Na Natureza Selvagem (Sean Penn, 2007)

Há dias venho ensaiando uma forma de falar deste filme de Sean Penn, mas sem absolutamente nenhum sucesso. E isso se deve a uma situação bastante peculiar: no momento em que comecei a assistir o filme tinha uma impressão que se desfez nas semanas seguintes à sessão. Raramente tal evento acontece, o que há é um aprofundamento em minha mente que acaba gerando uma análise mais fundamentada dos mesmos fatores que me levaram a tal impressão inicial… mas uma reformulação, que diabos era isso?

Tenho que dizer que Into the Wild me exauriu completamente durante os dias subsequentes à experiência. Não me lembro de quando um filme obteve similar efeito sobre mim. Em dado momento, estava tão confuso que não sabia se havia gostado, se havia sido uma experiência agradável ou tediosa, destrutiva ou construtiva,  jocosa ou fatigante.

Eu não havia lido muito sobre ele. Sabia apenas que se tratava de um jovem, que aparentemente tinha uma má convivência com os pais. Após graduar-se, sai de casa em busca de uma vida junto à natureza rumo ao Alasca e conhece vários personagens no caminho que mudam seus conceitos e lhe proporcionam aprendizado. Não poderia eu estar diante de uma sinopse mais previsível…podia construir através da premissa toda a trajetória do garoto em termos gerais.

Ao final do filme estava absolutamente extasiado com os rumos da estória e com a sinopse, pra mim,  completamente inadequada. Fui pensar porque tive essa impressão (nossa mente trabalha mais rápido do que nosso possibilidade de processamento dos porquês) e permaneci durante semanas traçando hipóteses e pensando porque raios aquela obra me deixara tão perturbado…

Como fã do processo criativo de personagens, bem como do comportamento humano, acabei chegando na seguinte perspectiva: há algo de diferente em Chris McCandless, algo que destrói minha lógica desse processo de gênese, algo muito difícil de explicar, mas que o torna um contraponto por exemplo à personagem Nikki Grace do “turbulento” Império dos Sonhos, cuja lógica compreende a desordem psicológica da protagonista. Mesmo sendo demasiadamente complexa, há ali uma conexão entre os principais elementos que a compõem, uma rede intrincada de pequenos fragmentos que se interligam de forma estranha, mas coesa.  E sobre os que você não conhece a conexão, você não se importa tanto, se conforma em não conhecer seus significados ocultos.

Sobre Chris não. Há incoerências comportamentais graves e inquietantes, motivações obscuras e comportamentos não tradicionalmente expostos em obras de arte. Ele realmente navega contra a maré, contra tudo que já vi e se torna um personagem muito especial. Alguém que parece não ser criado porque guarda a essência de uma individualidade peculiar que não parece ter sido processada ou compreendida por ninguém. Chris é simplesmente humano demais e isso estava me matando, destroçando meu mundinho de espectador!

Parte desse eco em minha mente foi desfeito quando sobre que era uma estória real, mesmo sabendo que sua vida foi redimensionada em um instrumento concreto (seja o livro, seja o filme). Entendi que parte dele foi deixada ali como uma estrutura complexa demais para ser reanalisada: “melhor reproduzir apenas seus efeitos”.

Jovem obstinado a cumprir seu objetivo (que se traduz concretamente em “chegar ao Alasca, não importa como”, simplificação absurda e insuficiente de todos os inúmeros fatores que proporcionam a ele essa mudança radical de vida), Chris vê em seu caminho pessoas tratando coisas comuns de forma comum e mesmo as diferenciadas como os hippies, tratando as adversidades com um caminho baseado em regras (diferentes da perspectiva social dominante, claro), mas ainda assim regras. E aí o que mais me surpreende é a forma totalmente atípica dele tratar tais situações e principalmente a convivência com outros seres humanos. A minimização da importância das relações interpessoais (quase cruel, em minha opinião a todos que atravessam sua cruzada), trocada por uma marca perpétua (embora extremamente breve) da passagem de Supertramp em suas vidas conjugada com algumas atitudes supostamente incoerentes com suas crenças o elevam a um nível ilimitado de complexidade.

Reduzi-lo, como já vi por vezes, a “apenas um jovem inconsequente ou idiota” é rejeitar um universo que funciona de forma distinta que o comum e destruir uma experiência no mínimo muito, mas muito interessante. A idéia de tentar compreendê-lo por completo, porém, produz igual destruição, tornando tudo ainda mais desafiador e empolgante.

Belíssima trilha sonora de Eddie Vader (vocalista do Pearl Jam ou ex, não sei bem), fotografia espetacular e tratamento de sensibilidade ímpar de Emile Hirsch e Penn em relação ao homem real que Chris representa Creio que, após todo o processo reflexivo que o filme me proporcionou (e que não consigo reproduzir em um texto nem 10%) posso dizer que Na Natureza Selvagem é emocionante e recomendadíssimo aos leitores do Multiplot!

4/4

Sílvio Tavares

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6 Comentários

Arquivado em Resenhas

6 Respostas para “Na Natureza Selvagem (Sean Penn, 2007)

  1. Thiago Macêdo

    HEIN?! rs

  2. mrscofield

    Ixi, já começou. Deixa só o Daniel aparecer por aqui. rs
    E sim, adorei o filme no final das contas. E quem não gostou que vá plantar coquinho… : D

  3. Daniel Dalpizzolo

    Não vi o filme. E nem pretendo mais. :B

  4. Thiago Macêdo

    Não pretenda, Dan, plante coquinhos que é mais interessante!

  5. Murilo

    Pro inferno todos vocês [dentões] Into the Wild é ótimo!

  6. Sem dúvidas o jovem nos causa uma inquietação interna, pelo menos em minha pessoa causou.

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