Ninotchka (Ernst Lubitsch, 1939)

“Garbo laughs”

Foi com este slogan que a Metro Goldwin Meyer compôs a linha de frente da campanha promocional de Ninotchka, de Ernst Lubitsch, durante aquele que é considerado o ‘Ano de Ouro’ da velha Hollywood – e do qual é um dos meus representantes preferidos. A jogada, tão perspicaz quanto qualquer linha de diálogo deste absurdo veículo de comicidade, não apenas representa a brincadeira com a persona cinematográfica de Greta Garbo, atriz pouco utilizada em comédias e popular justamente pela intensidade dramática das linhas de seu rosto. Também diz muito sobre a própria estrutura de Ninotchka. Não a personagem. O filme.

São muitas as curiosidades que marcam os bastidores históricos da produção de Ninotchka. A principal delas é o encontro de dois dos maiores mestres da comédia ligeira, fato na época ainda não sabido pelos responsáveis deste encontro incrível entre o texto de Billy Wilder e a direção de Lubitsch. Wilder jamais negou ser filho do cinema de Lubitsch, o que seria uma grande heresia, é verdade, mas parece ter encarado seu único projeto em conjunto com o grande mestre como uma genuína aula, sem se satisfazer plenamente com a cadeira de pupilo.

O resultado é uma combinação sublime entre a malícia e a ironia de Wilder com o romantismo e a agilidade dos filmes de Lubitsch, lidando concomitantemente com temas tão distintos como o amor impossível e a sátira social sem jamais perder o equilíbrio, e utilizando a própria saliência de Garbo como atriz principal para balancear o império de um ou outro estilo de cinema – tanto é que a partir do primeiro riso da protagonista, um momento sempre prometido, mas mantido em suspense minuto a minuto, é que a história de amor começa a se desenrolar.

Antes do riso anunciado de Garbo, o que é trabalhado é o riso de quem vê. A primeira meia hora é praticamente um surto em termos de comicidade. A trama, ambientada durante o domínio comunista na União Soviética, joga três enviados russos dentro de uma Paris puramente capitalista e recheada de desejos. São três dos personagens secundários mais engraçados já vistos, dignos de fazer qualquer filme dos irmãos Coen passar vergonha – cuja importância é retomada no terço final, outro luxo de explosão cômica. É durante a preparação para a entrada de Garbo que se encontram as principais sátiras de Ninotchka à guerra de ideologias que marcou o século XX, sempre embaladas pelas falas certeiras e de duplo sentido – marca de Lubitsch que Wilder potencializou nas décadas seguintes – e pelo tom caricatural sempre presente, transformando algumas passagens em um veículo tão curioso quanto uma charge política.

A ironia continua presente ao longo de todo o filme, mas é transformada depois do riso em pano de fundo para uma história de amor impossível no melhor estilo velha-guarda, sempre deliciosa de se acompanhar e respaldada por um olhar romântico tão inebriante quanto cínico. E nem mesmo a surpreendente metragem do filme – são quase duas horas de idas e vindas, coisa pouco comum e usual a uma comédia romântica – consegue fazer de Ninotchka um filme menos fascinante, seja pelo texto sempre surpreendente, pelo respaldo inventivo e absolutamente hilário dos coadjuvantes, ou talvez pela impressionante direção de Lubitsch, fazendo a câmera e o filme flutuarem cena por cena na mesma proporção em que os pés bêbados de Garbo riscam o salão em sua dança embriagada.

4/4

Daniel Dalpizzolo

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2 Comentários

Arquivado em Resenhas

2 Respostas para “Ninotchka (Ernst Lubitsch, 1939)

  1. Caio Lucas

    Tive a oportunidade de ver e perdi, recentemente. Se essa sua crítica viesse uma semana atrás, hehe.

  2. Daniel Dalpizzolo

    Nunca perca uma oportunidade como essa, Caio. Vê se dá um jeito de assistir, hehe.

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