A Queda da Casa de Usher (Jean Epstein, 1928)

Mesmo com 80 anos de idade, a atmosfera de horror e degradação psicológica de A Queda da Casa de Usher permanece intocada no ineditismo e exclusividade dos seus efeitos opressivos e por vezes insuportáveis. Isso porque o macabro impera nos pouco mais de sessenta minutos de filme. E sempre de forma poderosa, sempre irrompendo e atravessando os olhos e ferindo a alma com uma força que não cabe ser descrita. Seja neste fluxo de violência de som e imagem, seja na absurda tristeza implícita no fato de um homem tentar sofregamente preservar a beleza da mulher, à beira da morte, na tinta de um quadro, sem perceber que de certa forma a está matando para compor sua obra de arte.

 

Poucas vezes olhos mais terríveis e mais insanos guardaram sob si um silêncio tão eloqüente, uma ausência de palavras que valesse por volumes inteiros. Jean Debucourt é irresistivelmente tétrico, maldito, um filho da puta de um assassino que ao mesmo tempo tem despejados sobre si a culpa e o arrependimento de quem, num primeiro momento, não se deu conta do que fez. Ou do que não fez, e poderia ter feito. Digno de raiva e de pena em doses idênticas, e sufocantes, porque o filme é todo embebido num sulco de veneno.

 

O balé da ventania e o dançar enfeitiçado das cortinas e das folhas secas nos corredores mortos da velha mansão são percorridos, em certo momento, rente ao piso pela lente de Epstein, como se um demônio sempre impregnado naquelas paredes enfim se libertasse e rodeasse doidamente os quartos. É assombroso. Assim como toda a maligna e nociva seqüência do carregamento do caixão, onde a trilha não apenas vive, mas se enfurece como se agisse contra aqueles homens no rito fúnebre sobreposto de velas por Epstein, um recurso que hoje poderia parecer até mesmo ingênuo, mas que afunila a atmosfera e comprime e apreende o espectador num clima tenso ao extremo, sempre ritmado pela trilha pesada, como se as pancadas cheias de raiva naquele piano batessem diretamente em quem as ouve.

 

Todo entorpecido, todo como se tivesse sido concebido no interior de um pentagrama, A Queda da Casa de Usher é uma experiência de quase tortura.

 

4/4

Luis Henrique Boaventura

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