Indiana Jones e a Última Cruzada (Steven Spielberg, 1989)

Para o lançamento do quarto filme, que veio à tona na noite da última quinta-feira, a grande preocupação dos produtores e de Spielberg e Lucas era dizer ao público que Harrison Ford ainda era capaz das correrias e brigas exaustivas sem prejuízo físico, como Stallone no Rocky Balboa (que, talvez por conta disso, fica centrado a um melodrama chato e que não obtém aquele mesmo ápice nas cenas de luta). Isso porque a imagem de Ford representa muito para a série, apesar de a trilogia Indiana Jones ter muito mais a oferecer. E o terceiro filme comprova que, para além dos duelos corporais – que ganham sempre um diferencial pelo estilo abrupto de Ford ou sem-querer de outros personagens (como os vilões, claramente situados para deixar um saldo de machucados em Indiana e apanhar bastante) -, há um rico universo a ser explorado nas questões arqueológicas por Jones e seus companheiros.

Depois de duas aventuras bem sucedidas, com a segunda um pouco mais estafante, surgiu A Última Cruzada, que, no meu modo de ver, é bem separado dos dois anteriores, apesar de compartilhar daquelas situações descritas no primeiro parágrafo. O começo do filme já demonsta um tom mais épico na construção de sua história, ao mostrar o pequeno Indiana Jones tentando evitar o furto da cruz de Coronado, acreditando sempre no poder dos museus e da arqueologia. E, logo nesta situação, ele se depara com a decepção da polícia ao fazê-lo entregar a cruz aos ladrões (“seu verdadeiro dono”) – o que, provavelmente, é a justificativa de sua autonomia, com os contatos confiáveis em determinados locais, conforme sua procura em cada filme. Além disso, seu pai, que virará o grande barato desta obra, aparece de costas (sem dar muita importância à descoberta do filho), centrado exclusivamente em algum trabalho de anotações à sua mesa. Num dos cortes muito bem estipulados e que sempre caracterizam a bela parceria Spielberg e Michael Kahn, vemos Indy, novamente, num confronto pela cruz em alto-mar (desta vez, enfim, conseguindo – “era o trabalho de minha vida”) e, depois, rumando para seu cargo de professor de arqueologia em universidade americana.

Outra característica bem peculiar da personagem é seu poder contraditório na oratória, com os fins de convencimento, e isso ocorre na cena como professor quando ele fala que 70% da arqueologia é biblioteca, mas foge das dúvidas dos alunos para poder participar da parte “prática” da coisa (numa cema similar à de Os Caçadores da Arca Perdida). Então, ele descobre que seu pai sumira na procura pelo Santo Graal, algo de que ele duvida e vê unicamente como lenda, por intermédio de Walter Donovan, que o convida a assumir o projeto da pesquisa que era liderado por seu pai. Começa a última cruzada do cavaleiro Indiana Jones – pelo menos, a última desta trilogia – e a última na busca pelo Cálice da Salvação Eterna.

Um aspecto que é primordial, justamente por conta do objeto de procura, desta vez, é a religiosidade e o misticismo no trabalho e na pesquisa dos Jones (logo, por que não, nas suas vidas), as questões atrituais ou que convivem bem e se levam adiante no meio arqueológico-científico. Uma cena que revela bem o lado que assumirá o filme é quando Indy entra na biblioteca (lembremos, 70% da arqueologia), que, ora, nada mais é do que uma velha igreja. As dicas que seu pai lhe dá também se baseiam nos vitrais e, ao adentrar a câmara subterrânea, ele revê um traço da Arca da Aliança, que compusera sua primeira aventura “filmada” na fase adulta. Na saída, ele se depara com os protetores do segredo do Santo Graal, que tentam impedi-lo de seguir adiante na procura, mas Spielberg prefere colocá-los a concorrem nas furtivas cenas já destacadas (numa primeira vez, contra Indy; na segunda, contra os nazistas; uma demonstração da defesa singular e apolítica do ícone religioso). Falando dos nazistas, serão os verdadeiros inimigos de Indiana nesta terceira parte, justamente dando seqüência temporal numa linha de importância cada vez maior. No meio de Hitler, Gestapo, encontros do exército nazista, ele acha seu pai, que vem a se tornar a grande figura “coadjuvante” de toda a série.

Uma coisa que, além de justificar a opção de Lucas e dos roteiristas pela presença da personagem de Sean Connery no filme, é o próprio motivo para este surgimento modificando os padrões de trama é a mulher do filme. Depois de uma experiência incrivelmente desagradável, com uma irritante loira e um japa ainda mais angustiante como personagens secundários na segunda obra, a opção tomada é por colocar Elsa como figura dupla, seja na hora de trair ou se sentir injuriada, seja com as relações descritas tanto com pai quanto com o filho (a fim de provocar os dois num plano genial de simplicidade e hilariedade, com os dois, em seguida, passando pelos nazistas sem querer). E não é de maneira leve que termina a saga da mulher aqui, vendo tudo como prêmios a serem conquistados, insegura de seus verdadeiros objetivos e incapaz de se permitir voltar ao lado emocional na maior parte das vezes – algo que salva Indy, quando ele salva o seu pai antes.

Por fim, o que melhor torna a obra é a relação entre Harrison Ford e Sean Connery, entendendo magnificamente seus papéis e funções em parceria, também ligados ao destacado no quarto parágrafo. O obstinado Henry Jones, à procura do Cálice (deixando muitas vezes de lado todo o empenho familiar que deveria dedicar, reclama seu filho), não para auto-consagração, como faz Donovan ao se desligar das perspectivas futuras pensando na imortalidade que o Sangue d’Ele traria, ou mesmo como artefato museólogo, como chega a entender Indiana em certos momentos da história (o que gera uma série de debates motivacionais entre os dois; até a “quase-perda” de um ao outro). A compreensão na parcela divina que se demonstraria naqueles que acreditassem, o encontro, ainda terreno, de alguma forma com as respostas dos mistérios e o mero atestado visual daquilo a que o espírito já elevara, na fé, tornam extremamente rica a busca dos dois pelo Cálice. E quando o Sol ao fundo desponta, partem os cavaleiros, já tendo cumprido a última cruzada, porém que, com a Fonte Divina, rumam a novos horizontes.

4/4

Cassius Abreu

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3 Comentários

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3 Respostas para “Indiana Jones e a Última Cruzada (Steven Spielberg, 1989)

  1. Luis Henrique Boaventura

    Costumava cutir bastante A Última Cruzada (especialmente por ser o único do qual guardo uma lembrança mais concreta, sendo este, ao lado de Terminator II, o filme mais reprisado em tempos dourados de Temperatura Máxima – resguardada a filmes longos demais pra Sessãod a Tarde), mas algo aconteceu nessa revisão. Talvez até pela comparação com o primeiro filme, talvez pelo humor tanto pouco inspirado quanto deslocado totalmente, enfim… De todo modo, a parte final dos três desafios é bem memorável, e o Connery, sensacional (quem melhor que James Bond pra ser o pai do Indiana Jones?).

  2. O Connery é, sem dúvida, o diferencial nesse filme. A presença dele não apenas rende boas cenas, como também fortalece o personagem central, dando mais material para o Ford trabalhar. A parte dos desafios é realmente memorável, como disse o Luis, e a cena final da cavalgada, eu considero a melhor cena final da série (embora a de Reino tenha chegado perto).

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