O Sonho de Cassandra (Woody Allen, 2007)

Durante nossa vida, adquirimos alguns conceitos que parecem inatos, dadas as origens tão profundas e enraizadas no inconsciente. São aquelas definições que advém de idéias tão básicas que, mesmo em nossos mais profundos anseios de liberdade intelectual, prevalecem como inalteradas e qualquer um que defenda o absurdo de suas refutações observará imediatamente a repugnância a latejar nas veias da face ou no franzir do sobrolho do ouvinte.

Creio que nossa herança religiosa (especialmente no Brasil, com o predomínio dos princípios cristãos como sinalizadores de moral e definidores de objetivos) seja determinante na construção desses fundamentos básicos.

A família, por exemplo, bem como sua valorização e status adquirido ao se tornar chefe de uma é, pois, um atestado de normalidade. E temos que admitir que uma das coisas que o homem busca em sua existência é não ser notado por características que o desvalorizem perante o outro – e na mesma medida, ser valorizado pelo que possui melhor conceitualmente que a maioria.

Ao observarmos a perpetuação dessas idéias, nos surpreendemos com a facilidade da propagação entre crianças, adolescentes (e nessa fase, às vezes princípios radicalmente opostos aos citados são símbolos de rebeldia e, por conseguinte, aceitação diante de outros que vivem a mesma fase), pais e adultos. A família é central em nosso desenvolvimento, acolhedora diante de nossas fraquezas e fiel às nossas necessidades (e não se preocupe, o rebelde adolescente descobrirá isso com o tempo).

Woody Allen em O Sonho de Cassandra, inicia a estória retratando uma bela amizade entre dois irmãos, modelo da relação próxima do ideal. Distantes da perfeição comportamental e totalmente isentos da expectativa da conduta desejável perante a sociedade diante de situações difíceis, Allen faz questão de construir uma cumplicidade inequívoca entre Terry e Ian. E ela chega a ponto de desviar os olhares de uma óbvia preferência da figura paterna pelo inteligente e aparentemente bem sucedido Ian em relação a Terry, que, ao contrário do despertar da ira, observa tudo conformado e tímido.

Mas Woody Allen ainda vai além, ao sugerir uma relação tão complexa, com o intuito de solidificar os princípios que regem o comportamento familiar dos protagonistas, convida o espectador a participar de um triângulo, ao, em vários momentos do filme deixar de apresentar elementos que comprovem a veracidade dos atos e dizeres dos personagens.

Por exemplo, em vários momentos só sabemos que Terry ganhou dinheiro nas apostas porque ele fala, e, dadas as circunstâncias mostradas, mesmo que dificilmente tal fato pareça aceitável, depois de algumas apostas, o personagem de Farrell demonstra sua sinceridade falando ao irmão que perdera uma alta quantia monetária e, consequentemente, ao espectador.

Como não ganhar a nossa confiança por todas as falas anteriores?
O artifício também funciona perfeitamente quanto a Ian: quando faz a difícil confissão de estar roubando dinheiro do próprio pai (com surpreendente naturalidade), conferimos um voto ainda maior de confiança a dupla…simplesmente não há porque questioná-los.

E é justamente aqui que todos os efeitos negativos dos arraigados conceitos começam a aparecer. As dificuldades financeiras de Terry e a ambição de Ian levam os rapazes a construção de um terceiro vínculo interpessoal, a ser consolidado com alguém portador do atual objeto de desejo dos irmãos: o dinheiro.
Munido do domínio dos poderosos conceitos sociais discutidos e ciente do poder devastador do confronto com suas incoerências, Tio Howard (e note bem o valor “sanguíneo” do título sempre vinculado ao personagem) aproveita-se das falhas morais dos rapazes e de seus seguidos pedidos de dinheiro a fim de adentrar o universo terrivelmente cruel da discussão de valores sociais conflitantes e tirar proveito.

Presos em uma encruzilhada na escolha entre matar um desconhecido para encobrir as evidentes falhas de caráter do Tio em nome da confiança e da família e perder definitivamente a importância diante de tal figura (o que representaria a falência das regras de conduta familiar), eles são direcionados perspicazmente por Howard a aceitar as condições bizarras do acordo. A família em primeiro lugar.

No entanto, o colapso da troca de valores causa uma destruição tão incrivelmente danosa que, no momento exato do acontecimento (e falo aqui da cena da chuva, debaixo da árvore, pois considero esse trecho o deflagrador dos eventos posteriores, que só representam reflexos) já sabemos que algo terrível advirá, seja através da fragilidade psicológica de Terry ou do incômodo evidente de Ian.

A cena do assassinato adentra o universo Hitchcockiano: tensa, belíssima e elegante, tornando o previsível deliciosamente imprevisível através da postergação do inevitável. Desde a frustrada tentativa na casa do pobre homem até os passos apressados, a desconfiança de Martin de estar sendo seguido na efetiva cena do crime (e, claro, do óbvio, que aconteceria inevitavelmente) e a cena anterior do encontro imprevisível da vítima com Farrell no bar. Você chega a roer as unhas…Algo tem que dar errado…tem que dar…mas não dá.
Uma vez que a semente da destruição se instala, as alternativas para a contenção de seu crescimento se tornam ínfimas. E o que emerge dela é o caos.

Um caos instantâneo e ansioso, que envolve rapidamente Terry (em uma atuação estupenda de Farrell, diga-se de passagem), causando uma crise nervosa intensa e perpétua e, embora menos visível, enfraquece e consome o ambicioso Ian, gerando uma tensão crescente entre os personagens.

Finalmente quando a cortina desce e o show termina como um estampido seco sobre a mente cansada e desesperançosa do espectador bem como um gosto amargo na boca, de forma extremamente rápida, este último percebe que há mais estória não retratada que retratada no filme.

Não, não é intenção de Woody satisfazer os anseios psicóticos de quem acompanha a estória com um banho de sangue e lágrimas, mas dilacerar nosso cérebro com duas armas infintitamente mais poderosas: a imaginação e a reflexão

3/4

Sílvio Tavares

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