A Morte Num Beijo (Kiss Me Deadly – Robert Aldrich, 1955)

Em Psicose, Alfred Hitchcock mata a protagonista com pouco mais de 40 minutos de filme. Robert Aldrich, com seu A Morte Num Beijo, faz a ousadia futura do mestre do suspense parecer brincadeira de criança: durante uma seqüência inicial absurda, surpreendente, na qual a personagem principal desta obra-prima absolutamente singular (vocês entenderão que isso não é brincadeira) do film noir corre pela madrugada em uma rodovia, só de roupão, aos berros, e se mete em frente a um carro, ela conhece um detetive particular que aceita lhe dar uma carona à parada de ônibus mais próxima. Qual não é a surpresa quando a trajetória de ambos é interrompida por um carro que surge do nada e tranca a passagem, do qual posteriormente saltam homens que, além de estrangulá-la, jogam a moça, o carro e o homem morro abaixo em um barranco.

Tudo isso acontece com apenas dez minutos de filme, pouco depois de outro elemento inusitado surgir na tela: os créditos de abertura, erráticos, surtados, vindo debaixo para cima e com o sentido ao contrário (o espectador precisa mesmo ler debaixo pra cima). O que sucede este início fora do comum não deixa a desejar em sequer um momento, tanto qualitativamente quanto na competência de surpreender das formas mais exclusivas possíveis – algo que remete, inclusive, a outro filme noir deste mesmo ano, o excepcional O Mensageiro do Diabo, responsável pela atuação mais assustadora de Robert Mitchium, um dos caras mais assustadores do cinema.

Apesar de ser um exemplo maravilhoso, impecável, de cartilha do cinema noir, seus principais elementos e toda a construção atmosférica e narrativa em detrimento ao enredo (porque noir é clima, acima de tudo), necessárias para o bom funcionamento de um filme de estilo, A Morte Num Beijo pode ser considerado uma das principais influencias do cinema de suspense neo-surrealista, mais precisamente da obra de David Lynch e seus filhos mais surtados, A Estrada Perdida, Cidade dos Sonhos e, em menor escala, em virtude de sua explosão onírica irremediável, Império dos Sonhos – embora tecnicamente remeta ao passado, ao expressionismo, abusando dos contrastes entre luzes e sombras, ambientes fechados e apertados, ângulos assimétricos, esquizofrênicos e com constantes inclinações.

Depois da decorrência de uma hora de filme, na qual toda a trama é fermentada, mas sem qualquer resquício de respostas para o questionamento que move as intenções de todo o quadro de personagens, em especial do protagonista, A Morte Num Beijo passa a apresentar uma renovação inexplicável de sua esfera focal, introduzindo elementos inéditos que dão fôlego não apenas renovado, como inimaginável à trama. Tudo isso seria mais do que o normal para um filme de suspense se manter em maiores níveis de tensão, mas os últimos 15 minutos, que representam um surto absoluto utilizado por Aldrich para chutar a linha e a agulha para o espaço, desamarram qualquer explicação plausível para os fatos e deixam esta jornada com uma sensação gostosamente inexplicável.

A Morte Num Beijo é uma obra-prima absoluta de proporções desmedidas.

4/4

Daniel Dalpizzolo

4 Comentários

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4 Respostas para “A Morte Num Beijo (Kiss Me Deadly – Robert Aldrich, 1955)

  1. rockenbach

    Tenho que ver.
    Apenas uma correção Daniel, vc trocou os Roberts. O ator de Mensageiro do Diabo é o Mitchum….o Aldrich a gente deixa na direção aqui mesmo.

  2. Daniel Dalpizzolo

    Uahuahua, valeu a lembrança. Mãos no teclado e cabeça na lua é outra história.

  3. Daniel Dalpizzolo

    Uahuahua, valeu a lembrança. Mãos no teclado e cabeça na lua é outra história.

  4. KISS ME DEADLY ( A Morte num Beijo / EUA; 1955 ), é uma obra-prima do ” film noir ” norte-americano. O filme é considerado pelo historiador de cinema A.C. Gomes de Mattos , ” o último dos grandes filmes noirs puros ” e nada deve aos clássicos absolutos do gênero ( The Maltese Falcon, The Postman Always Rings Twice, Laura, Detour, The Big Sleep , entre outros ). O diretor Robert Aldrich foi buscar no autor mais desprezado da ficção policial hard-boiled que inspirou as películas do gênero – Mickey Spillane- o material para essa obra-prima e recheou a história com as tensões da Guerra Fria, a sordidez da sociedade capitalista e o legado miserável da humanidade. Como disse muito bem o crítico de cinema Luís Carlos Merten, ao se referir à exibição do filme na TV paga , toda a truculência do personagem Mike Hammer torna-se ninharia com o desfecho da trama, quando a ” caixa de Pandora ” disputada pelos personagens ( à maneira do falcão maltês do filme de John Huston ) se revela um artefato bélico atômico- e tudo o mais perde o sentido.
    Contrariando a opinião de muitos, o detetive Mike Hammer foi brilhantemente vivido por Ralph Meeker, que conseguiu tornar o personagem crível, humanizando-o para além dos clichês do investigador particular dos filmes noir. Meeker em KISS ME DEADLY e Dana Andrews em LAURA ( no papel do detetive Mark McPherson ) talvez tenham sido os dois únicos atores a compor com perfeição e sem a afetação direta dos clichês , os melhores detetives do film noir. É claro que Humphrey Bogart criou um tipo antológico, mas é difícil separar o Sam Spade de THE MALTESE FALCON , do Philip Marlowe de THE BIG SLEEP- ambos parecem ser o mesmo, apesar do primeiro ser personagem de Dashiell Hammett e o segundo de Raymond Chandler !
    Por várias razões, é preciso colocar KISS ME DEADLY no topo da produção do film noir, como um dos mais representativos exemplares desse ” gênero “, além de reabilitar Ralph Meeker como um grande ator, que ofereceu no filme de Aldrich, uma atuação perfeita e , portanto, impecável e definitiva de Mike Hammer.
    ( Adriano Miranda-Franca-SP- Professor e Historiador de Cinema )

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