Persona (Ingmar Bergman, 1966)

Bibi Andersson/Liv Ullmann

É de obras como Persona que se constrói uma filmografia como um longo e absoluto tratado sobre a alma humana, e Bergman é daqueles conhecedores clássicos destes porões, talvez o maior no cinema.

É em Persona que o diretor sacramenta aquele seu jeito quase parasita de fazer cinema, sugando tudo tanto de uma situação, de um conflito, quanto de suas atrizes/personagens (e não se sabe ao certo onde termina uma e começa outra), por conseqüência entregando sua cuidadosa obra de arte a estas duas mulheres inacreditáveis. Tanto no silêncio como artifício poderoso de expressão de Liv Ullmann quanto nos monólogos encharcados de dor de Bibi Andersson. E é em Persona que um diálogo mudo entre o filme e o coração do espectador nunca fora tão eloqüente.

Porque tudo que não é dito em Persona encontra facilmente os caminhos da alma de quem o assiste/vive. Como o impacto daquelas primeiras imagens que ultrapassa uma necessidade de sentido “palpável” para compô-lo além de um nível racional, o que não implica na perda do sentido, mas na sua amplificação. Mais que visual ou textualmente, tudo é resgatado ao longo do filme num círculo mais profundo, o sensorial. A crucificação, o close no olho do cordeiro que se aproxima, na latência da memória, de vários outros, tanto nos olhos de Bibi Andersson quanto nos de Liv Ullmann, assim como na própria caracterização do sacrifício, presente interinamente, como se estivesse numa segunda camada na celulóide. E na seqüência dos créditos iniciais onde os focos representam a ausência de foco, onde a dissonância de certo modo irritante se faz também no desarranjo mental de Elizabeth, traduzido por Bergman através de fragmentos rápidos de visão num estado de cegueira muito mais grave que o físico, como se Elizabeth tivesse apenas vislumbres quase imperceptíveis do seu meio, transformando sua vida numa sucessão de elipses sem, portanto, uma conexão entre si.

Há uma força brutal concentrada tanto no texto como nas imagens e que tece um Persona telúrico no impacto de sua autoridade, composta ora de silêncio ora de verborragia como sobrenomes de suas personagens. Assim como em Lavoura Arcaica, onde André é a literatura, Ana a imagem e os dois o cinema, Alma e Elizabeth se completam na invenção de uma linguagem que está sempre acima do que é dito. O conto erótico, por exemplo, é um verdadeiro catalisador de imagens, assim como o diálogo repetido entre elas, sobre o filho de Elizabeth, como se Bergman instalasse um projetor na nossa imaginação, filmando cenas nos interiores das palavras.

Fora o texto, as imagens também são imperativas no oceano de sua profunidade, atuando sempre na sugestão da camaleônica relação das duas, ora irmãs, ora amantes, ora mãe e filha. A cena do carinho em frente ao espelho e em seguida as duas entrelaçando os pescoços, como se fossem duas cabeças habitando um mesmo corpo, como se a todo tempo uma perfurasse e invadisse a outra, é um resumo belíssimo do painel construído pelo sueco.

Persona é medo, culpa, dor, remorso, ciúme. Um jogo de intoxicação pela memória, de quebra e estilhaço de personalidades. É o atestado absoluto de esquizofrenia dos extremos de ódio e amor não apenas bem mais próximos do que se imagina, mas duas faces de um mesmo e nocivo indivíduo, porque a maldade é manifestação pura, é o estado mais bruto e subterrâneo da alma.

4/4

Luis Henrique Boaventura

ou: Persona (Ingmar Bergman, 1966) – Thiago Duarte – 4/4

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3 Comentários

Arquivado em Resenhas

3 Respostas para “Persona (Ingmar Bergman, 1966)

  1. Felipe

    Ótima análise. Perfeitamente escrita. Parabéns!!! Vou assistir ao filme.

  2. André Luiz De Oliveira

    Persona é um filme instigante do Gênio Ingmar Bergman.
    Mostra muito bem a diferença que a linguagem cinematográfica tem sobre a literatura, ao usar do inesgotável repertório imagético para buscar dentro do espectador seus sentimentos mais profundos.
    Sua análise sintetizou de forma quase didática uma linguagem que se desenvolveu e vem se aprimorando desde o final do século passado e que agora, com inter-relação com a sociologia, filosofia e psicanálise, mostra toda força que o cinema, apesar dos pesares, ainda tem como arte, expressão e linguagem!
    Obrigado

  3. Raisa

    Persona é medo, culpa, dor, remorso, ciúme. Um jogo de intoxicação pela memória, de quebra e estilhaço de personalidades. É o atestado absoluto de esquizofrenia dos extremos de ódio e amor não apenas bem mais próximos do que se imagina, mas duas faces de um mesmo e nocivo indivíduo, porque a maldade é manifestação pura, é o estado mais bruto e subterrâneo da alma.

    Perfeito!
    Mestre Bergman

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