Fear and Desire (Stanley Kubrick, 1953)

Dono de uma filmografia extraordinária, pontuada em sua quase totalidade por obras que apresentavam estudos sociais do comportamento humano – muitas delas sob o pretexto da guerra -, Stanley Kubrick começou sua carreira fazendo pequenos documentários em curta-metragem. Algum tempo depois ele realizou um filme que acabaria se revelando um bom exemplo sobre um dos mistérios da humanidade: a evolução do homem. Não, não falo sobre 2001, Uma Odisséia no Espaço. O exemplo aqui citado é do primeiro filme em longa-metragem de Kubrick, o inédito em circuito comercial Fear and Desire. Rodado com baixo orçamento (para realizar o filme, Kubrick contou com a ajuda do pai, que hipotecou a casa e investiu no projeto do filho), o filme narra o drama de 4 militares sobreviventes de um acidente aéreo que ficam perdidos em território inimigo e buscam serem salvos e levados de volta para sua base. A evolução humana que foi citada logo acima não se refere propriamente à narrativa da obra e sim a um contexto extra-campo, o do próprio diretor.

Fear and Desire, muito mais que um trabalho precário, é um produto primário e não é de se espantar que o próprio Kubrick renegue a obra. A aparência de ter sido feito nos fundos de casa (ou no caso, numa pequena faixa de “floresta”, talvez em um acostamento qualquer de estrada) é fruto da falta de recursos e obviamente isso não seria motivos para criticar negativamente a obra; há de se louvar a iniciativa de levar adiante um projeto não bancado por nenhum grande estúdio de Hollywood ou qualquer investidor de peso. Mas a questão a ser considerada é que nada tinha a se dizer com este filme, uma espécie de narrativa pacifista (?) sobre um plano de fuga – ou busca – de soldados que tentam resgatar suas “raízes” e essências, mas que no meio do percurso são supreendidos por elementos inesperados (uma mulher não pertencente a uma sociedade civilizada, a gradativa loucura de um dos soldados, a obsessão por carnificina de outro, etc) que são incapazes de levar a qualquer conclusão. É notório que Kubrick nunca foi um expert, nem mesmo em seus filmes seguintes, em dirigir atores e é bem possível que isso nunca tenha sido de seu interesse mais agudo, mas em Fear and Desire a teatralização e artificialidade com que o texto é dito causam um desconforto desproposital. O próprio roteiro é permeado por falas terrivelmente descritivas, sobre uma suposta condição existencial, forjando uma profundidade patética e inverosímil, ainda mais tendo em conta o não-desenvolvimento de nenhum dos personagens mais profundamente – e qualquer tentativa feita a respeito disto resultou em coisas ainda piores, falas do tipo “todo homem é um ilha?”, “nenhum homem é uma ilha” ou “ninguém sou eu mesmo”.

Mas a grande surpresa que Fear and Desire reserva é a falta de cuidado com a estética narrativa do filme, este sim um fator ao qual o diretor sempre deu o maior valor. Como um formando bobo de uma universidade de cinema, Kubrick utiliza closes desnecessários que possivelmente eram meros planos de cobertura, descortina um plano no outro e até remete a D.W. Griffith fazendo fusões para demonstrar a perturbação de um personagem e montagem paralela para gerar uma pretensa tensão em determinadas cenas. A diferença é que Griffith inventou as técnicas nos primórdios do cinema, seja em O Nascimento de uma Nação, seja em Intolerância. Já Kubrick fazia isso sem nenhum tipo de contribuição específica, mais de 40 anos depois e de maneira ainda mais amadora. Além do mais, o esquema repetitivo de plano/ contra-plano empregado em quase todo o filme é inexpressivo e, muitas vezes, esquemático, tendo como pior momento uma quebra abismal de eixo da câmera, uma das coisas mais básicas que se pode observar em cinema. A única coisa realmente boa que se pode tirar deste filme é que se até mesmo Stanley Kubrick já fez uma quebra de eixo inexplicável em seu primeiro filme, qualquer um tem o direito de errar e há esperanças para (quase) todos. Medíocres do mundo, se animem, pode estar reservada para vocês uma carreira muito promissora pela frente!

1/4

Thiago Macêdo Correia

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5 Comentários

Arquivado em Resenhas

5 Respostas para “Fear and Desire (Stanley Kubrick, 1953)

  1. Rodrigo Enxak

    Opa, esse eu não vi ainda. Nota 1/4??? Não, isso só pode ser um erro [dentões]

  2. Thiago Macêdo

    Vejam o filme! rs

  3. Daniel Dalpizzolo

    Ainda não vi, mas se for levar em conta a qualidade dos curtas dele deve ser uma grande porcaria mesmo.

  4. Eu pretendo ver, Thiago, se pretendo…

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