Fale Com Ela (Pedro Almodóvar, 2002)

Desde o início de sua carreira, o cineasta espanhol Pedro Almodóvar sempre teve o poder de não deixar o espectador indiferente a seus trabalhos, para o bem ou para o mal. Suas observações mordazes sobre a luta entre indivíduo e sociedade e seu prazer pela transgressão, apontando os paradoxos da condição humana por meio da construção de personagens tão complexos quanto fascinantes, muitas vezes se faziam acompanhar de uma linguagem estética crua, agressiva e quase aberrante. Este gosto pelo bizarro (que havia se revelado no inteligente e divertido Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos, de 1988, e atingiu seu ápice no muito inferior Kika, de 1993) começou a ser depurado pelo próprio cineasta a partir do excelente Carne Trêmula, de 1997, sem que a ousadia narrativa ou o humor cáustico e inteligente tenham sofrido qualquer prejuízo.

Esse notável amadurecimento do diretor se revelou de forma ainda mais intensa nos dois filmes que se seguiram, Tudo Sobre Minha Mãe, de 1999, e este Fale com Ela, que consolidou o status de Almodóvar no cenário internacional como um exímio contador de estórias.

Ao contrário do que ocorre na maioria das suas obras anteriores, a perspectiva sobre a qual se desenvolve o filme é predominantemente masculina. Na busca pelo entendimento com suas amadas, que não interagem com eles em razão de sua condição de saúde, Marco (Darío Grandinetti, num trabalho seguro e modulado, transmitindo firmeza e fragilidade alternadamente) e Benigno (o excepcional Javier Cámara, de Lúcia e o Sexo, em uma interpretação de verossimilhança impossível de ser expressa em palavras) ingressam numa jornada de espiritualidade e revisão de seus próprios conceitos, com conseqüências diferentes para ambos. Marco, saturado pela melancolia e por seus fracassos amorosos, emerge ferido desse período de convulsões internas e questionamentos, porém muito mais maduro; Benigno, vítima de uma vida não-vivida e completamente imerso em um mundo de ilusão que, paradoxalmente, releva-se salutar para aqueles que o rodeiam e, ao mesmo tempo, leva à sua própria destruição, sucumbe.

Apesar da complexidade do tema e da gravidade dos elementos morais de que trata, é fácil perceber que Fale com Ela, com sua linearidade narrativa e seus personagens que em momento algum apelam para o sentimentalismo ou a vulgaridade, é um dos filmes mais acessíveis de Almodóvar. Não obstante isso, os traços mais marcantes da obra do diretor se fazem presentes: os sentimentos contraditórios e as dificuldades de se lidar com o verdadeiro eu (Marco revela sensibilidade a ponto de chorar copiosamente ao ver o espetáculo de Pina Bausch, mas se mostra incapaz de dar vazão aos seus sentimentos frente a uma Lydia em coma), o inconformismo para com os padrões impostos pela sociedade (Lydia, naquela que poderia ser compreensivelmente qualificada como uma das mais masculinas entre as profissões, sente vergonha por revelar medo, uma fraqueza que ela própria não se permite para não dar margem a mais preconceitos) e, principalmente, a necessidade de se colocar no lugar dos outros antes de fazer quaisquer julgamentos (o que afeta profundamente Benigno, que perde a luta contra a punição pelo seu crime mesmo antes de ela começar).

O personagem de Javier Cámara é, inquestionavelmente, o centro afetivo do filme e é sobre esse gelo fino, da pureza de caráter confrontada com os atos vis que dele podem aflorar, que Almodóvar caminha com uma coragem admirável. Muito do sucesso do filme se deve ao trabalho do ator, que veste Benigno como se fosse uma segunda pele. Grandinetti, Watling, Flores e Chaplin (que participa de uma cena, no terraço do hospital, fundamental para a compreensão do calvário e da redenção de Marco e Benigno) também dominam seus personagens com maestria, o que só depõe em favor de Almodóvar como excepcional diretor de atores.
 
Há, em Fale com Ela, um sentido de urgência e de proatividade que se revela já a partir de seu título (que é um verdadeiro comando mental, dotado de uma imperatividade que dispensa justificativas). Na concepção apresentada aqui as pessoas devem agir, sob pena de se esvair a oportunidade e o fracasso se tornar inevitável. A inação voluntária, como forma de ação, é especialmente amarga para Marco, cuja incapacidade de quebrar seus próprios paradigmas só é vencida ao final (“perguntaram se você era meu namorado”, diz Benigno, “mas eu não tive segurança para dizer que sim”; “eu não me importo”, responde um Marco completamente diferente daquele visto no início do filme). Numa excepcional demonstração de respeito pelos personagens que ele mesmo criou, Almodóvar não questiona suas atitudes, embora tenha o bom-senso de não minimizar suas conseqüências. Por tais razões é que o gosto amargo do final, concebido sem quaisquer concessões, fica tão forte na boca.

Esteticamente, o filme mantém diversos conceitos que marcaram a carreira de seu diretor, ao mesmo tempo em que outros são revistos e aprimorados. As famosas cores de Almodóvar não poderiam deixar de se fazer presentes, mas nunca brigam com os personagens ou retiram o foco do espectador sobre a dramaticidade da estória que é contada. Da belíssima abertura com a dança-teatro da coreógrafa alemã Pina Bausch, passando pela trilha-sonora inspirada de Alberto Iglesias (que colaborou com Fernando Meirelles em O Jardineiro Fiel) e pelos enquadramentos que alternam suavidade e invasão, ao sabor da estória, Fale com Ela é um espetáculo elegante, aberto a múltiplas interpretações e, sobretudo, contado com firmeza mas sem esforço.

Ao final, em uma era onde a cultura do eu se mostra mais forte do que nunca e parece ser tão difícil para as pessoas abandonarem seus próprios pressupostos em benefício da compreensão de terceiros, a exortação à vida e à comunicação que é Fale com Ela se revela não só um grande exercício cinematográfico, mas também um bálsamo para nossas consciências.
 
Preste atenção: No filme dentro do filme Amante Menguante, que conta a estória de um sujeito que, ao tomar uma solução para emagrecer, criada por sua namorada cientista (a ótima Paz Vega, de Espanglês), acaba encolhendo até atingir o tamanho suficiente… para entrar em uma vagina. Além de ser uma cena-chave para o despertar da sexualidade de Benigno, por meio dela Almodóvar lembra aos homens, com muito humor e espirituosidade, que no sexo ou em qualquer outra relação, a entrega deve ser por inteiro e não apenas com esta ou aquela parte do corpo.

O que já se disse: Fale com Ela solidificou a posição de prestígio de Almodóvar no cenário cinematográfico atual. Curiosamente, ao receber o prêmio da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Melhor Roteiro Original, o diretor fez um apelo, tão sutil e elegante quanto seu próprio filme, à defesa da legalidade internacional, violada a partir da invasão do Iraque feita por tropas americanas, inglesas e também espanholas.

Porque não perder: Por ser um exemplo de exímia construção e desenvolvimento de personagens; pela poesia, pelo lirismo ofuscante que brota do filme a todo o tempo; pela fotografia e trilha sonora inspiradas; por ser uma ótima oportunidade para se emocionar e (por que não?) chorar com uma estória que não parece ter sido em nenhum momento concebida ou distorcida apenas para produzir este efeito.

4/4

Amílcar Figueiredo

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3 Comentários

Arquivado em Resenhas

3 Respostas para “Fale Com Ela (Pedro Almodóvar, 2002)

  1. ananda

    Eu li isto tudo para uma trabalho escolar e realmente o que eu mais percebi neste texto foi erros ortográficos.
    PELO AMOR DE DEUS, VAI ESCREVER DIREITO MEU FILHO!!!!!!!!!!!!!!!

  2. Guilherme

    nenhum comentário sobre Caetano Veloso?

  3. Jeronimo

    Principalmente erros ortográficos de sua parte: “uma trabalho escolar “. Que feio, que feio!

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