10º Festival Internacional de Curtas de BH

TERCEIRO DIA

BATALHA – A GUERRA DO VINIL (Rafael Terpins)

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1/4

Não há como negar que o que motiva o desenvolvimento de Batalha – A Guerra dos Vinis seja uma necessidade pessoal de retratação de um ambiente de convívio particular. A vida na favela e seus personagens são pilares da construção da tal “guerra” estabelecida entre um simples habitante do local, na tentativa de se provar o maior DJ das redondezas, com o consagrado artista resguardado por gravadora, seguranças e “gruppies”. As técnicas empregadas para fazer a animação de Batalha são bastante interessantes e provam uma dedicação ao trabalho por meio da equipe muito impressionante. Assim como o hip hop não é bem visto em certos meios sociais no país, fazer animação em stop motion pode ser das tarefas mais marginais possíveis. Mas mesmo com todas essas boas intenções e méritos técnicos, Batalha chora uma falta de segurança narrativa, uma fraqueza no desenvolvimento estrutural do filme que não conseguiu acompanhar a qualidade técnica e transforma a experiência daquela situação como uma estória qualquer sobre superação, onde o final é conhecido desde o segundo inicial.

ENCANTO (Julia de Simone)

2/4

Encanto parece querer remontar uma tradição perdida que pode ser ainda possível nos dias atuais. Em um clube onde se reunem basicamente homens já na terceira idade, acompanhamos o dia-a-dia das preparações dos pássaros que eles criam destinados a competir em guerras de canto. O canto dos pássaros abafa as próprias vozes dos homens mas o que a realidade realmente revela, do lado de fora daquele clube, é que é impossível ouvirmos tal canto em meio a tanto barulho humano. Não há muito espaço para estes sons e, possivelmente, nem para estes homens. O olhar presente sobre este passado é impregnado de respeito pela câmera de Julia de Simone, mas no final ela parece ter a consciência de que a viagem sonora que ela propôs não tem espaço suficiente nos ouvidos urbanos.

ISMAR (Gustavo Beck)


3/4

Exercício interessante de reflexão sobre a televisão, Ismar narra a trajetória de um garoto sonhador que ficou famoso na televisão, há mais de uma década, graças a seu conhecimento sobre a antiga Hollywood. Participou do programa de Jota Silvestre na tentativa de ganhar como prêmio uma viagem de sonhos para a meca do cinema. No filme de Gustavo Beck, temos acesso às imagens de arquivo deste programa que nos narra o drama do garotinho que, ao final de várias baterias de perguntas, acaba não conseguindo realizar o tal sonho. A exploração da máquina televisiva e a ilusão de um vida imaginária projetada pela tal Hollywood de ouro são dois dos objetos de estudo do filme, mas Beck acaba conseguindo ir muito além, ainda se notarmos que o filme é sobre uma pessoa e não um personagem. Ismar deixou de ser aquele garotinho de face rechonchuda e limpa e virou um jovem de cabelos desarrumados e barba suja, quer fazer arte antes de se deixar iludir, diz querer agora somente o real e quase assina embaixo da possível máscara do passado. Um filme quase cruel sobre uma criança ingênua que vive uma ilusão e sobre um adulto em formação que almeja a naturalidade. Virou uma boa moda a ser seguida no cinema documental.

AREIA (Caetano Gotardo)

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4/4

Areia é deslumbrante. O deslumbre estético do filme, fruto da fotografia magnífica de Heloísa Passos, transporta quem vê a ação diretamente para um profundo estado de observação interna e pessoal. Areia se passa inteiramente numa praia, um ambiente aberto e amplamente sujeito à interferências externas, como principalmente o barulho das ondas do mar, que pontuam todo o filme. Mas essas influências externas só parecem servir para colaborar com a criação de uma imersão interna de sensações, sendo que os personagens que se encontram naquela praia parecem não pertencer a ela em nenhum momento (muito devido ao extraordinário jogo de foco da fotografia), a não ser num fragmento de memória. É como estar e não estar ao mesmo tempo, tentar se manter ali, pelas tentativas que a personagem de Malu Galli faz de lembrar em detalhes de suas ações, pela repetição dos sons, dos nomes (palpáveis, como é dito) e pela inconsciência do close, que cria uma imagem não-real de uma lembrança guardada. E no momento em que o mar se cala nessa memória, a viagem metafórica dentro do ser atinge seu momento de maior singularidade, de lirismo absoluto. Não é natural estar tão próximo a essa memória de uma tarde tão importante, que algumas pessoas nem suportam, mas a construção desse artifício da irrealidade é um dos mais belos exemplares recentes de busca e entrega dentro de um filme. Areia consegue isso sendo ambos, natural e artificial, realidade e sonho. Areia é deslumbrante!

SENTINELA (Afonso Nunes)

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4/4

A passagem da vida para a morte é vigiada por homens e mulheres em uma determinada cidade no interior de Minas Gerais, que dizem não ser Minas nem Bahia. O momento de transição que é aguardado por todos para que os homens não façam a “passagem” sozinhos é o ponto do olhar de Afonso Nunes em Sentinela. A inevitabilidade da morte e a espera final é observada com uma câmera em preto e branco, que acentua a linha do tempo nos rostos daqueles homens e mulheres velhos, em seus fins. Não bastando isso, Nunes ressalta o tempo em seus movimentos, na câmera mais lenta, mas calma, que como um último suspiro de quem está partindo, se recupera um pouco para depois não mais voltar. Esse tempo impresso no olhar de Nunes, sempre postado como em reverência a seus documentados, é a grande razão de buscar novamente entender a vida ou a morte, em Sentinela. Ou o tempo.

Thiago Macêdo Correia

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