Crepúsculo dos Deuses (Billy Wilder, 1950)

Sunset Boulevard

Ao longo dos seus mais de 100 anos, o cinema produziu incontáveis filmes. A maioria caiu no esquecimento, outros tiveram pequeno destaque, sendo esquecidos ao longo do tempo, e outros ainda sobreviveram razoavelmente às vicissitudes do tempo. Mas apenas alguns pouquíssimos filmes tiveram o poder de, não apenas sobreviver ao longo do tempo, mas também de, após vários anos desde a sua realização, se manterem mais atuais do que nunca. A esses filmes costumam dar o título de “clássicos”. “Crepúsculo dos Deuses”, obra – prima de 1950 do diretor Billy Wilder, está entre esses clássicos.

Mas ele é mais do que um clássico: Billy Wilder, ao fazer esse filme, deixou como legado um dos mais ácidos, fortes e, por que não, verdadeiros retratos de Hollywood. É o veículo cinematográfico não só olhando para as suas próprias feridas, mas expondo – as, cutucando –as, remoendo – as, espremendo – as, jogando sal nelas, enfim, fazendo com que tudo o que há de podre em Hollywood seja mostrado sem concessões. Mais do que isso: Através de uma carga dramática mais do que intensa e de um sombrio e funesto clima noir, Billy Wilder aborda o fim de uma fase do cinema, e como essa mesma fase foi sepultada.

Esse retrato do fim de uma era é mostrado, através dos anseios, das frustrações e das angústias, enfim, dos dramas existenciais dos quatro personagens principais, que vivem ou viveram dentro ou fora das telas: através do roteirista Joe Gills (Willian Holden), temos representado aquele que chegou cheio de sonhos e ambições ao mundo do cinema, mas que, por causa de certas circunstâncias, acaba se desiludindo com a sua voracidade e sua falta de misericórdia contra àqueles que não conseguem se firmar, e, por conta disso, acaba vivendo uma degradação moral, ao se transformar em um aspirante a gigolô de Norma Desmond (Gloria Swanson), que outrora, foi uma grande estrela do cinema mudo, mas que, agora, vive a solidão e a eterna angústia de quem um dia provou a fama e hoje vive no esquecimento, vivendo de seu passado glorioso, e, por conta dessas lembranças que foram felizes, mas que agora se tornam apenas um fiapo de uma vida amargurada, acaba enlouquecendo dentro de sua glamourosa, mas também representativa de um passado agora cadavérico, mansão, junto com seu mordomo Max Von Mayerling (Erich Von Stroheim), que, outrora, foi um diretor promissor, tendo dirigido, entre outras estrelas, a uma inexperiente Norma Desmond, se apaixonando e casando por ela e que, por conta dessa paixão, largou uma segura e promissora carreira de diretor para viver eternamente servindo – a, vestindo – se de uma imensa culpa de quem sacrificou toda uma vida alheia, além da própria, alimentando a culpa de sua pupila através de cartas falsas de fãs, contribuindo ainda mais para a sua loucura. No meio desse furacão de morbidez e decadência, temos Betty Schaefer (Nancy Olson), nascida a três quarteirões de Hollywood, preparada desde criança para ser mais uma artista de Hollywood, mas, ora pela falta de uma plástica perfeita (não gostaram do seu nariz), ora pela falta de aulas de atuação, acaba trabalhando como leitora e, ao conhecer e se apaixonar Joe Gills, vê a sua vida florescer por alguns poucos momentos, para, logo depois, sentir a frustração de um amor castrado pela ambição e pela insegurança. Todos esses fatores transparecem tal qual a podridão do mundo Hollywoodiano nos quase 110 minutos desse filme.

Toda essa rede entrelaçada de destinos não seria possível se não fossem a força de interpretação dos quatro atores principais: Como um time perfeito que estraçalha qualquer adversário que aparece na frente, esse quarteto é a força motriz do filme, onde os quatro atores incorporam de corpo e alma os seus personagens. Especialmente Gloria Swanson: transparecendo uma opulência decadente e uma loucura intimidadora ao personagem, ela personifica o símbolo de uma estrela do passado que sucumbe ao mundo cruel de Hollywood, atuando de uma maneira como nunca foi visto no cinema, permeando o filme de frases que se tornariam clássicas (“Eu sou grande, os filmes é que são pequenos”; “Mr. DeMille, estou pronta para o meu close”, entre outras), fazendo de sua Norma Desmond uma das personagens mais lendárias do cinema. O filme ainda se permite a criar situações e cenas aparentemente simples, mas que dão todo um sentido para a trama, fazendo com que em nenhum momento nos sentirmos cansados ou desinteressados. Um exemplo disso é quando Gills, nosso protagonista, já está meio de saco cheio de toda a escravidão que estava vivendo (já que o emprego exigia que ele fosse viver na casa da atriz, proporcionando um relacionamento quase bizarro entre os dois) e tenta sair da casa, ficando por um momento preso pela corrente de sua roupa à maçaneta da porta de entrada, numa clara referência que ele estava preso àquele lugar.

Coadjuvando tudo isso (mas não sendo menos importante), temos uma direção de arte não menos que fantástica, que praticamente dá vida à mansão onde se passa boa parte do filme; uma trilha sonora magistral de Franz Waxman, que contribui para o clima de morbidez do filme; um roteiro que injeta ironia e sarcasmo, ingredientes que temperam com gosto essa salada mórbida sobre o lado podre de Hollywood, e que distribui a torto e a direito frases que se tornaram clássicas no cinema; a opção pela narração em off feita por Joe Gills, que contribui ainda mais para o clima de morbidez e sarcasmo do filme.

Como se não bastasse tudo isso acontecendo na tela, temos também, apimentando ainda mais tudo que permeia esse filme, “coincidências” memoráveis, que me levam a crer que todas elas foram premeditadas pelo Billy Wilder. Vejamos: Ironicamente, a grande estrela do cinema mudo, Gloria Swanson, mesmo dando um show de interpretação neste papel que simboliza o clímax da sua carreira, depois deste filme, não conseguiu mais impulsioná-la, talvez por não se adaptar às novas técnicas de filmagem e expressão. A atriz seguiu o seu próprio crepúsculo a partir de então, nunca mais voltando a sentir o prestígio do sucesso, só protagonizando filmes medíocres até a sua morte; O ator que interpreta o mordomo Max; Erich Von Stroheim, iniciou a carreira na era do cinema mudo como diretor, dirigindo, entre outras atrizes, a própria Gloria Swanson (inclusive, o filme que é exibido na sala de cinema de Norma Desmond, onde a personagem reverencia a sua atuação no filme (sem precisar de diálogos, segundo a própria), é “Queen Kelly”, dirigido pelo próprio e estrelado pela Gloria Swanson); a aparição de astros e personalidades que viveram o seu auge no cinema mudo (entre eles, Buster Keaton); o fato de utilizar como uma das locações o estúdio 18 da Paramount, onde estava sendo filmado “Sansão e  Dalila”, de Cecil B. DeMille (inclusive com participação do próprio e de parte do elenco e da equipe técnica).  Todos esses fatores contribuem ainda mais para o clima mórbido e pesado dessa obra – prima.

O mais impressionante disso tudo é que, apesar de todo o excesso dramático, e do fato de que mais de meio século de cinema passaram desde sua produção, a história de Hollywood não mudou. Ídolos e super-astros continuam sendo feitos e desfeitos como se fossem olhas de papel que se inutilizam quando já preenchidas, histórias de morbidez como a retratada continuam acontecendo (e sendo registradas e publicadas a torto e a direito por jornalistas que avançam diante uma estrela de outrora ou um fato constrangedor envolvendo uma pessoa da mídia tal qual aves de rapina voando em direção à carniça). Isso prova ainda mais a força desse filme como um retrato de dentro para fora da própria indústria que a alimenta. Mais do que talento, é preciso coragem para expor as próprias feridas. E isso Billy Wilder (vem como todos que participaram da produção), mostrou que teve de sobra, sofrendo as conseqüências dessa decisão (várias pessoas, especialmente produtores e diretores de cinema, saíram extremamente revoltados das sessões, além do próprio conteúdo do filme ter esfriado a sua campanha rumo aos Oscars principais de 1951, que foram para “A Malvada”, que aborda de maneira igualmente sarcástica e pesada a Broadway), mas galgando o filme à eternidade do cinema, lugar onde, provavelmente transcorridos mais de 50 anos depois da elaboração dessa resenha, esse filme ainda será lembrado como o retrato fiel da indústria de sonhos (e que os destrói com a mesma facilidade) projetados numa tela dentro de uma sala escura, e mais do que isso, sendo vangloriada com a mesma devoção que é hoje. E é exatamente disso que é feito um clássico!

4/4

Adney Silva

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7 Comentários

Arquivado em Resenhas

7 Respostas para “Crepúsculo dos Deuses (Billy Wilder, 1950)

  1. Daniel Dalpizzolo

    Grande texto.

    Mais do que um retrato perfeito de Hollywood etc, considero Sunset Blvd. o filme mais impressionante sobre a decadência e a necessidade de se apegar ao passado pra tentar esconder o presente, quando se está na merda.

    Um dos melhores filmes do mundo, certamente.

  2. Adney Silva

    Valeu pelo elogio, ainda mais vindo do cara mais produtivo daqui, hehehe…

    Sim, você tocou num ponto interessantíssimo: tirando Betty Schaefer, todos ali se apegam aos seus passados gloriosos e, por isso mesmo, sofrem todas as consequências. E esa é uma tendência bastante comum do ser humano, o que torna esse filme ainda mais maravilhoso.

  3. Danny

    Adoro a Gloria Swanson e esse é um de meus filmes preferidos dela dos quais eu assisti

  4. Isa

    O comentário é de tirar o fôlego: a primeira frase tem 21 linhas!!!

  5. Isa, você quer dizer a primeira frase do terceiro parágrafo, certo?hehehe…

    Mas a intenção foi essa mesma, de tentar conectar todos os personagens principais em apenas um parágrafo (detalhe que não consegui colocar a descrição da Betty Schaefer na frase, ou seja, ela ficaria ainda maior).

  6. Nesse clássico cinematográfica Wilder despe sem o mínimo pudor a realidade cruel da indústria cinematográfica especificamente Hollywood. Em uma das mais devastadoras sátiras sobre o lado sombrio do ser humano e da indústria de cinema americano.

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