Muriel ou o Tempo de um Retorno (Alain Resnais, 1963)

A primeira seqüência de Muriel ou o Tempo de um Retorno é uma colagem imprecisa de uma cena que se estilhaçou. Um quadro visto aos pedaços, rapidamente, como a fotografia de uma época cujo filme não tenha ficado tempo suficiente exposto à luz. Ainda assim, restou algo. Uma silhueta, um contorno, uma sombra. E os personagens passam pelas conseqüências deste processo, conflitados seja nos limites de um apartamento ou da cidadezinha onde se conhece a todos em poucos dias.

Tudo é fugidio, efêmero, incompleto. A impressão é de que os cortes foram todos errados. Todos os diálogos são interrompidos, todas as cenas são partidas pela metade. Nada tem um fim, uma conclusão, nada é uma história que vale a pena contar, nada é uma lembrança que valha guardar. Muriel é todo a falta de um todo. Não há nem o menor resquício dos longos e contemplativos planos de Marienbad, a reflexão dolorosa de Hiroshima, a narração que ornamenta as imagens. Muriel é pontiagudo, é uma obra sem acabamento, como os passados de Hélène, Bernard e Alphonse.

A única pessoa feliz, em Muriel, é Françoise. É recorrente que ela pare e olhe todas as vitrines enquanto o resto dos personagens simplesmente passe. Françoise não tem passado, quase nem tem presente. Sua euforia ao falar de um navio no porto da cidade é algo que ninguém mais naquele apartamento poderia compreender.

Bernard, por sua vez, sequer chega a existir em algum momento no filme. Ele morreu e permaneceu Argélia, vivendo nos porões da memória, com os olhos voltados sobre Muriel. Como na cena do jantar, com os óculos com os olhos falsos no presente, e os olhos verdadeiros enxertados sob a carne de outra época, escondidos em algum lugar do passado.

O romance entre Hélène e Alphonse é um coito interrompido num plano mais amplo, espalhado sobre o passar de vários anos. Não foi, poderia ter sido, mas agora não será mais como seria. Pena. E há toda uma recorrência da história dos dois reduzida em uma ou outra cena, um pequeno diálogo. Como quando Alphonse tenta tocá-la, ela percebe, e dá-lhe um pudim, que além de ocupar suas mãos serve de uma ironia tão devastadora como se ela lhe apontasse o dedo e gargalhasse. E também na conversa dos dois, na mesma noite, quando ele diz “eu quero beijá-la” e ela “amanhã”. É lindo, é triste, mas ao mesmo tempo é muito rápido. Tudo, tudo em Muriel é rápido demais, é sem uma devida importância.

Talvez (ou não) em conseqüência disso, as imagens não sejam tratadas com o mesmo cuidado, a mesma quase doentia composição de O Ano Passado em Marienbad. O que é uma pena, já que a atmosfera da noite na cidade (iluminada e repleta de bares e de lojas) se perde na fotografia colorida. O uso das cores, aliás, só me fez querer ainda mais que o filme permanecesse no romantismo do p&b, mesmo que seja este o romantismo nostálgico que Resnais quis evitar no amargo presente de Muriel.

O que resta de Muriel é uma grande amnésia. Com os personagens se perdendo um do outro, partindo em direções diferentes, deixando apenas um apartamento vazio atulhado de antiguidades (sim, o lugar é um antiquário, mas apesar de tão evidente, Resnais teve a elegância de não saturar a metáfora – e eu odeio metáforas -, deixando-a latente, largando-a levemente para que plane, toque e repouse no inconsciente do espectador com o silêncio de algo que, na verdade, sequer está ali). Talvez eu que seja maníaco por construção de atmosferas em filmes, mas Muriel só não é do mesmo nível de Marienbad porque, pra mim, houve este descuido. Poderia ter sido seco, áspero, mas nem por isso evitado a beleza da violência visual. Mesmo assim, é maravilhoso. Uma demão a mais no imenso e talvez definitivo painel da memória composto por Alain Resnais.

3/4

Luis Henrique Boaventura

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Resenhas

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s