice intelectualóide dos personagens, hehehe. Adorei a maioria das atuações tb.

    E é ótimo dizer Fuckabees, hahahaha!

  15. Ví esse filme em algumas partes num Intercine.

    Achei os momentos que eu ví tao sinceros… o lance da psicanalista mostrando pro kra que ele os pais dele fizeram ele ter vergonha de ter ficado triste pela morte de… um gato, eu acho. A cena eh muito mais do que isso, logico, mas, enfim….

    umas questões bem fodas – o lance la do africano morando naquela casa e ele realmente se acostumou e gosta daquilo; nao quer porra de libertação nenhuma. hehehe rindo pra nao chorar

    tenho que assistir na íntegra – Me pareceu fantástico esse filme!!!! Questões muito legais colocadas de maneira bem descompromissada mas acertando bem no nervo da ferida. =)

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