Trágica Obsessão (Brian De Palma, 1976)

Brian De Palma é um cineasta de excessos. Quem considera o cinema uma arte de entrelinhas, de sugestividade sobreposta ao escancaro, certamente se transformará de imediato em um detrator de seu estilo, coisa que, por sinal, realmente ocorre – e com grande freqüência. E é até compreensível que filmes como Trágica Obsessão, uma das grandes obras-primas da carreira do maior mestre do cinema contemporâneo, permaneçam até hoje na penumbra da memória cinematográfica. Aliás, o curioso de tudo isso é que De Palma, assumidamente, promove com o seu cinema uma espécie de ‘releitura’ do próprio cinema, em especial daquele que é tido como o grande influenciador do diretor e reconhecido como o ‘mestre do suspense’, Alfred Hitchcock, cujo discurso cinematográfico apontava justamente para o caminho contrário ao que trilha: a sugestão. Para Hitchcock, o clima de mistério é o que vale. Para De Palma, não.

Trágica Obsessão, substancialmente, pode ser considerado uma releitura daquela que muitos apontam como a grande obra-prima do cinema de Hitchcock, uma estória de amor construída em dois atos distintos e mergulhada em um tom inenarrável de remorso e obsessão – no filme do ‘gordinho’, o personagem de Stewart se recupera do choque que é ver a mulher que ama se suicidar, quando encontra outra que se parece com ela e tenta reviver o romance. O filme em questão é Um Corpo Que Cai, clássico do suspense e que praticamente resume a plotline de Obsession, que com algumas variações retorna ao tema romântico-obsessivo ao apresentar o retorno de um empresário, que, depois de mais de 20 anos, ainda se culpa pela morte da mulher, ao local onde se conheceram, e descobre que por lá encontra-se uma mulher de aparência física incrivelmente semelhante com a de sua falecida esposa.

A diferença entre o cinema de Hitchcock e o cinema de De Palma, portanto, fazem com que Trágica Obsessão eleve o espírito e a pretensão de Hitchcock à enésima potência, num surpreendente surto narrativo que explora com um preciosismo único as variações dramatúrgicas do roteiro original, explorando de forma ainda mais perturbadora as condições emocionais e psicológicas das peças que montam o quebra-cabeça denso e instigante desta dramática trama de obsessão. E é engraçado como, mesmo sendo uma ‘releitura’, Trágica Obsessão termina por ser um filme completamente diferente de Vertigo. De Palma enrola e desenrola cada elemento do filme, inverte as posições dentro da estrutura do roteiro, mexe aqui, ali, entorta lá, e o resultado é simplesmente orgástico, surtante. Os primeiros vinte minutos, sem quaisquer cerimônias, vêm como um baque, um choque em quem aguarda o clímax inicial para lá pelos cinqüenta minutos de filme rodado.

A partir daí, De Palma revela um novo filme. Muito distante do começo eletrizante, tenso. Muito menos tenso, mas ainda mais sufocante, transformando seu suspense em um filme sobre a culpa, o remorso, sobre a torturante sobrevida que o protagonista, preso a um erro do passado, desenvolve a partir do momento em que precisa conviver diariamente com o fato de ter tido a vida das pessoas que mais ama em suas mãos – e jogado-as fora. É um filme sobre a segunda chance; a chance que temos de reverter nossos erros, converter nossos pecados. E poucos trabalhos depalmianos foram tão particulares sob o ponto de vista emocional, dramático – talvez apenas O Pagamento Final se assemelhe em dor e substância a Trágica Obsessão, que, aliás, tem em seu final alguns elementos bem notáveis daquilo que viria a ser desenvolvido mais tarde por De Palma nesta obra-prima do drama policial. É um trabalho bastante profundo, muito distante da artificialidade que normalmente atribuem ao cinema do diretor.

E nada contribuiria mais para esta construção climática do que aquela trilha-sonora arrepiante, inquietante e estupradora de Bernard Herrmann – colaborador de confiança de Hitchcock, aliás. Talvez só a fotografia em tons fantasmagóricos de Vilmos Zsigmond, constantemente em conflito com luzes de velas, feixes de luz em janelas e ambientes em tons outonais, esmaecidos, que deixam uma sensação onírica imprescindível para o tom de romantismo macabro que a estória de amor/obsessão por um passado inemutável requer.

Mas é no terço final que De Palma finalmente comprova o porquê de eu ter chamado-o de cineasta de excessos, brincando feito uma criança autista com sua própria criação ao filmar um desfecho absolutamente insano, doentio, retardado e etc para uma estória tão bonita e profunda. E o pior de tudo é que só assim Obsession seria a obra-prima perfeita e sincera que é. Porque o cinema, acima de tudo, é baseado no poder de manipulação da imagem. E ninguém precisa avisar que este é exatamente o brinquedo preferido de De Palma.

Simplesmente descaralhal, emocionante, sufocante, bizarro, esquizofrênico, genial, um passo à frente do restante da humanidade. O filme mais subestimado do mundo.

4/4

Daniel Dalpizzolo

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5 Comentários

Arquivado em Resenhas

5 Respostas para “Trágica Obsessão (Brian De Palma, 1976)

  1. rui molina

    Daniel, parabéns pela ” critica” ao mestre do cinema arte, como o fizeste nas entrelinhas de vosso comentário.

    Realmente De Palma supera o insuperável. Hitchcock pode ser considerado o mestre. Mas, de fato De Palma ao meu entender superou o mestre, nesta obra prima.

    Lamentavelmente, notamos ” lixos” lançados aos quatro ventos e cantos e, não compreendo como lançaram Sisters e no entanto Obsession, fica relegada ao esquecimento.

    Tive o prazer à época de assistir a este filme. Fiquei estonteado, aliás, admiro muito de Palma. Até Redacted que lamentavelmente, dúvido muito que passe nos cinemas ou seja lançado em video também. Embora fuja do estilo do De Palma. Cinema denúncia,critica a despeito dos desmandos de Bush pelo mundo afora….Mas, ai é outra história. Vale baixar o filme pela internet, interessante.

    Daniel como consigo Obsession?

    Um grande abraço

  2. Daniel Dalpizzolo

    Obsession existe no Emule, dê uma procuradinha.

    (e considero Trágica Obsessão melhor que Vertigo sim).

    Redacted é mesmo um caso delicado. Sei de gente que simplesmente odiou o filme – e a recepção lá fora, ao que tudo indica, tirou o filme do circuito daqui. Já eu achei extraordinário, um grandiosíssimo jogo de De Palma e um dos mais genuínos filmes sobre Cinema lançados nos últimos tempos.

    Se você não viu, vale a pena conferir também Diário dos Mortos, de George Romero. Ambos possuem muito em comum – e também sofrem dos mesmos problemas de leitura geral.

    Abraço e continue com a gente. :)

  3. rui molina

    Vlw Daniel!!!

    Existe um projeto do ” Estrangulador de Boston” de 1966, onde De Palma fará um remake, agora para 2009. Vamos esperar os bons e velhos tempos de Trágica Obsessão…

    abraço!

  4. Daniel Dalpizzolo

    Vai ser genial.

    O que acha de Femme Fatale? Pergunto pq vc comentou sobre o De Palma dos bons e velhos tempos – e considero este não só um de seus melhores como um dos grandes filmes da década.

  5. o fantasma do paraíso é o melhor depalma.
    :>)

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