Quarta-feira, Maio 14, 2008...2:40 pm

Eu Sou a Lenda (Francis Lawrence, 2007)

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Will Smith vem aí! Com uma carreira relativamente curta como ator (seu primeiro trabalho foi em 1990, num especial de TV), Smith apareceu, verdadeiramente, com o seriado The Fresh Prince of Bel Air (intitulado Um Maluco no Pedaço, aqui no Brasil e em freqüente exibição pelo SBT) e seguiu carreira com atuações que sempre pendiam para as gracinhas que se acostumara a fazer no já citado seriado e para o rap, “vocação” incômoda que Smith tentou emplacar a todo custo mas que, por azar dele e sorte nossa, nunca, de fato, deu certo.

No cinema, Smith colaborou duas vezes com Michael Bay nos infames Bad Boys I e II, porém, atingiu maior sucesso em Independence Day, de Roland Emmerich e, mostrando que tinha gostado da idéia dos alienígenas, participou das duas versões de MIB – Homens de Preto, ao lado de Tommy Lee Jones. Além desses projetos, ainda vale citar Ali, de Michael Mann e Eu, Robô de Alex Proyas. Foi mais ou menos a partir daí que tanto a crítica quanto o público deram-se conta de uma coisa: Smith, como comediante e ator de filmes de ação era engraçadinho, mas, como ator dramático, era competente! Não é de se estranhar, portanto, que os últimos três trabalhos de Smith (Hitch – Conselheiro Amoroso, À Procura da Felicidade e este Eu Sou A Lenda) sejam tão calcados no aspecto dramático do protagonista.

Pois bem, chegamos à Eu Sou A Lenda. Francis Lawrence (diretor de videoclips e do apenas bom Constantine) é coeso em sua direção e consegue proporcionar alguns bons momentos. Porém, o que derruba mesmo esse projeto (aliás, que conste já: Eu Sou A Lenda não passa de um filme mediano) são seus aspectos técnicos e a pressa com que é conduzido. Mas falemos um pouco sobre a trama antes de açoitarmos o filme por suas falhas: Will Smith é Robert Neville , um tenente (ou tenente-coronel, não sei… as legendas do filme não conseguiam se decidir entre um ou outro) do exército americano, além de ser um cientista. Após o planeta ser assolado por um vírus mortal e indestrutível, Neville é, aparentemente, o último sobrevivente da raça humana, devido sua imunidade ao vírus. Sua única companhia é a cadela Sam, com quem Neville conversa, discute e repreende duramente por suas ações “impensadas”. Entretanto, o personagem de Smith sabe que não está exatamente sozinho no planeta: em recantos escuros de prédios abandonados vive aquilo que sobrou da humanidade: aqueles que não foram mortos pelo vírus acabaram se transformando em criaturas irracionais e vorazes por carne.

Nesse contexto, Neville sobrevive às custas daquilo que encontra de útil na cidade de Nova York (não posso deixar de comentar que a coisa mais útil que ele encontra é um Shelby GT500 que usa para perseguir cervos pelas ruas desertas de NY) e, insistentemente, envia um sinal de rádio, na esperança de encontrar outros sobreviventes como ele. À noite, porém, Neville inicia o ritual mais importante: trancar-se em casa. Como as tais criaturas possuem hábitos noturnos (sendo, assim, sensíveis aos raios UV), abandonam seu refúgio para caçar à noite. Transformando sua casa em uma verdadeira fortaleza, Neville passa as noites assistindo à filmes que ele “aluga” na cidade e tentando descobrir uma vacina para o terrível vírus.

Os primeiros atos do filme são seus pontos fortes: a apresentação de Neville e seu modo de viver numa cidade deserta é bastante eficaz e encontra seu ponto alto em duas cenas: a da caçada aos cervos e a que nos mostra, pela primeira vez, uma visita de Neville à video-locadora que ele freqüenta. Percebe-se, portanto, que o soldado-cientista está se esforçando bravamente para não se deixar tomar pelo desespero de estar sozinho e a não sucumbir à loucura que pode surgir dessa situação. Percebendo a dimensão que seu personagem possui, Smith compõe Neville como um homem que se mantém forte diante de uma realidade que o castiga duramente, seja pelo fato dele ser obrigado a viver sozinho, seja pela perda trágica de sua família (que nos é mostrada através de flashbacks, bem como as linhas gerais de tudo o que se passou nos dias anteriores à quase-extinção da humanidade).
Entretanto, a partir do momento em que conhecemos as criaturas que Neville tanto teme, o filme descamba (o que é uma pena, uma vez que conhecemos as criaturas em uma ótima e tensa cena), só ganhando um pouco de fôlego em uma cena em que Neville tem sua perna ferida e precisa rastejar. As criaturas, por sua vez, são desastrosas, não conseguindo causar, em momento algum, a mínina sensação de ameaça. Feitas digitalmente, elas são plásticas demais e muito “limpas”. Não dá pra deixar de imaginar o que seria esse filme, nesse quesito, se estivesse nas mãos de George A. Romero ou Lucio Fulci (caso este último ainda estivesse vivo).

Outro aspecto fraco do filme é a personagem de Alice Braga que, apesar de mostrar uma atuação satisfatória, acaba sendo prejudicada pelo fato de sua personagem ser simplesmente alguém para Neville conversar e dar desfecho ao filme. Pendurada numa vaga esperança de existir um acampamento de sobreviventes (Extermínio, alguém?), Anna é somente o estereótipo de mãe-que-quer-salvar-seu-filho-da-terrível-situação-que-os-cerca (ah, perdão! Ela é, também, a primeira garota paulistana da História que nunca ouviu falar em Bob Marley).

Perdendo completamente a linha em seus últimos atos, Eu Sou A Lenda torna-se enfadonho e esquemático (e até mesmo vergonhoso, se lembrarmos das cenas em que a criatura macho-alfa aparece), não conseguindo manter a tensão que a cena da primeira aparição das criaturas prometera. Porém, torna-se válido graças às cenas em que Smith está sozinho e mostrando sua competência para o drama. Uma pena que o roteiro acredite que o carisma de seu protagonista seja o bastante para segurar um filme inteiro nas costas.

2/4

Murilo Lopes de Oliveira

7 Comentários

  • nossa, aquela criatura macho-alfa é constrangedora hein. não tem como se convencer que de uma hora pra outra eles começaram a ter algum tipo de razão/emoção ou qualquer coisa similar. sem contar que os efeitos são toscos demais, faz mal pros olhos aqueles leões e cachorros e aquela porra toda. e a grande sacada que era pra ser o desespero de estar sozinho no mundo e sem perspectiva alguma de futuro, já foi explorado com maestria no fodaço Extermínio do Danny Boyle.

    pra esse eu dei 1/4.

  • Sem duvidas se George A. Romero estivesse ali, as criaturas seriam diferenciadas, mas abro aqui uma pergunta: Como sera que um filme mediano e que com somente o carisma de Will Smith (na opinião do ator) o “levando nas costas” conseguiu tal bilheteria e tal reconhecimento aqui no Brasil e no exterior?

    Pois é caros amigos, parece sim que Will Smith leva o filme nas costas e o afz muito bem! Apesar de todos os erros o filme ainda encanta mentes porque nos mostra o futuro incerto e apocaliptico que tanto tememos.

    A graça do filme esta em como um homem sozinho que perdeu a familia e viu sua area, o marco zero ser destruido pelo virus e por estranhas criaturas consegue viver levando ate certo ponto uma “vida normal”.

    E claro, ele se torna uma lenda, por que conseguiu produzir a cura, por que sobreviveu numa cidade como Nova York infestada por vampiros, e que esses tanto o tentam encontrar. E ele se torna uma lenda porque sem duvida alguma Will Smith é uma lenda (alias uma ressalva: ele é um caso raro de um negro nos EUA que vira ator, sobe na vida e é visto como carismatico).

  • bilheteria não tem nada a ver com qualidade.

  • Tenho alguns pensamentos acerca do filme (até comecei a escrever uma resenha pra ele logo depois de ver, mas fui interrompido e não continuei). Primeiramente, não vejo nenhum problema com a idéia de prover os mutantes com um determinado grau de consciência. Tal conceito, inclusive, aparece na primeira adaptação da estória para o cinema, na qual alguns dos “zumbis-vampiros” lembram do Dr. Neville, e, se me lembro bem, até o chamam pelo nome em alguns momentos. O problema nesse Eu Sou a Lenda é a forma como isso é feito, com ares de “twist”, o que absolutamente não funciona.

    O que me leva, inclusive, ao ponto principal do que seria a minha resenha: o grande mote da estória, o significado do título “eu sou a lenda” é mascarado nessa adaptação, e é por isso, penso eu, que o final decai tanto. O caminho escolhido, que não explora muito bem a relação dos mutantes com Neville, não tem tanto a oferecer em termos de conteúdo.

    Ah, sim, e uma vez que citaram Romero, vale comentar que a tal primeira adaptação que eu citei antes é um filme chamado Mortos que Matam (The Last Man on Earth), lançado em 1964. Dizem que a caracterização das criaturas na obra em questão (as vítimas da doença tinham caninos pontudos, como vampiros, mas eram pálidos, com aspecto cadavérico, e se movimentavam lentamente) inspirou os zumbis de Romero em A Noite dos Mortos-Vivos. Como curiosidade, Mortos que Matam é um filme de domínio público, portanto pode ser baixado da internet de forma legal.

  • Como se os outros não pudessem ::B

  • Will Smith, lenda? Hahahahahahaha

    Negros que se dão bem em Hollywood há vários. Smith não é o primeiro e tampouco será o último.

  • Sidney Poitier que o diga.

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