Batman – O Retorno (Tim Burton)

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No dicionário, “herói” está definido exatamente assim:

1.Homem extraordinário por seus feitos guerreiros, seu valor ou sua magnanimidade.
2.P. ext. Pessoa que por qualquer motivo é centro de atenções.
3.Protagonista de uma obra literária.
4.Mit. Semideus (2). [Fem.: heroína.]

Por esses quatro itens, a primeira impressão é a de que Batman se encaixaria no primeiro deles. O Batman que se procura é o cara extraordinário por seus feitos, seu valor, sua generosidade, longanimidade, sua coragem, sua moral ilibada.

Felizmente, não é esse Batman que o diretor Tim Burton apresenta neste que considero o filme de Batman definitivo até agora (a comparação match-to-match chega só 16 anos depois com O Cavaleiro das Trevas, de Nolan). Ciente de que replicar na tela grande a expectativa que o ser humano tem da noção da palavra “herói” soaria contra producente e um tremendo lugar comum, Burton encara o Batman como aquilo que ele efetivamente é: uma aberração, alguém que vê a atitude de se vestir de morcego como um fardo, uma maldição, que só é feita por ele porque alguém precisa fazer o trabalho sujo e não tem ninguém mais para isso. Mas acima de tudo, Burton encara o Morcego como uma criatura amoral. Batman é igual àqueles que combate e o pior: ele mesmo mal se dá conta disto. Num mundo que eleva aberrações ao status de celebridade, sua principal figura se mescla à multidão justamente por também ser igual a ela.

Há uma hipocrisia velada no universo de Batman – O Retorno. A sociedade corrupta que cerca o personagem exige dele uma postura moral diferenciada, quando ela mesma não dá esse exemplo. É esse “desleixo”, esse “foda-se” com que Burton olha para esse universo que faz de Batman – O Retorno um filme tão fascinante. Como Kubrick que, com seus filmes, pega um espelho e coloca na frente do expectador para que este veja-se a si mesmo como é na realidade, Burton simplesmente liga sua câmera e permite que o vaso sanitário despeje de volta tudo aquilo que foi jogado lá, sem interferir… Ele tão somente mostra como aquele universo é.

Nesse mundo caótico, desesperançoso (nem o Batman consegue trazer uma brisa de acalento para a situação, sendo apenas parte de um grande círculo vicioso), Burton orquestra um triângulo inusitado entre 3 aberrações, animais, párias da sociedade que, quando juntos, exteriorizam seus traumas nas suas maneiras de agir fazendo da cidade de Gothan City a “baixa de guerra”. As 3 aberrações são, claro, Batman, Pingüim e Mulher-Gato.

O primeiro, já é conhecido (bom, nem tanto) de qualquer um; o segundo emerge literalmente do esgoto, da fossa, para cobrar da sociedade o que ele acredita que lhe foi tirado; a terceira é tudo aquilo que o Batman é, mas que não assume para si mesmo, é alguém que ligou o botão do “foda-se” e percebe o sentido da vida na inexistência de regras para si mesma.

É justamente no relacionamento dela com o Batman onde se vislumbra a humanidade de ambos, o semblante muda, uma nova perspectiva surge, uma vida sem máscaras, como sugere uma cena em particular do filme.

Da bizarrice e da amoralidade, Burton extrai romance e uma atração explosiva entre dois de seus protagonistas, levando a um clímax que deixou os fãs de quadrinhos de cabelo em pé.

Trata-se de uma obra que em momento algum esforça-se para ser “nice” com o seu público. Batman – O Retorno não quer “bunitinho”, não quer mostrar que o seu protagonista principal é “cool”, o romance se dá entre duas pessoas atormentadas por traumas e a atração entre elas se dá exatamente pela descoberta mútua de perturbações emocionais traumas. É um filme mais ressonante dentro da série de filmes do Batman e mais pesado psicologicamente dentro do gênero adaptações de HQ. Burton não fez concessões e pagou o preço por ser honesto consigo mesmo e com aquele universo sujo, corrupto e que não merece redenção alguma.

Fica portanto a genialidade esculpida num trabalho magnífico que ainda hoje, 16 anos depois de seu lançamento, provoca ojeriza em quem insiste em ver nos Batman de Tim Burton um festival carnavalesco sem sentido. Felizmente Batman – O Retorno se beneficia do clássico provérbio de Nelson Rodrigues: toda unanimidade é burra e talvez por isso tenha sobrevivido fantasticamente ao maior e mais justo de todos os avaliadores da Arte: o tempo.

4/4

Daniel Costa 

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3 Comentários

Arquivado em Resenhas

3 Respostas para “Batman – O Retorno (Tim Burton)

  1. xico doido

    por favor postem esse filme dublado!!!
    agradeçido desde já!!!!!!

  2. Perfeito, gostei muito do seu post. Eu considero esse o melhor filme do Batman que já ví até hoje.

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