Persépolis (Vincent Paronnaud/Marjane Satrapi, 2007)

Ao pesquisar alguma coisa sobre o material que deu origem ao longa-metragem de animação Persépolis (Persepolis, 2007), da iraniana Marjane Satrapi e do francês Vincent Parronaud, descobri algo de que sequer tinha notícia: trata-se de um Bildungsroman, ou seja, um romance que retrata o amadurecimento físico, mental e emocional de uma determinada pessoa. Bem adequado à política do self que impera nos dias de hoje, esse é um conceito que o filme – ainda bem – transcende, embora sem nunca arriscar vôos muito altos.

Persépolis é a cinebiografia de sua própria diretora, no início apresentada simplesmente como Marjane (na voz de Gabrielle Lopes e, posteriormente, Chiara Mastroianni). Uma criança nascida no Irã da década de 70, dominado pelo regime despótico do Xá Mohammed Reza Pahlevi. Marjane vivencia, com seus familiares cultos e politicamente inclinados ao socialismo, a destituição do Xá, que havia tomado o poder no país a pretexto de modernizá-lo, pelos partidários do aiatolá Ruhollah Khomeini, que instauram uma outra ditadura no país a pretexto de (também) modernizá-lo. Aos olhos de uma criança, a troca de seis por meia dúzia resulta numa adolescente inquieta que é mandada ao Liceu Francês de Viena, Áustria, de onde futuramente retornará até o auto-exílio definitivo na França. Apesar de um cenário tão politicamente rico, o foco do filme estará sempre na visão bem particular de Marjane sobre a realidade que a cerca e de como lidar com ela – de onde vem o Bildungsroman que eu citei no início.

Tal opção artística revela quão ideologicamente limitadas são as ambições dos autores de Persépolis. Tratar do Irã pós-Revolução Islâmica é falar de política, de religião e de gênero, três coisas umbilicalmente ligadas no país que anteriormente se chamava Pérsia (o título do filme, aliás, remete à antiga capital e centro religioso dos persas politeístas de outrora). Satrapi e Parronaud preferem pincelar um pouco de tudo e, por conseqüência, nunca verticalizam verdadeiramente seus temas. O filme funciona maravilhosamente bem em seu início, mas a partida para a Áustria se traduz em uma certa queda de ritmo e em referências à cultura pop que parecerão descontextualizadas aos olhos do espectador, quase um outro filme. Felizmente nem tudo é ônus, já que essa mesma leitura ao a um só tempo pessoal e infantil seduz o mais duro dos corações – inclusive o deste que vos escreve.

Para um trabalho de exposição pessoal inserida num contexto profundamente político e ideológico como esse, a doçura do traço simples dos animadores exerce papel fundamental. Pinceladas de humor aqui e ali, influências do expressionismo alemão, uma opção inteligente de cores (o filme é um gigantesco flashback em preto-e-branco, alternando para a cor quando vemos a Marjane do presente) e uma trilha sonora maravilhosa juntam-se para formar um pacote que, se não é arrojado e ideologicamente provocante como a história da protagonista faz supor, ao menos nos lembra que é possível, de fato, endurecer sem perder a ternura.

3/4

Amílcar Figueiredo

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