O Grande Golpe (Stanley Kubrick, 1956)

O Grande Golpe (The Killing) é o filme que lançou Kubrick. Trata da história de um roubo do dinheiro das apostas de um jóquei, e o desenrolar pelo que acontece entre esses gângsteres, adaptado do romance de Leonel White. O tempo não-linear misturado com o jeito noir nesta boa história chamaram a atenção da crítica. A inventividade estava toda aqui, e assim ganhou a chance de grandes produtores para estourar. Por Pedro Kerr, o terceiro texto do Especial Stanley Kubrick:

O Grande Golpe (The Killing, 1956)

Um Kubrick menor? Depende. Depende. Depende. Ele é um diretor de filmografia relativamente curta. Doze longas, de 1955 até 1999. Este é seu segundo. A maior parte dos seus filmes aborda temas sérios, como 2001, Laranja mecânica, De olhos bem fechados, Dr. Fantástico, Nascido para matar, Glória feita de sangue ou até mesmo Barry Lyndon e O iluminado. Todos carregados de uma perversa ironia e personagens em constante estado de desumanização. A bem da verdade, Kubrick pode muito bem ser considerado por aí como um doido autista e frio, porque haja outro cineasta para ser assim tão distante de seus personagens. O grande golpe tem tudo isso aí, mesmo em menor escala, o que não o impede de ser um grande filme (pessoalmente é um dos meus preferidos do diretor, não por ser menos ambicioso, mas porque desvendá-lo e destrinchar tudo o que esse aqui pode te proporcionar de ‘sério’ é muito mais divertido). Talvez o mais subestimado da carreira dele, que foi esquecido com o tempo injustamente.

Em um momento, logo já da pra se ver Kubrick colocando suas manguinhas para fora. Estamos no início da cronologia do filme, quando estão recrutando pessoas para um plano inusitado de roubar um jóquei. É num diálogo em que o segurança-brutamontes careca (de quem o nome me esqueci) faz uma elegia ao ‘estado de mediocridade total’, de evitar grandes coisas para o bem ou para o mal. O que significa isso se visto pela ótica e pelo que acontece depois, com ele entrando no esquema do grande assalto da casa de apostas do hipismo? Os personagens parecem não dar muita importância à frase, mas vista pela ótica de espectador; Kubrick convida a todos nós para adentrar naquele universo no submundo, e sua veia de desumanizador pode ser vista quando nos é mostrado o final, que final destruidor. Só vendo para saber what’s the difference…

A ousadia não está apenas em um olhar um pouco baixo para esses divertidos universos que o cinema cria, mas também está do lado narrativo. Talvez um dos primeiros notórios filmes com uma narrativa quase 100% embaralhada. Seu filhote mais famoso é Cães de aluguel, dirigido por Tarantino em 92. Kubrick se mostrava em pleno domínio de seus atores, não só Sterling Hayden à frente – em cada fragmento de história o diretor não deixa a peteca cair nunca. O filme quase extrapola o lado ficcional, por ser narrado em fragmentos; em seu segundo filme, SK já se mostrava afiado na direção: alterna imagens vistas em diversos pontos-de-vista em planos muito bem preenchidos, sabe muito bem a hora de acompanhar os personagens ou apenas mostrar o ambiente. Falando nisso, após a sessão do filme vc se sente quase como se conhecesse cada corredor do jóquei – tão isso que se pode observar a habilidade do diretor em colocar os personagens, seja quando estão correndo em direção ao cofre, seja quando estão entrando de carro, seja quando estão atirando em um cavalo. A edição mostra os vários ângulos e sua agilidade chega a um ponto miraculoso naqueles minutos finais em que vc esgota seu estoque de unhas.

Não raro esse filme aparece na lista de film-noirs, e apesar de passar um pouco distante de clichês do gênero como femme fatales e detetives, apresenta uma conspiração deliciosa de acompanhar ainda mais na narrativa ousada e numa visão completamente cínica realçada pelo final – todos estavam lá por interesse próprio, e tem um resultado que acaba sendo devastador. É aquele jogo de aparências, de vc nunca saber em quem confiar, sendo raros aqueles de ética confiável. Auxiliados por uma fotografia que segue as inspirações do gênero, cuja própria existência acaba quase sendo uma qualidade… haha.

Não quero soltar muitos spoilers, mas o final é uma maneira simples e fascinante do diretor selar o destino de todos os personagens; e isso enriquece com aquilo levantado no começo, dos universos criados no cinema e de como lá o estado de mediocridade é quebrado. Talvez isso não seja material para encher mesas de debate como a maioria de seus filmes, mas a soma de uma narrativa ousada, mais um universo noir bem colocado, mais uma conclusão solução inusitadíssima, quase um absurdo, dão numa ótima maneira de Kubrick selar sua visão sobre todas as relações que um ‘filme de assalto’ pode ter. E que de um jeito ou de outro, acaba fazendo uma rima bem interessante com o cineasta frio e irônico dos filmes que viriam a seguir.

3/4

Pedro Kerr

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4 Comentários

Arquivado em Resenhas

4 Respostas para “O Grande Golpe (Stanley Kubrick, 1956)

  1. O Grande Golpe, além de ser uma estória bem interessante (do tipo que pode agradar a qualquer pessoa que goste de suspense policial), tem realmente umas coisas geniais, que denotam em primeira mão o talento que Kubrick viria a expor ao mundo em sua plenitude nos anos seguintes.

  2. Caio Lucas

    Genial tecnicamente! O grande suspense da década de 1950. A cada passo dado ele melhorava seu cinema, em seguida viria o alucinado “Glória Feita de Sangue”.

  3. Daniel Dalpizzolo

    O Grande Golpe é meu preferido dos da década de 1950. Claro que muito disso diz respeito ao meu apreço por filems de golpe – um dos meus subgêneros mais queridos – mas outra grande parcela vai pra preciosidade do filme, facilmente um dos trabalhos de direção de arte e iluminação mais fascinantes do Kubrick e um surto de habilidade narrativa. Como o Kerr falou, vive como um contraponto ao mesmo tempo tão frio como seu olhar por outros gêneros.

  4. Luan Correia

    personagens distantes de nós podemos analisa-los melhor e mais…haha..friamente, sem aquela carga de pressao e surtos de melosidade
    erghhh
    afinal, meu filho, o mundo é uma eterna guerra pra amolecer coraçoes. um quer amolecer o coraçao do outro para domina-lo a fazer o q quer q esse outro amolecido nos faça. e Kubrick nao compactuou com essa idiotice toda q vem desde os tempos de …e o vento levou e por ai vai!

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