Traição em Hong Kong (Boarding Gate – Olivier Assayas, 2007)

Por sorte Abel Ferrara não é o único que sabe utilizar Asia Argento num filme, mesmo que talvez ninguém mais consiga fazer dela uma figura tão importante e misteriosa como em New Rose Hotel. Acho que é preciso apenas uma coisa pra trabalhar com a Asia, e embora possa parecer bobagem no final isso é determinante, principalmente porque poucos conseguiriam fazer sem ferir todo o resto do material: não é ela que se adapta ao filme, é o filme que tem que ser pensado sobre ela.

Foi seguindo essa regra que o francês Olivier Assayas fez Boarding Gate, filme obscuro, não muito bem recebido e que provavelmente não deverá ser distribuído no Brasil – no máximo chega em DVD, mas se isso realmente acontecer será daqui a um bom tempo. Dá pra dizer que existe uma separação muito grande entre a primeira e a segunda parte, que podem ser consideradas tranquilamente dois filmes diferentes – a primeira se parece às vezes com a obra-prima máxima do Ferrara, mas aqui não existe a eliminação dos dois outros tempos enquanto o filme se concentra no terceiro, é uma solução entre passado e presente que consegue dar vazão aos sentimentos e fazer do jogo entre Argento e Madsen um momento tão grandioso -, mas esse survivor-thriller tenso e impressionante constrói entre as duas uma linha muito bem definida, que é claro, mantém-se viva na própria protagonista, que de caçadora passa a ser caçada quando se desloca de seu universo e condição usuais – as duas partes, aliás, formam uma desmistificação muito interessante do filme de gênero, e ambas são sensacionais, cada uma ao seu jeito.

E se tem alguém que pode levar um filme nas costas – ou nos peitos – nesse cinema atual, esse alguém é Asia Argento. A mulher é um misto de explosão sexual com a própria perversidade, e em Boarding Gate, em especial, carrega uma infinidade de sentimentos num olhar ou gesto mal acabado, ultrapassando às vezes o limite da própria personagem, que se condensa quase como uma versão de dois lados da mulher do século XXI, ao mesmo tempo auto-suficiente e comedida, mas jamais capaz de esconder seus sentimentos quando a coisa aperta. Tanto quanto a câmera de Assayas, que como num gesto de amor oculta por detrás da falta de foco o caminhar penoso de sua amante platônica.

4/4

Daniel Dalpizzolo

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5 Comentários

Arquivado em Comentários

5 Respostas para “Traição em Hong Kong (Boarding Gate – Olivier Assayas, 2007)

  1. Pelo seu texto parece ser bem interessante, vou procurá-lo para assistir, mas como vc mesmo disse vai ser bem difícil
    hehehehhe

    vlws

  2. Daniel Dalpizzolo

    Você pode encontrar pelo Emule. Ou até por torrent, eu acho. Mas o segredo é a internet, hehe.

    Abraço.

  3. Daniel Dalpizzolo

    A grande notícia é que estará em dvd aqui no Brasil no próximo mês.

  4. djonata

    com o título “Traição em Hong Kong” ¬¬

  5. Acho este filme uma merda…

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