Piaf – Um Hino ao Amor (Olivier Dahan, 2007)

Produzir uma cinebiografia é, atualmente, ter retorno financeiro praticamente garantido. Escolhe-se uma grande estrela do cinema, da música ou da literatura, preferencialmente de personalidade complicada, ou envolvida com drogas ou outros ilícitos, e que não seja tão conhecida do público que usualmente freqüenta as salas de cinema e – voilá – o filme fará não apenas sucesso, como também catapultará as vendas de CDs e livros para a estratosfera. Pode-se até ganhar um Oscar! Foi assim com o fraco Ray, com o marginalmente superior Johnny e June e com o supostamente artístico, porém descontextualizado Capote. O mesmo acontece com Piaf – Um Hino ao Amor (La Môme, 2007), do cineasta francês Olivier Dahan; ainda que a estrutura seja diferente, as mesmas peças de sempre estão lá.

O filme relata os principais acontecimentos da vida da grande cantora francesa Edith Piaf (uma desfigurada Marion Cotillard, de Peixe Grande), desde a infância problemática até a velhice precoce, passando por uma adolescência de descobertas profissionais e pelo reconhecimento mundial vivido na maturidade. Dahan retrata Piaf como uma pessoa verdadeiramente intragável: rude, egoísta, viciada em drogas, aculturada e sem sensibilidade alguma, num processo de desglamourização já visto em muitos outros filmes; a novidade é que, tentando absolver a pessoa que Piaf se tornou, a edição de imagens traz a Piaf do início, abandonada pela mãe e maltratada pelo pai, injustamente acusada do assassinato de um dos seus mentores artísticos (Gérard Depardieu), privada do grande amor de sua vida e de saúde frágil. Essa dicotomia que acusa e ao mesmo tempo justifica entretém pelos primeiros quinze minutos, mas sua repetição ao longo de duas horas, além de tornar o filme insuportável, revela a pobreza de conteúdo do trabalho do diretor.

Esteticamente desagradável, vazio de poesia ou de profundidade, o filme seria muito pior do que é não fosse o trabalho de Cotillard, que, ao contrário de seu diretor, entendeu que os inúmeros defeitos, contradições e egocentrismos de Edith Piaf não careciam de justificação. A atriz internaliza o personagem de tal maneira que torna evidente – e emocionante – a transformação do ato de cantar num processo de superação e de alcance do amor-próprio, algo que Piaf nunca demonstrava longe dos palcos. Ainda que dublada em todas as canções (Dahan optou por gravações originais da própria Piaf em quase todas as músicas), Cotillard se arrisca e ultrapassa todas as expectativas, alcançando um resultado infinitamente maior e melhor que o próprio filme que a veicula.

2/4

Amílcar Figueiredo

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3 Comentários

Arquivado em Resenhas

3 Respostas para “Piaf – Um Hino ao Amor (Olivier Dahan, 2007)

  1. Geralda

    Concordo plenamente com a opinião acima.

  2. Lucas

    Você poderia ter sido menos parcial em sua critica, deixou bem claro apenas sua opinião, e no inicio do texto já é claro que ira contrariar o filme. No final até que resaltou o que importava. É tão cansativo criticas que só servem para criticar.

  3. Luis Henrique Boaventura

    hahaha

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