Um Copo de Cólera (Aluízio Abranches, 1999)

Não é por ser um apaixonado, juro que não, mas, que o filme do Abranches é um atentado hediondo à obra-prima do Raduan Nassar, extrapola todos os limites do fãzoidismo. “Não compreendeu o material que tinha em mãos”, nas palavras do Thiago, é a definição imediata do filme. E é uma pena, pois por mais alicerçada pelo texto incomparável que a direção possa ter sido, não há uma resposta. Nem de Abranches, nem de Alexandre Borges, muito menos da deprimentemente ruim Julia Lemmertz. E eu quase posso enxergar o cara “que tal se o primeiro plano fosse um formigueiro?” – “genial, Aluízio!” – “e se começássemos as cenas de sexo assim sobrepostas num véu vermelho, hã, hã?” – “putz, sensacional!”.

Na obra de Nassar, há todo um diálogo subterrâneo entre o verbo e o ato, algo que quase poderia ter sido pensado para a linguagem cinematográfica, e especialmente no caso de uma adaptação de Raduan Nassar, onde o texto pode terminar, por descuido (neste caso, do Abranches), escravizando o filme. E o Raduan brinca com isso em Um Copo de Cólera, revelando a ineficiência das palavras e das idéias diante da sensação bruta. Daí que o Luiz Fernando Carvalho (em Lavoura Arcaica) saca essa luta entre as duas linguagens e a transpassa brilhantemente na verborragia de André contra o silêncio de Ana, (e o monólogo da capela é todo isso, da mudez terminar imperando sobre a voz).

Além do que, o grande pilar (e título) do filme não consegue efeito. É impressionante, mas a LEITURA do livro é mais incendiada, mais visceral, mais enfurecida e alucinada do que o que se VÊ no filme (e se ouve, ainda se poderia dizer, efetivamente). O diálogo direto com os sentidos (atalhos para se despertar sensações dos quais um escritor não se pode valer) com que Abranches contava (e Borges e Lemmertz, porque a cena dependia demais deles) é todo gago, engasgado e com problemas crônicos de dicção.

Enfim, uma pena que tenha acontecido, mas Um Copo de Cólera passou longe de dar certo. E isso é pior pra quem curte o livro e sabe do potencial que essa porra tinha. Faltou coluna vertebral ao filme, faltou o cérebro e o coração. O resultado é “o pacote de ossos”, “o ventre seco”.

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Luis Henrique Boaventura

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