Vício Frenético (Bad Lieutenant – Abel Ferrara, 1992)

Vício Frenético é como o choro final de Harvey Keitel: seco; duro; sufocado; doído. Desde o primeiro momento, Abel não mede gestos e nem faz concessões, de forma semelhante ao que realiza em todo grande filme seu [e que filme de Ferrara não é grande, eu perguntaria]. É um cinema de extremos, onde as portas para o céu e para o inferno ficam frente a frente no corredor do purgatório. E o que parece impressionante em um momento, como a cena de abertura, quando, depois de deixar seus filhos na porta da escola, com o carro ainda parado em fila dupla, o Tenente viciado e desamparado puxa um papelote de coca pra cheirar, acaba se tornando uma imagem corriqueira depois que outra, e mais outra, e mais outra tão ou mais intensas vêm pra enterrar os conceitos de limites que construímos para o próprio filme.

Ao mesmo passo que fotografa uma verdadeira descida ao inferno, onde o mal é combatido com o mal e o bem fica muito mais como uma grande ilusão intelectual, Ferrara transforma este Vício Frenético em um filme de dupla personalidade – mas sem distingui-las jamais. E tudo não passa de um reflexo da própria condição do protagonista, que em sua doença esconde todo o penar que lhe castiga, mas que permanece sufocando e matando por dentro – e é uma tremenda sacanagem que a exteriorização disso tudo seja feita justamente quando consegue liberar seus demônios, tanto na cena da igreja, onde imagina Jesus Cristo e implora-lhe perdão, quanto na própria ação de libertar das conseqüências aqueles jovens criminosos que estupram a freira – num misto de boa e má ação, o que não poderia ser mais fiel à dualidade de sentimentos que fazem dele um dos anti-heróis mais complexos do cinema.

E essa grande ilusão entre o castigo e a redenção – que em muitos momentos é tratada como tal, principalmente na construção de toda a atmosfera onírica evocada por um ou outro elemento de cena, quase sempre a iluminação – é registrada com uma frieza assustadora, como se o próprio personagem impusesse à câmera os limites para a dissecação de sua dor e de seu mergulho predestinado ao afogamento. E ainda assim o filme consegue ser de uma intensidade dominadora, e talvez seja por isso que o final, totalmente traiçoeiro, deixe uma sensação tão desconfortável, ainda que seja sabido que a própria ação nada mais é do que uma concretização daquilo que o homem havia tentado fazer consigo o filme todo, só que não conseguia por a ação vir de dentro, de um ponto que já não acompanhava mais aquela caminhada desorientada e, portanto, não respondia.

Pode-se dizer com facilidade que Vício Frenético resume em prática grande parte do cinema de Ferrara – embora não seja sua maior obra-prima, posto que é seguro a New Rose Hotel, a maior extremidade do experimentalismo com a tenuidade da imagem e um filme tão transgressor quanto fundamentador de conceitos, todos estes ainda inaplicáveis ao cinema contemporâneo – e que deverão sofrer com isso por mais uns 30 anos, pelo menos. Mas acho que nem mesmo todo o conjunto consegue ser tão expressivo e melancólico quanto o monólogo que a amiga viciada de Keitel profere em sua última participação no filme, um discurso que praticamente define em duas dúzias de palavras o que muitos realizadores tentaram transmitir com uma carreira inteira – e até mesmo Ferrara provavelmente nunca havia sido tão claro.

Isso, junto do momento em que o diretor questiona a culpa e o perdão católicos, naquele encontro traumático entre a freira e o protagonista na igreja, estão certamente entre as coisas mais marcantes que eu já vi em um filme. “Jesus transformou a água em vinho. Eu deveria ter transformado esperma amargo em esperma fértil, ódio em amor, e talvez ter salvado a alma deles. Eles não me amaram mas eu deveria tê-los amado”.  Sufoca apenas reproduzir isso aqui pro computador. Imagina só, então, a cabeça de quem escreveu uma coisa dessas.

4/4

Daniel Dalpizzolo

6 Comentários

Arquivado em Comentários

6 Respostas para “Vício Frenético (Bad Lieutenant – Abel Ferrara, 1992)

  1. Aeee, assistiu rápido!
    hehehe
    New Rose continua o melhor?
    Tudo bem! Também acho o filme demais, mas ainda prefiro o Vício frenético!
    Abraço!

  2. Daniel Dalpizzolo

    Vício Frenético está entre os três primeiros, com certeza. Mas eu ainda tenho convicção de que New Rose Hotel seja imbatível, não apenas falando de Ferrara, como do cinema contemporâneo – colocamos aí a atual e a década anterior.

    Aliás, curioso que eu havia visto Vício Frenético há uns quatro anos, e mesmo lembrando de algumas coisas, meus dois momentos preferidos dessa revisão eu não guardava na memória.

    Por sinal, revi hoje tbm o Rei de Nova York – esse acho que fazia ainda mais tempo, uns cinco anos, por aí. Incrível como o Ferrara sabe trabalhar com desconstrução de epicidade e, mais incrível ainda, é como ele sabe tanto trabalhar o visual sufocante que lhe é de habitual, closes, escuridão, estaticidade, etc, quanto o plástico. Mas isso fica pra um próximo post, hehe.

  3. kra gostei muito do seu blog e espero q vc possa visitar o meu tb.. eu revitalizando o meu..
    te adicionei na minha lista.. visite o meu e participe tb…
    vlws

  4. Luis Henrique Boaventura

    Tá lá, Sergião. Apareça sempre!

  5. Caio Lucas

    Dan, texto desgraçado de foda! Não importa que eu use esses palavrões, já que estamos falando dessa obra-prima escandalosa que é “Vício Frenético”.

  6. Pingback: Vício Frenético | Rotativo - Blog

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