Onde os Fracos Não Têm Vez (Irmãos Coen, 2007)

O constante diálogo construído pelos Coen abordando o cinema geral e o seu próprio ganha um novo capítulo com Onde os Fracos Não Têm Vez, um investimento menor em classe e uma aposta maior na brutalidade que rege essa ópera do silêncio, o mais recente mergulho no específico cinematográfico dos brothers, que agora locam suas idéias – ao passo em que lançam um segundo olhar – no velho oeste. Ou o que aparentemente restou dele. Essa roupagem de Western – o mais americano dos gêneros – nada mais é que o subterfúgio que Joel e Ethan encontraram para homenagear a sétima arte e dar continuidade à observação da natureza humana, só que, dessa vez, explorando o lado obscuro do homem sob uma vertente totalmente despida da humanidade quase esperançosa que sublinhava seus trabalhos de outros tempos.

Onde os Fracos Não Têm Vez parte, literalmente, de onde seu parente mais próximo, Fargo, termina: uma maleta recheada de dólares localizada no meio do nada, um buraco negro mascarado de paisagem. É quando Llewelyn Moss (Josh Brolin, ex-Goonie, surpreendentemente ótimo), um veterano do Vietnã e um dos avatares do homem comum coeniano no filme, encontra, fortuitamente, o pote de ouro em meio a sangues e rastros de tiros. Seria um típico cenário da época em que os homens eram homens e bailavam a dança da morte segundo um código de honra e justiça maior que a própria lei, mas as drogas escondidas nas caminhonetes são a prova de que os tempos mudaram. Agora, os homens são monstros.

A inversão de papéis sofrida por Llewelyn é rápida: em pouco tempo, passa de caçador a caça, perseguido pela encarnação do diabo na Terra, Anton Chigurh (Javier Bardem, inspiradíssimo, melhor atuação coadjuvante do ano), um assassino com mentalidade psicótica, disciplina espartana, estratégia nazista e fibra demoníaca, o signo da maldade num invólucro bestial, de expressões vazias temperadas pelo ódio e um senso de moralidade deturpado pelo destino versus livre-arbítrio, que se livra de pessoas como quem lida com gado, que se diverte com vidas como quem brinca de cara-ou-coroa. Um gladiador à moda antiga bem servido das ferramentas e aspirações do homem moderno, alguém que, vivendo no momento certo, receberia um codinome imponente, causaria temor e possivelmente passaria o resto de seus dias construindo uma casa para a mulher que o libertaria do cárcere vil ao qual estava condicionado. Mas estamos tratando de um conto de fadas às avessas, permeado pela descrença no ser humano e sua impunidade.

O filme discursa sobre a falta de encaixe do velho e do novo, do obsoleto e do moderno, após subverter a expectativa da audiência, cobrindo com um veludo manchado de sangue os rumos do classudo crossover entre Western e Noir de contornos hitchcockianos erigido pelos Coen, buscando traduzir o sentimento do medo nas palavras reflexivas de um xerife (Tommy Lee Jones, fantástico no aconchegante calor humano que exala) maltratado pelo tempo e amaldiçoado com o pavor diante do incompreensível mal moderno, mais pungente que o histórico de horror e perversidade que desfila pelo terreno seco do oeste e personificado no tufão de violência que castigou uma pequena cidade do Texas.

4/4

Vinícius Laurindo

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1 comentário

Arquivado em Resenhas

Uma resposta para “Onde os Fracos Não Têm Vez (Irmãos Coen, 2007)

  1. Erasmo

    Anton chirgurh, é sem dúvida o mais frio dos vilões do cinema.

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