O Estranho Vício da Sra. Wardh (Sergio Martino, 1971)

Adoro giallos, mas das duas uma: ou as expectativas para os finais são tão grandes que fazem com que eu nunca consiga me satisfazer por completo (acredito que as únicas exceções sejam Banho de Sangue e Tenebre, cuja seqüência derradeira, com todo mundo correndo prum mesmo lugar somente pra morrer, é uma das melhores do gênero), ou realmente é um negócio muito complicado – e tendencialmente fadado ao fracasso – concluir de maneira surpreendente um filme que desfilou o tempo todo a inventividade como princípio básico de sua estrutura narrativa – e que, por isso, normalmente apresenta duas ou três reviravoltas/surpresas antes mesmo de seu ato final.

O Estranho Vício da Senhora Wardh deve ser o maior exemplo disso, junto de Terror na Ópera, mas com um efeito muito diferente do daquele. Enquanto no genial suspense operístico de Dario Argento, os 20 minutos finais parecem fazer parte de qualquer outra coisa, menos do filme – tudo o que envolve corvos e lagartos é de um constrangimento absurdo -, neste aqui não existe qualquer sensação de deslocamento, e nem mesmo seus problemas chegam a surpreender ou decepcionar. E talvez o problema seja exatamente esse; a preguiça e a falta de excitação das reviravoltas, bem como a lambança típica de se auto-explicar a todo o momento, tiram a força do que seria um grande filme.

Mas nem por isso deixa de ser bom. Aliás, justamente o contrário, é muito, muito interessante – e legal de se ver, principalmente nos dois primeiros atos. Mesmo sendo um dos grandes representantes genuínos dos elementos fundamentais do giallo – assassino de luvas pretas; lâminas cortantes; reviravoltas na trama; assassinatos tensos; etc – o filme acaba revelando que o próprio gênero, na realidade, é somente o pano de fundo – ou a cortina – das verdadeiras intenções de Martino, que por diversas razões parecem muito mais partir para a análise imaginativa social do que concentrar seus esforços na construção de suspense – e talvez os problemas surjam exatamente quando as coisas se invertem.

O filme todo é concentrado nas ações da mulher que dá nome ao título, que retorna à Itália depois de um longo período de vida nos EUA, onde reside com o marido. Junto de sua volta, começa uma onda de crimes contra mulheres, e o reaparecimento de um ex-namorado violento e sadomasoquista – vício que também compõe o título e do qual ela compartilha – faz com que sua vida seja colocada em risco quando ele demonstra interesse em retomar a relação. Ao mesmo passo, a moça conhece um meio-primo seu, por quem se apaixona e com quem começa a ter um caso extraconjugal. Os fatos que sucederão darão a entender que um dos três (amante, ex e marido) pode ser o assassino.

Martino utiliza o giallo quase como um catalisador da efervescência sexual da época em que produziu o filme, pouco depois de toda a revolução contracultural da segunda metade dos anos 60 – que teve incidência direta no cinema, obviamente. Mulheres bonitas e independentes, sedução, orgias e festas mucho locas são os limites desse universo, no qual a protagonista é arremessada e, mais do que isso, sofre as conseqüências que supostamente poderiam brotar desse liberalismo – ainda que o final, novamente ele, destrua boa parte desse discurso, quase que negando todo o filme por causa de uma explicação fácil articulada acerca da ganância do homem.

É um recurso curioso, prum filme genuinamente giallo, largar mão de toda a estória de assassinato e concentrar-se exclusivamente sobre a problemática da protagonista, ainda mais por ser uma mulher e por ter em foco suas paqueras e aventuras sexuais antes de qualquer outra coisa – fato que deixa tudo naturalmente com um ar romântico, o que reflete inclusive na fotografia, lindíssima, mas extremamente limpa, colorida e bonitinha, se comparada à de qualquer outro filme do estilo [ainda que considere um grande charme]. Isso faz com que seja um filme com poucos picos de tensão, mas dois deles, talvez os únicos, são sensacionais, e valem pelo resto.

O primeiro é, coincidentemente, a primeira tentativa de assassinato a Sra. Wardh, na garagem do prédio em que está instalada. Não existe nada de muito original ali, ou pelo menos que tenha superado o tempo que separa a produção dos dias atuais sendo ainda surpreendente, mas há um domínio muito grande da linguagem e da construção de tensão. O mesmo se repete no segundo e último exemplo, que inclusive remete à seqüência de exploração da mansão em Prelúdio Para Matar, só que abusando do silêncio, ao invés da música estupradora de Goblin: o momento em que ela e o marido vão investigar a casa de seu ex-namorado – e atual suspeito das mortes.

Ambas são importantíssimas pra ilustrar um dos principais méritos de O Estranho Vício da Senhora Wardh, a capacidade ilimitada de brincar com a identidade do verdadeiro assassino – não o que está nos jornais, mas o que pressiona a protagonista. E é curioso como Martino consegue explorar essa questão fazendo praticamente um jogo de extremos, deixando tão óbvio em certos momentos que um ou outro personagem envolvido é o assassino que as coisas começam a se embolar cada vez mais, a ponto de esses suspeitos em potencial se tornarem indissolúveis – fato que acaba materializado na conclusão, infelizmente.

Senhora Wardh precisa é se esconder de sua própria sede por sexo.

2/4

Daniel Dalpizzolo

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1 comentário

Arquivado em Comentários

Uma resposta para “O Estranho Vício da Sra. Wardh (Sergio Martino, 1971)

  1. Curti muito este Giallo, subgênero do qual sou também um grande admirador. Gostei muito do final. Eu destacaria o excesso de nudez gratutita na primeira parte do filme (é várias bundas e peitos pra lá e pra cá), e como ao decorrer do filme Martino abandona este artifício apenas para contar a história. Veja bem, não estou reclamando (muito pelo contrario!), só achei este “o” fato curioso da obra. Recentemente comentei sobre ele no meu humilde e vagabundo blog. Antes que eu esqueça: curti muito o final, e suas reviravoltas. Até mais

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