Fogo Contra Fogo (Michael Mann, 1995)

A L.A.P.D. (Polícia de Los Angeles) foi fundada em 1853 e é a terceira maior organização policial dos Estados Unidos, atualmente. Tendo trabalhado em diversos casos importantes e famosos (como o caso Charles Manson), é natural que a L.A.P.D. tenha passado a fazer parte da ficção cinematográfica, sendo retratada em diversos filmes (como Cães de Aluguel, Duro de Matar, O Exterminador do Futuro, entre outros). Porém, tal organização sempre foi retratada pelo cinema em uma visão muito geral e pouco introspectiva: mostrava-se muito a atuação de suas forças especiais e “esquecia-se” de apresentar os profissionais individualmente, principalmente no que tange o cotidiano de um policial que faz parte de tal organização e que precisa conciliar sua vida com seu trabalho.

Porém, em 1995, Michael Mann (responsável por filmes como “O Último dos Moicanos”, “Ali” e o recente “Miami Vice”) apresentou ao mundo uma visão um tanto quanto diferente. Era um filme intimista, revelador, tenso em certos momentos e, principalmente, introspectivo. Contando com as atuações de Al Pacino, Robert de Niro, Val Kilmer, Jon Voight e até mesmo de uma Natalie Portman em início de carreira, Mann construiu um novo conceito dentro dos filmes de ação/policial. É interessante observar que na década de 90, tais gêneros eram muitíssimo bem cotados e rendiam diversos filmes. Muitos desses transbordavam inteligência e criatividade (como exemplo, podemos citar Cães de Aluguel, Pulp Fiction e Os Suspeitos). Entretanto, a proposta de Michael Mann era um tanto diferente: pretendia mostrar um embate quase que pessoal entre dois homens, explorando, assim, o âmago de cada um. Não importaria o desvendar do crime e nem o tiroteio destruidor ao final, mas sim, o que cada um carrega dentro de si e o que os impulsiona. Mais importante do que as armas seria a essência posta à prova. Não que “Fogo Contra Fogo” seja um estudo psicológico a níveis incompreensíveis. Ele é um filme policial como outro qualquer, porém, com a ressalva de ter um foco diferente do normal. Ele preocupa-se mais como seus personagens do que com a ação desenfreada. E o simples fato de ter se arriscado de tal maneira já o faz digno de aplausos.

Vincent Hanna (Al Pacino) é um tenente da Divisão de Homicidios da L.A.P.D. Após saber que três policiais foram assassinados em um assalto a carro forte (de onde foram roubados 1,6 milhões de dólares em títulos ao portador), ele passa a investigar o caso e a perseguir Neil McCauley (Robert de Niro), um criminoso que acabara de sair da cadeia, mas que já está na ativa mais uma vez. Primando por focalizar o que se passa dentro de cada um desses personagens, o filme utiliza-se de sub-tramas para ilustrar o “cotidiano” dos dois: enquanto Vincent está em seu terceiro casamento, vendo sua esposa infeliz por causa de sua dedicação exacerbada com o traballho e sua enteada sentindo-se rejeitada pelo pai biológico, Neil procura não envolver-se com nada nem ninguém “dos quais não possa se desfazer em 30 segundos”. Entretanto, por mais que pareçam extremos opostos, esses dois homens são incrivelmente semelhantes. E é nisso que o filme aposta com sua trama.

O que mais aproxima Vincent e Neil, certamente, é a dedicação com que se entregam àquilo que fazem. E essa dedicação é o que os torna pessoas distantes e com as quais é difícil de conviver. Em certo momento do filme, Justine (Diane Venora), esposa de Vincent, lhe diz: “Você não vive comigo. Você vive entre os corpos das pessoas mortas”, frase à qual, Vincent sequer reage, pois sabe do fundo de verdade que esta tem. Sua compenetração em seu trabalho é sua forma de dar sentido à sua existência. Enquanto isso, Neil é um homem sozinho, que confia única e somente em seu braço direito, Chris (Val Kilmer) . Porém, por mais que se cerque de seus companheiros de crime, Neil não pode negar que é sozinho. Sozinho assim como Vincent que, mesmo possuindo uma família, não consegue adaptar-se à ela, tornando-se, até mesmo, um fardo. A melhor forma de constatar a semalhança entre esses dois homens é quando eles sentam frente a frente e, tomando café, conversam sobre suas vidas (em uma cena memorável, com um diálogo realmente incrível). A partir de então, eles percebem que tanto um como o outro tem plena consciência daquilo que suas vidas se tornaram. E mais! Reconhecer que são mais semelhantes do que aparentam lhes dá mais motivos para “enfrentarem-se”. A perseguição acaba saindo do plano-comum de “policial x bandido” para tornar-se quase que pessoal. É derrotado aquele que primeiro perder a noção daquilo que realmente é.

Para ilustrar tamanho “combate”, Michael Mann faz um belo trabalho de câmera, principalmente no que tange as tomadas aéreas e às cenas de ação. Enquanto as primeiras mostram a extensão e o visual de Los Angeles à noite (dando a entender que todo aquele território pode servir de palco para a caçada de Vincent à Neil), as cenas de ação mostram-se incrivelmente reais e bem elaboradas, evidenciando o talento e o cuidado de Mann para tal tipo de cena. Outro aspecto interessante de se perceber em “Fogo contra Fogo” é a forma como os enquadramentos são feitos nos personagens para representar suas emoções. Em certo momento, Neil encontra-se próximo a uma janela. Ela, somada à pouca luz utilizada em cena tentam representar a solidão do personagem e sua dificuldade em se aproximar das pessoas. Tudo isso em um clima quase noir.

Sendo assim, “Fogo contra Fogo” é um marco na história dos filmes policiais e mais um dos exemplares que tornaram a década de 90 tão memorável. Além disso é um excelente exemplo de como os diferentes gêneros de cinema são flexíveis, bastando para moldá-los, a criatividade dos responsáveis pela obra. Enquanto os diretores e roteiristas souberem como aproveitar as inúmeras possibilidades do cinema, continuaremos a ser brindados com grandes obras, que se imortalizarão dentro da história da Sétima Arte.

4/4

Murilo Lopes de Oliveira

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2 Comentários

Arquivado em Resenhas

2 Respostas para “Fogo Contra Fogo (Michael Mann, 1995)

  1. renner

    Robert De Niro é o Melhor ator de todos os tempos

    “SEM SOMBRA DE DÚVIDA”

  2. d.j.

    eita. grande ator, sem dúvida tá lá no hall dos grandes. e nesse filme ele tá muitíssimo bem.

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