Glória Feita de Sangue (Stanley Kubrick, 1957)

Em 1957, Kubrick troca o universo aventuresco dos policiais para falar sério pela primeira – sem contar o desastroso discurso de Fear and Desire – vez. O resultado foi Glória Feita de Sangue (Paths of Glory), pequeno clássico dos filmes de guerra que conta com um dos mais fortes discursos anti-belicistas já filmados. Confira as impressões do nosso maior fã do filme, Sílvio Tavares.

Glória Feita de Sangue (Paths of Glory, 1957)

Ser humano é ser portador de um intenso conflito psicológico diário. Ao mesmo tempo que amamos de uma forma que nenhum outro animal que existe ou já existiu na Terra jamais foi ou seria capaz, somos individualistas, egoístas e cruéis como o mais terrível dos demônios (e não é à toa que a figura da pavorosa entidade representante das trevas possui características físicas tão humanas, apesar das assimetrias inerentes a um ser sobrenatural).

E como titulares desse paradoxo de difícil resolução, instituímos normas para minimizar os efeitos danosos da segunda corrente acima descrita (note: minimizar e não aniquilar). É então que surgem as leis, o convívio em sociedade e as punições para os infratores de suas “cláusulas”.

No entanto, por mais que tais condutas sejam logicamente indesejáveis, racionalmente degradantes, elas continuam intrínsecas à nossa natureza. E, como tudo que é lançado para debaixo do tapete por ser execrável pela voz da consciência, quando surge uma oportunidade, esse componente mórbido do pensamento humano se manifesta de forma muito mais forte, como uma rajada de balas.

Alguns ambientes apresentam uma estrutura coerente com a manifestação de tais índoles. Lá a voz da consciência é mascarada pela legitimação de regras de suposto comum acordo entre todos os homens, brechas do caráter mais adequado à vida em sociedade a fim de organizar uma defesa organizada em prol de algo que justifique qualquer meio para atingir o fim maior, seja qual ele for. Na obra de Kubrick, Glória Feita de Sangue, esse fim encontra eco em dois pontos: na defesa de um terrítório conquistado por um povo e no maior de todos os bens: a sobrevivência.

Falamos, é claro, de guerra e das medidas drásticas adotadas em tais períodos. Da instituição legalizada de uma organização composta por entes hierárquicos e que atribui maior poder a alguns humanos que outros – o exército. Em uma situação em que vida, morte, crueldade, hierarquia e disciplina são apenas elementos necessários para a vitória (que representa a defesa do território e a destruição do poderio do soldado inimigo). E pior: de, através de tais elementos tão incoerentes com a vida em sociedade anteriormente desejada em épocas comuns, serem sinônimos de bravura, coragem e até mesmo induzindo a martirização dos propagadores de seus princípios.

De todos os elementos envolvidos, a obra de Kubrick escolhe o mais inquietante de todos para mostrar os absurdos da nossa tendência autodestrutiva: o poder. Através dele e da legalidade do uso instituído calmamente por nossas próprias regras, há vazão para abusos. É por isso que grande parte das falas do General Mireau ou a estaticidade/crueldade desesperadora de Broulard se tornam tão imensamente plausíveis e assustadoras, quando analisadas em nosso contexto.

Para enfatizar e causar mais impacto ainda, Kubrick usa posturas explicitamente detestáveis dos personagens (beirando inclusive o cômico, mas mais por sua natureza absurda que pela intenção em si ). Dentre várias cenas, a que mais me chama a atenção ocorre quando, em uma inspeção perante os homens sob seu domínio, o General Mireau pergunta a vários dos soldados se estavam “prontos para matar alguns alemães”. A frase é tão impactante quanto a frieza envolvida na resposta positiva desejada por sua figura autoritária. Diante de uma resposta indesejável de um dos membros da corporação, portanto, os companheiros rapidamente correm a prontamente responder: “é trauma de guerra”. A ira do General é despertada de imediato. “Não EXISTE trauma de guerra” – diz ele exaltado. Na verdade, para estar no exército é necessário a falta de humanidade, homens duros e cruéis…

Naturalmente, muitos outros temas relativos a essa mudança do paradigma de conduta desejado são discutidos aqui e diante desse cenário inóspito, a obra é simplesmente rica demais para analisar com palavras. Fatores como o protecionismo da institução militar, a religiosidade e seu papel controverso diante de situações horrendas (a reação distinta dos personagens quando submetidos a concretização dos valores religiosos na figura dos padres), o caráter “inquestionável” dos oficiais bem como a desumanização e os interesses particulares inerentes à suas naturezas, enfim, “desculpas esfarrapadas” para falar de algo que ultrapassa aquelas barreiras e adquire cunho muito mais profundo.

Belíssima e complexa obra com uma cena final absolutamente fabulosa, confrontando nossa composição controversa através das lágrimas de soldados emocionados segundos depois de uma postura animalesca e compulsiva refletida na cena do bar e na voz perturbada e amedrontada (mas de devastador impacto psicológico) presente na canção entoada por Christiane Kubrick.

4/4

Sílvio Tavares

Anúncios

7 Comentários

Arquivado em Resenhas

7 Respostas para “Glória Feita de Sangue (Stanley Kubrick, 1957)

  1. Caio Lucas

    Esse sem dúvida marcou minha vida. Antes desse, só “Sem Novidade No Front” conseguiu me comover tanto. Sensacional, uma obra-prima do cacete!

  2. Um dos poucos filmes de Kubrick q ainda n assisti.. seu texo reforçou mais ainda minha vontade.. vou conferir logo.. ansioso para os prox textos de seus filmes..

    vlws

  3. Top 5 do Kubrick, um filmaço em que ele cria uma das melhores reflexões de sua carreira sobre a condição humana.

  4. Daniel Dalpizzolo

    Glória Feita de Sangue é sensacional mesmo, mas não colocaria entre principais kubricks.

  5. Sérgio, tente assistir o mais rápido possível. Acho curioso esse filme não estar entre os preferidos do pessoal e creio que a maioria das pessoas não o colocam entre os melhores do Kubrick (assim como o Daniel)

  6. Andressa

    Adoro filme de guerra e esse está entre os melhores! Creio que poderiam fazer mais atualizado (pois vi em preto e branco) e assim também melhorando os efeitos…

  7. João Melo

    Filme muito inteligente, como sempre Kubrick nos lança uma reflexão bem profunda apesar desta ser apresentada de maneira sutil em alguns filmes dele, um dos primeiros filmes de Kubrick que eu vi,

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s